Capítulo 18

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Ayla Miller

É segunda-feira. E sinceramente? Eu não queria estar aqui. Não queria ver essas paredes cinzas, nem escutar esses professores repetindo fórmulas que não vou usar. Tudo o que eu queria era ter ficado em casa, ouvindo meu pai explicar o que descobriu.

A ansiedade está me corroendo por dentro. Alguém está tentando nos matar, isso é certo. Só não sabemos ainda quem. Meu pai desconfia que seja alguém do governo, mas... sei lá. Isso me parece mais pessoal. Talvez sejam inimigos antigos dos meus pais — e olha que não são poucos.

Muita gente odiava minha mãe. E mais gente ainda odeia o meu pai. Não duvidaria nem um pouco que estejam mirando nos filhos pra atingir onde mais dói.

Mas também... vai que seja mesmo o governo? Um agente secreto, um assassino profissional, um lobo vestido de terno, contratado pra nos apagar como se fôssemos ameaça. Tá, talvez eu esteja viajando. Mas depois do que aconteceu... nada parece impossível.

Respiro fundo. O ar fresco do pátio me acalma um pouco. Estou indo devagar pra sala, mas acabo parando no meio do caminho quando meus olhos capturam uma cena que me faz desviar totalmente a rota.

Isaac. Sentado, afastado do resto do mundo, com um livro aberto nas mãos.

"Uma vida com você", diz o título. Bonito. Romântico até. Não consigo ver o nome do autor — o dedo dele está em cima — mas também, nem me importo. Nunca fui muito fã de livros.

Me aproximo devagar, sem fazer barulho.

— Não sabia que você matava aula... — comento, tentando soar casual.

Ele nem se mexe. Continua lendo como se minha presença fosse apenas mais um som de fundo.

— Minha primeira aula é o clube de literatura. Não estou matando. — responde sem tirar os olhos das páginas.

— Hm... — me agacho ao lado dele e abraço os joelhos, observando seus olhos se moverem pelas linhas com precisão. — Seus olhos são bonitos.

Dessa vez ele me olha. Friamente.

— São castanhos-escuros. Iguais aos seus. Não tem nada de bonito nisso.

— Mas eu acho bonito. — apoio o queixo no joelho e o encaro. — Isso basta pra ser.

Ele revira os olhos.

— Gosto peculiar.

— Você não gosta da cor?

— Não.

— Eu gosto. Me lembra um monte de coisas boas. E você? Qual é sua cor favorita?

Eu sei que é amarelo. Só quero ouvir ele dizer.

— Vermelho.

— Que mentira. É amare- — coloco a mão na boca antes de terminar. O olhar que ele me lança me faz gelar.

— Se já sabia, por que perguntou?

— Só... tentando puxar assunto...

Ele fecha o livro com calma, sem pressa, e volta a fitar o nada.

— Vai pra aula. Não é bom você ficar matando assim.

— Não tenho uma faca pra matar ela. — sorrio, com a piada idiota. Ele me olha — O quê?

— Não precisa de uma faca pra matar.

Meu sorriso morre no rosto. O olhar dele é tão frio que parece cortar minha pele. Isaac tem esse poder: destruir o clima. Depois, simplesmente volta a ignorar tudo e foca no livro, como se eu fosse só vento.

Odeio isso nele. Essa habilidade de se desligar. De me desconectar.

— Você gosta de batata com queijo e carne? — pergunto de repente, meio por impulso. Trouxe duas porções.

— Batata com queijo e carne? — ele ergue as sobrancelhas — Foi você que fez?

— Sim. Quer experimentar?

Ele me encara por um tempo que parece eterno.

Sento no chão, ignorando o incômodo do capim pinicando minha perna. Pego a tampa da vasilha e sirvo um pouco pra ele.

Isaac tira os óculos, que embaçaram por causa da fumaça da comida, e sopra o vapor antes de levar a primeira garfada à boca. Mastiga com calma. Analisa como se fosse um crítico gastronômico.

— E aí? O que achou?

— Tá bom. Pelo menos você sabe usar o cérebro pra alguma coisa útil. — diz, seco.

Minha cara fecha, mas não consigo segurar quando vejo: um sorriso. Um sorriso verdadeiro.

— Você... sorriu! De verdade!

Ele desvia o olhar e empurra a batata de volta pra mim.

— Tá delirando.

— Eu vi!

— Não viu. — ele limpa a boca com um guardanapo e estende a tampa. — Tô indo.

— Pra onde?

O sinal toca.

— Sala.

Fecho a vasilha sem conseguir parar de sorrir. Ver aquele sorriso foi um prêmio inesperado.

— Deixa eu adivinhar sua cor favorita.

— Vai lá. — sorrio, animada com a troca.

— Azul.

— O quê? Como...?

— Você tá usando uma calcinha azul.

Ele diz com a maior naturalidade, se levanta e sai andando como se não tivesse acabado de explodir uma bomba na minha dignidade.

Fico parada. Em choque.

— Como...?! Eu tô de meia-calça... — olho para as pernas — Puta que pariu.

Eu esqueci a meia-calça.

Saí tão apressada de casa que nem percebi. A meia que sempre uso por cima ficou esquecida. E eu, toda segura, sentei como se estivesse protegida de olhares alheios.

Maldito. Viu tudo.

Agora minha alma quer sair do corpo.

Pego minhas coisas com pressa, quase tropeçando nos próprios pés. Quero desaparecer. Cavar um buraco no meio do pátio e nunca mais sair. Como fui tão idiota? Sempre me certifiquei.

E agora... isso. Que vergonha.

O que será que ele pensou? Será que achou que eu queria que ele visse? Será que devia pedir desculpas? Ou fingir que nada aconteceu?

Ai, Ayla... por que você tem que ser tão você?

Continua...

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