Capítulo 30

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Ayla Miller

Ajudar como garçonete até que não é tão ruim... até os clientes começarem a abrir a boca. Não sei quantas vezes já tive que engolir a vontade de estapear algum deles. Juro que tento ser gentil, mas, caramba, algumas pessoas parecem sair de casa só pra descontar a frustração em quem está servindo.

E olha que só estou nisso há algumas horas. Passei o dia inteiro dormindo, usei uma roupa emprestada da afilhada da Elis pra conseguir tomar um banho e, agora, estou aqui... circulando de mesa em mesa, tentando sorrir enquanto me chamam de "moça" com aquele tom asqueroso.

Entrego mais um pedido pra Mica, que sorri com uma paciência invejável. Ela me passa outra bandeja, e caminho até a próxima mesa com cuidado, deixando os pratos, perguntando se querem algo a mais. Como dizem que não, volto pro balcão, esperando o próximo chamado.

— É puxado, hein? — Mica comenta, apoiando os braços no balcão.

— Demais. — respiro fundo, encarando a janela. Está escuro lá fora e a chuva não dá trégua.

— Eu nunca me acostumo com tanta gente — Filipe se intromete, o filho mais novo da Elis, parecendo ainda mais exausto que eu. — Como você tá se sentindo?

— Cansada. Nunca trabalhei assim antes. — dou uma olhada nele. Os olhos fundos, a expressão abatida... estamos todos no limite.

— Eu tô morto.

Mal consigo responder quando o som do sininho da porta me faz endireitar a coluna. Mas em vez de algum cliente mal-educado, é Isaac quem entra. Com o corpo completamente encharcado, ele sorri sem jeito — e, mesmo molhado da cabeça aos pés, não consigo ignorar o tom avermelhado das bochechas, o tremor sutil nos braços.

— Que porra, Isaac — Filipe resmunga ao meu lado. — Vai sujar o restaurante todo, cara!

— Foi mal... prometo que limpo — ele responde, deixando um rastro de poças pelo chão. — A chuva me pegou no caminho.

Está tremendo. Os dentes batem, o corpo se encolhe.

— Meu Deus, menino! — Elis surge da cozinha, segurando uma colher como se fosse uma espada. — Vai se trocar antes que fique doente! Tem roupas lá no fundo. Ayla, leva ele.

— Quê? Por que eu? — pergunto, meio indignada.

— Filipe vai limpar esse chão, então sobra você. Agora anda! — ela some de volta pela porta da cozinha.

Reclamar não adianta. Reviro os olhos e sigo para os fundos, sabendo que Isaac virá atrás. Ainda estou com aquela pontada de ciúmes do dia anterior... Tifanny, sempre no meio. Porra...

Subo as escadas para o segundo andar, caminhando pelos corredores até o quarto de hóspedes, onde estou ficando. Há roupas masculinas no armário, o que me faz suspeitar que talvez esse fosse o antigo quarto do próprio Isaac.

— Trabalhar aqui é difícil assim todo dia? — ele pergunta atrás de mim, com a voz tremendo.

— Um pouco — respondo, de costas, pegando uma toalha e roupas secas.

— Vai voltar pro colégio amanhã?

— Não.

— Ayla, você precisa estudar. As provas estão chegando...

— Ultimamente, isso é o que menos importa — largo as roupas secas sobre a cama, sem olhar pra ele.

— O quê? — ele bate o queixo. — O aquecedor não tá funcionando?

— Não.

— Você... pode me ajudar a tirar a roupa? Minhas mãos estão congelando, não consigo nem mexer direito.

Meu corpo congela. Por um instante, penso em mandar ele se virar. Mas quando olho pra ele — o jeito que está tremendo, os olhos envergonhados respiro fundo e me aproximo.

Começo pela gravata, depois a mochila, que coloco no canto. Em seguida, tiro o terno pesado e molhado de seus ombros, e vou para a camisa. Meus dedos encontram os botões, um por um. Tento manter o olhar firme em qualquer coisa que não seja o peito dele... mas é difícil. Cada botão revela mais pele, mais músculos, mais detalhes que me fazem engolir seco.

Tiro a camisa e pego a toalha, me obrigando a desviar os olhos para onde minha mente implora pra olhar.

— Posso? — pergunto, mostrando a toalha.

— Pode.

Passo a toalha pelos ombros dele, secando o mais rápido que posso. Tento não encarar, mas é impossível não notar o tanquinho bem definido, as malditas linhas do abdômen que descem até a cintura e somem sob a calça.

O coração bate forte, barulhento. Coloco a toalha sobre a cabeça dele.

— Não vai voltar pra escola mesmo?

— Não sei. — retiro os óculos dele e coloco sobre a cômoda. — Vou pensar.

Começo a secar seu cabelo, passando a toalha entre os fios escuros. Meus braços já doem, o movimento é desconfortável.

— Pode se abaixar um pouco?

Ele sorri, e eu sei exatamente o que ele entendeu com isso. Mas obedece, ficando na minha altura.

Continuo secando, até perceber o olhar dele em mim. É intenso. Fixo. Não consigo mais fingir que não percebo.

— Que foi? — pergunto, tentando soar casual.

Ele não responde. Só continua me encarando, como se estivesse vendo algo que eu mesma não vejo.

Faço uma careta desconfortável, mas ele permanece imóvel, olhos grudados em mim. Coração acelerado.

— Isaac, o-

— Posso te beijar?

Continua...

De nerd só a cara mesmo

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De nerd só a cara mesmo.

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