Capítulo 33

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Ayla Miller

Tem dezenas de mensagens do Ryan no meu celular. Esse idiota enfiou o nariz onde não foi chamado, de novo. Odeio quando ele faz isso. Odeio mais ainda porque, agora, preciso garantir que ele não acabe morto por causa da própria impulsividade. Se aquele cara descobrir que está sendo seguido, não vai hesitar em apagá-lo.

Ryan
Descobri onde o cara mora. Não foi difícil. As pessoas aqui comentam que um sujeito estranho se mudou pro prédio do andar de cima.
Queria te contar pessoalmente, mas você não apareceu no colégio hoje. E aí, vamos bisbilhotar o apê dele? Pode ser que encontremos algumas respostas.

O que ele tem na cabeça? A ideia não é ruim, mas é arriscado demais pra ele. Droga! Odeio depender dos meus pais pra resolver isso. Quero encerrar isso de uma vez. Com ou sem medo.

Ayla
Certo. Manda a localização.

Ryan
Até que enfim! Achei que tinha batido as botas.
Ele sai de manhã, por volta das oito, e só volta às dez. Temos esse intervalo pra vasculhar o lugar.

Ayla
Como você sabe disso?

Ryan
Observei. Não é difícil seguir a rotina de alguém, Ayla. Além disso, ele contratou uma equipe de dedetização para eliminar baratas. Achei que podíamos nos disfarçar.

Ayla
Você tá falando sério? Eu tenho pavor de baratas!

Ryan
Você aguenta. Confio em você.
Ele deixou instruções na recepção pra deixar os "dedetizadores" entrarem enquanto estiver fora. É a chance perfeita.

Ayla
Tá. Mas com uma condição.

Ryan
Qual?

Ayla
Depois disso, você não se envolve mais. Ou aceita isso, ou nem vamos.

Ryan
Qual é?! Eu tô tentando te ajudar!

Ayla
Justamente. E é por isso que não quero você nisso. Sua vida importa pra mim, ok? Ou aceita, ou fim da conversa.

Ryan
Tá bom, tá bom. Não me envolvo mais.

Ayla
Ótimo. Até amanhã.

Ryan
Chata.

Desligo o celular com força. Quando olho pra fresta da porta do quarto, a luz do corredor ilumina uma sombra.

— Está com fome? — é a voz da minha mãe, abafada do lado de fora.

Fico em silêncio.

— Está dormindo, filha?

Não respondo. O orgulho me mantém muda. E eu odeio isso, porque também sou feita dele. Enquanto não ouvir um pedido de desculpas, vocês não existem pra mim.

A sombra se move, os passos se afastam até o silêncio tomar conta outra vez.

***

O prédio é pequeno, mal parece um lugar onde alguém moraria. Tem cara de motel de beira de estrada, com três andares que rangem a cada vento mais forte. Estou do lado do Ryan — vestida como uma maldita dedetizadora — e tentando não morrer de vergonha.

Céus, como fui me meter nisso?

— Vamos fazer o seguinte — ele se vira pra mim, ajustando os óculos de proteção ridículos — Tudo que mexermos, a gente coloca no lugar exato de novo. Aposto que ele sabe até onde cada porra de objeto tá.

Ele puxa um papel da mochila e me entrega.

— Consegui só essa foto dele.

Observo. Um homem alto, parcialmente encoberto por um boné preto. Só metade do rosto aparece, mas é o suficiente. Olhos castanhos-escuros, expressão irritada, maxilar travado. O pouco de cabelo castanhos-escuros visível. Pele clara, sem tatuagens.

Tem algo nele que me dá calafrios.

Algo familiar, mas que minha memória se recusa a trazer à tona.

— Vamos. Não temos tempo — Ryan pega a foto de volta e caminha à frente.

Entramos pela recepção. Ele conversa com a atendente por alguns minutos, até ela acenar para subirmos. Usamos as escadas até o terceiro andar. O quarto é o dezenove. A recepcionista abre a porta, diz que temos autorização para "limpar tudo". E sai, sem nem olhar pra trás.

Coloco a máscara antes de ela nos notar de verdade. Entro primeiro. O apartamento é até arrumado. Nada que indique uma investigação, ou qualquer paranoia. Mas tem baratas. Muitas. Asquerosas. Andando pelo chão como se fossem donas do lugar.

— Seja rápida — Ryan diz baixinho.

Pego o veneno, borrifo onde vejo os insetos, fingindo que estou ali pra isso. Mas meu foco é outro. Vasculho cada canto. Nada. Até chegar no quarto.

Ali, o cheiro muda. Forte. Podre. Um cheiro que reconheço na hora.

— Tem um cadáver aqui — murmuro, cobrindo a máscara com a mão, tentando bloquear a náusea. — Reconheço esse cheiro em qualquer lugar.

— Como assim? — Ryan surge ao meu lado

— Meus pais já transportaram drogas dentro de corpos, lembra? Eu sei exatamente como a morte cheira.

O fedor aumenta conforme nos aproximamos do closet. Abro a porta. Nada. Mas uma fileira de baratas parece indicar algo.

— Segura isso — passo o frasco pro Ryan e bato na parede.

É oca.

Empurro com força. A parede falsa cede, revelando um compartimento escondido. O cheiro é avassalador.

Ali dentro, uma maca. Um corpo de um garoto. Coberto de baratas. Ao redor, dezenas de fotos minhas.

Fotos recentes.

— Puta merda — Ryan recua, ficando do lado de fora — Vou cuidar das baratas aqui... você vê o resto.

Me aproximo, quase hipnotizada.

As fotos cobrem a parede. Eu no colégio. Eu com o Isaac. Eu no restaurante ontem à noite. Eu no quarto da casa da praia. Ele está me seguindo há semanas. Talvez meses.

Na mesa, um mapa.

Alfinetes vermelhos marcando lugares: a casa do Ryan. A antiga casa do Isaac. O condomínio onde ele mora agora. Meu colégio. Minha casa.

Esse maldito está me cercando.

Continua...

Obrigada por ler, não se esqueçam de votar, me ajuda muito! Vou postar mais um capítulo hoje para encerrar, até lá! ❤️

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