Capítulo 2

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Ayla Miller

A música estronda como um soco direto no peito. Cada batida vibra no meu corpo, e o cheiro denso de álcool e cigarro impregna nas roupas, nos cabelos, nos pensamentos. Já virou rotina: passo aqui todos os santos dias antes de voltar pra casa. Não é porque amo o lugar — é porque odeio o outro.

Evito a minha casa como um rato foge da ratoeira. O clima lá dentro é sempre o mesmo: gritos, ordens, ameaças disfarçadas de conselhos. Meus pais discutem por qualquer coisa, e quando não discutem entre si, sobra pra mim. E eu? Eu só quero paz. Só quero existir sem ter que me moldar à porra de um legado que me sufoca desde que aprendi a andar.

Ryan foi quem me trouxe pra essa boate pela primeira vez. Desde então, é o único refúgio onde consigo respirar. Bebemos, fumamos, falamos besteiras. Ele me distrai. Faz piada, dança ridículo, e às vezes até consegue me fazer rir. É o único que tenta aliviar esse peso na minha cabeça, ainda que temporariamente.

Mas por mais que eu tente esquecer, a verdade sempre volta. A minha família a maldita família Miller tem um jeito peculiar de lidar com o estresse: eles matam. Matam por dívida, matam por traição, matam por tédio. São ceifadores de ternos caros e corações podres. Eu sou a única Miller que não quer carregar sangue nas mãos.

Eles dizem que estou sendo rebelde. Rebelde? Que piada. Sou só uma garota que se recusa a virar uma assassina de aluguel. Que não quer trocar o som do coração por um gatilho fácil. Que sonha, sim, com uma vida calma. Com um marido decente. Talvez filhos. Talvez um cachorro. Um quintal com girassóis. Ridículo, né? Mas é o que eu quero.

— No que você tá pensando? — a voz rouca de Ryan me puxa de volta, e quando viro o rosto, ele tá ali com uma expressão cansada.

— Em como vou encarar meus pais quando chegar em casa — falo alto, quase gritando por cima da batida eletrônica.

— Eles ainda tão insistindo pra você seguir os passos deles?

— Sim. Como se eu fosse um boneco. — forço um sorriso, mas ele morre nos meus lábios — Só que a pressão tá demais, Ryan. Eu tô no meu limite.

— Você sabe que minha casa tá sempre de portas abertas pra você.

— Eu sei. Mas meus pais não deixam barato. Se eu sair de casa, eles vão sabotar tudo: emprego, casa, amizades. E se eu me abrigar com alguém, essa pessoa vira alvo também. Eles sabem como destruir a vida de alguém sem nem precisar encostar. Isso tá me matando aos poucos — minha voz falha no fim, e eu desvio o olhar.

Ryan não responde. Porque ele sabe. Ninguém compra uma briga com os Miller e sai vivo pra contar. Nem ele, com todo o prestígio de ser o queridinho da escola, ousaria bater de frente com eles.

Meu celular vibra pela décima vez. O nome do meu pai pisca na tela, como uma maldição. Prendo a respiração. Melhor não arriscar. Se eu demorar, ele manda os capangas me caçar como se fosse uma missão. E eles sempre acham.

— Tenho que ir. Antes que mandem uma comitiva armada atrás de mim — digo, já pegando minha mochila.

— Até amanhã. — ele sorri, fazendo nosso cumprimento de sempre

— Até — murmuro, e saio pela porta da boate.

O ar da madrugada me acerta como um tapa, frio, limpo, silencioso. Caminho pela calçada, ignorando táxis, ônibus, qualquer meio rápido de chegar em casa. Eu quero andar. Preciso andar.

Um carro preto encosta do meu lado. Quase um reflexo condicionado, fecho os olhos e solto um suspiro pesado. Entro. A porta fecha atrás de mim como uma sentença.

O silêncio no carro é pior que a música da boate. É denso, quase pegajoso. O homem sentado ao meu lado no banco de trás, respira fundo..

— Não sabe atender o celular, Ayla? — a voz dele sai seca, cortante. — Quantas vezes eu já disse que é pra atender quando eu ligo?

— Tava no silencioso — minto, olhando nos olhos dele, mesmo sabendo que não deveria.

Ele esfrega a barba bem aparada com os dedos tensos, depois bagunça os cabelos lisos que estavam perfeitamente penteados pra trás. O celular vibra de novo na minha mão. Alto. Audível.

Merda.

— No silencioso? — ele repete, com os olhos estreitos. — Até quando você vai continuar... MENTINDO?

O tapa no vidro vem como um trovão. Meu corpo inteiro estremece. O vidro trinca. Uma rachadura se espalha bem na minha frente.

Ele respira fundo. Dá pra ouvir o ar passando com força por entre os dentes. Passa a mão pelos cabelos de novo, recolocando-os no lugar como se isso fosse apagar o surto.

— Vamos falar sobre o motivo real da ligação — tenta manter a voz firme, mas as veias saltadas no pescoço o entregam. — Suas notas. Estão uma merda. E desse jeito você vai reprovar.

Ele fecha os olhos, respira de novo. Tá se segurando.

— Se você quer rejeitar a herança da família, ótimo. Mas então seja boa em alguma coisa. Vai pra uma faculdade decente. Seja a porra de uma aluna excelente. Para de brincar de ser rebelde.

— E o que vai mudar se eu tiver notas boas?

— O SEU FUTURO, PORRA!

O celular na mão dele quebra.

Continua...

Podemos ver que a família Miller é um amor 🥰

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Podemos ver que a família Miller é um amor 🥰

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