Capítulo 49

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Isaac Willian

Assim que chego no meu apartamento, solto um suspiro pesado e começo a desfazer o nó da gravata. Tiro o terno com um movimento cansado e o penduro no encosto da cadeira. Meus pais apareceram de surpresa. Um jantar improvisado, e o mesmo olhar frio do meu pai, que ainda não engoliu o fato de eu ter recusado tudo o que ele queria enfiar na minha vida à força.

A única parte boa é que minha mãe resolveu passar as férias por aqui — assim, pelo menos a Liz não fica sozinha.

— O que achou da Katy, querido? — pergunta minha mãe com aquele sorriso animado e forçado demais

— Uma garota legal — murmuro. — Mas eu não quero namorar agora, mãe.

— Por quê? Ela é tão gentil — ela me olha com seus olhos negros e alegres, como se já planejasse o casamento.

— Eu sei. Mas quero focar nos estudos. Já falei com vocês. Não quero pressão sobre isso.

Não é pelos estudos. É porque já tenho alguém. Alguém que me tira do chão e me deixa inteiro ao mesmo tempo.

— Está bem, está bem! — ela ergue as mãos, ainda com aquele sorriso manso nos lábios. — Sem pressão.

Ela sobe as escadas com a leveza de sempre. Meu pai permanece mudo como uma estátua. Continua irritado.

Subo pro meu quarto, fecho a porta com o pé, e ligo a luz. A gravata vai pra cama, junto com o peso do meu corpo. Meu celular vibra no bolso. Número desconhecido.

Normalmente, eu não atenderia.

— Isaac?

— Alice? — minha postura muda na hora.

— Sim... — ela fungava. Estava chorando.

— O que aconteceu? Tá tudo bem?

— Eu queria pedir um favor... — sua voz falha. — Você pode me ajudar?

— Claro, Alice, diz pra mim. O que foi?

— Ayla brigou com nosso pai. E... sempre tem discussão, você sabe, mas dessa vez... ele passou dos limites. Ele... ele bateu nela

Fico em silêncio por um segundo, tentando processar.

— O quê? — minha voz sai mais grave. Sento na cama, a raiva se acendendo como fogo.

— Eu não sei pra quem ligar, não tenho o número do Ryan, me desculpa por incomodar, mas eu... tenho medo que algo ruim aconteça. Ela saiu. Disse que não volta mais. Pode falar com ela? Tentar trazê-la de volta?

— Alice... eu não sei se consigo convencê-la. E pra ser sincero... eu nem quero que ela volte.

— Por favor... — sua voz se quebra, tomada pelo choro. — Aqui tá tudo um caos. Eu não aguento ver minha irmã sumir assim...

— Onde você acha que ela pode estar?

— Na rua Stilwart... nos prédios abandonados. Ela sempre vai lá quando precisa pensar. Fica no telhado, diz que a vista é linda...

— Tudo bem. Eu vou até lá. Mas não prometo nada.

Ela me agradece várias vezes. Encerramos a ligação. Rapidamente troco de roupa, pego as chaves e saio. Passo pela sala quase correndo. Aviso minha mãe que vou sair, mas não fico pra ouvir qualquer resposta. Entro no elevador, cada segundo de descida me fazendo pensar no que vou encontrar.

Tento me concentrar para não entrar em pânico aqui dentro.

***

O prédio abandonado fede a mofo, poeira e abandono. Subir todas aquelas escadas, com os degraus rangendo sob meus pés, faz meu pulmão arder. O lugar parece prestes a desabar.

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