Ayla Miller sempre teve o controle de tudo, perigosa, intensa e criada no meio do crime, ela nunca se ajoelhou por ninguém.
Até que seus olhos se prendem ao garoto mais improvável do colégio: Isaac Willian, o nerd calado que vive sendo alvo de bull...
Meu pai está sentado no sofá, com os dedos entrelaçados e os cotovelos apoiados nos joelhos. À primeira vista, ele parece calmo. Um homem comum, tranquilo, quase entediado. Mas eu o conheço. Conheço demais. Por dentro, sei que sua mente é uma tempestade de pensamentos, estratégias e possíveis desfechos catastróficos.
Minha mãe cuida da perna do Marcus com mãos firmes, porém gentis. E mesmo com o rosto impassível, eu percebo o leve tremor nos dedos dela. Estamos todos reunidos na sala, e a tensão é um gás invisível que preenche cada canto.
— Isso é estranho... — meu pai começa, sua voz grave cortando o silêncio. — O governo sempre foi péssimo em nos encontrar. Nunca tiveram ninguém esperto o suficiente. — ele ergue as sobrancelhas. — Mas, se agora têm... precisamos agir rápido. Antes que repassem qualquer informação para o presidente.
Todos na sala se voltam para ele, atentos.
— Sei como funcionam. Não dão notícia antes de algum progresso concreto. Achar o Marcus não é prova de que ele é um Miller, muito menos de que é da "família perigosa" — ele faz uma voz fina e debochada ao repetir a expressão — Continuem com suas vidas. Eu vou caçá-los. E se por acaso encontrarem esse tipo de gente na rua... — faz uma pausa dramática — corram. Ou matem.
Um arrepio percorre minha espinha.
— Melhor correr. — murmuro quase para mim mesma, e Alice ao meu lado assente com seriedade.
Minha mãe termina o curativo e se levanta com a expressão fechada, mas determinada. Ela chama meu pai com um simples movimento de cabeça, e os dois desaparecem no corredor em direção ao escritório. Eu até cogito seguir, mas... não. Preciso me afastar disso por hoje. Preciso fingir, nem que seja por algumas horas, que minha vida é normal.
Marcus cobre os olhos com uma das mãos, o peito subindo e descendo devagar. Ele parece exausto. Vazio.
— Vamos dormir, Alice. — digo, estendendo a mão para minha irmãzinha, que já está de pijama.
Ela se agarra ao meu braço, e eu a conduzo até seu quarto. A ajeito na cama com carinho, a cobrindo como sempre faço, e fico um tempinho ao seu lado, só ouvindo sua respiração ficando mais lenta.
Volto para meu quarto e fecho a porta atrás de mim com um suspiro. Vou direto para o banheiro, mas paro no meio do caminho quando escuto o toque do celular. Apenas pego sem olhar pro visor.
Atendo antes que a chamada caia.
— Oi, Ryan... tô um pouco cansada. Podemos conversar amanhã?
— Oh, desculpa... não sabia que você estava indo dormir.
Isaac. Droga. Preciso parar de atender ligação sem olhar o visor. Será que ele me ligou porque eu saí do nada?
— Ah! Isaac! — corrijo rápido, — Na verdade, eu ia tomar um banho. Por que ligou?
— Você simplesmente desapareceu. Está tudo bem?
Ai, Deus... Ele está preocupado. Ou será que é só coisa da minha cabeça?
— Sim, aconteceu um imprevisto. Precisei vir pra casa. Mas já está tudo certo.
— Certo... Eu só queria te chamar pra estudar. Posso te ensinar umas coisas, se quiser. Que tal amanhã?
— Claro. Que horas e onde?
— Meio-dia, na minha casa. Pode ser?
Na. Casa. Dele. Não é um encontro, é só para estudar. Mas ainda assim... a casa dele. Isso conta, né?
— Pode sim. Me passa o endereço.
— Te mando a localização. Até amanhã, Ayla.
— Até.
Quando desligo, mordo o lábio tentando conter o sorriso. Eu. Na casa. Dele.
Graças aos estudos... Um passo de cada vez.
***
A localização me trouxe até um prédio tão luxuoso que chego a hesitar na entrada. É imenso, todo envidraçado, com colunas prateadas e uma recepção que parece um saguão de hotel cinco estrelas.
Quase esqueço de respirar.
— Olá. A senhorita é Ayla Miller? — um recepcionista elegante se aproxima com um tablet na mão.
— Sim.
— O senhor Willian está esperando a senhorita no apartamento trezentos e quarenta e dois, quadragésimo segundo andar. — ele sorri com gentileza e me guia até o elevador. — Quando chegar, pode entrar direto. Ele instruiu que a porta estará destrancada.
— Certo... obrigada.
O elevador é de vidro. Conforme subo, sinto o nervosismo subir no peito. O que vou dizer se encontrar os pais dele? E se estiver sozinho? Estou nervosa.
O elevador se abre. O corredor é silencioso e acarpetado. A porta 342 está à minha frente. Hesito um segundo antes de girar a maçaneta.
Entro.O apartamento é de revista. Decoração sofisticada, tons neutros com detalhes dourados, quadros caros, lustres de cristal. Mas está tudo silencioso. Nenhum sinal de Isaac.
— Olá? — chamo, um pouco alto. Nenhuma resposta.
Caminho devagar, admirando cada detalhe. Subo as escadas de madeira escura e, no corredor do andar de cima, escuto um som abafado. Batidas ritmadas.
Sigo o barulho, os passos mais cuidadosos agora. A porta do cômodo está entreaberta, e o som está mais forte.
Empurro com cuidado e, quando olho para dentro, meu coração quase para.
Isaac está de costas. Com uma regata branca colada ao corpo. Ele soca um saco de areia pendurado no teto. Cada movimento é firme, controlado, quase hipnótico. Os músculos dos braços dele se contraem a cada soco. O suor escorre da nuca até a clavícula, colando o tecido da blusa à pele. Seus cabelos estão úmidos, desgrenhados, grudando na testa.
Ele luta boxe.
O nerd mais quieto e misterioso do colégio... sabe boxe. E deixa as pessoas baterem nele sem revidar?
Isso não faz o menor sentido. Ou faz? Talvez ele escolha as lutas que valem a pena.
Droga... esse cara tá me dando pensamentos impróprios.
Continua...
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