Capítulo 29

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Ayla Miller

Pensei em procurar algum canto escondido em uma loja fechada pra dormir, mas Isaac disse conhecer uma senhora que poderia me emprestar um quarto. Em troca, eu lavaria a louça acumulada no pequeno restaurante dela.

Óbvio que aceitei. Uma cama de verdade e um teto sobre a cabeça por algumas vasilhas? Eu faria até faxina completa se pedissem.

O restaurante por fora é modesto, com uma fachada simples, meio apagada pela ação do tempo. Mas por dentro... é outra história. O piso limpo reflete as luzes amarelas suaves, e o ar cheira a tempero caseiro e café fresco.

A dona nos recebe com um sorriso caloroso e abraça Isaac como se ele fosse da família. Uma senhora de pele escura, rosto redondo e cabelo crespo preso em um coque alto. Seu avental está sujo de farinha e molho, mas ela parece não ligar. Belisca a bochecha dele com carinho e solta uma risada gostosa, daquelas que aquecem o ambiente.

Depois de algumas trocas de palavras entre eles, seus olhos escuros e brilhantes se voltam pra mim. Ela se aproxima com o andar firme.

— Oi, Ayla! Eu sou a Elis! É um prazer te conhecer — diz, estendendo a mão.

— O prazer é todo meu — respondo, apertando a mão dela, que é quente e firme, como de quem trabalhou a vida toda.

— Como é amiga do Isaac, te dou o quarto de visitas — ela sorri largamente — Mas só se me ajudar com as vasilhas

— Pode deixar. Eu ajudo, sim — respondo

— Ótimo! — ela bate palmas, empolgada — Vou fazer algo pra vocês comerem.

— Não precisa — Isaac a impede com delicadeza, segurando o braço dela. — Eu preparei uma comida pra Ayla...

— Você guarda pro almoço de amanhã, meu bem. Só vou esquentar uma coisinha simples, não se preocupem — e já vai saindo em direção à cozinha com aquele passo apressado e ritmado.

Fico plantada no meio do salão sem saber onde pôr as mãos até Isaac apontar para uma mesa no canto. Nos sentamos. Ele pergunta se Elis precisa de ajuda, mas ela recusa com um gesto do pano que carrega no ombro.

O barulho de um celular vibrando quebra o clima. Não é o meu. Isaac pega o dele, lê a mensagem com as sobrancelhas franzidas e logo guarda de volta.

— Preciso ir — diz, se levantando. — Deixei minha irmã com a Tiffany, e agora ela quer ir embora.

Tiffany. A palavra me entra como uma pedra na garganta. Tento não mostrar nada, mas a verdade é que tô com ciúmes. Merda de sentimento inútil.

— Certo.

Ele continua ali em pé, e por um segundo acho que vai dizer mais alguma coisa. Seus olhos pousam.

— Você vai amanhã?

— Pra onde?

— Pra escola.

— Ah... não. Tô sem uniforme, sem caderno, sem nada. — dou de ombros

— E a arte que você começou a limpar?

— Também não vou terminar. Já dei meu recado.

Ele solta um leve suspiro e sorri de canto.

— Posso te emprestar tudo, se quiser.

— Já fez muito por mim, Isaac. Obrigada — minha voz sai mais baixa e seca do que eu queria.

A verdade é que... o ciúme não está me deixando ser "normal". Tiffany, é? Porra...

— Posso te emprestar mesmo assim — ele insiste, com os olhos presos nos meus.

— Agradeço... mas passo dessa vez.

— Tá bem... Até amanhã.

Respondo com um "até" quase sussurrado, desviando o olhar. Se tem uma coisa que eu não sei fazer, é disfarçar ciúmes. Esse sentimento me corrói. Por que ele existe?

Escuto Isaac se despedindo da Elis com carinho antes de sair pela porta da frente. O restaurante agora está vazio, silencioso, com algumas luzes suaves acesas. Fico imóvel, por uns segundos, até ouvir a voz da senhora me chamando da cozinha.

Levanto e caminho até lá. Peço licença antes de entrar. Ela está enxugando as mãos, sorridente.

— Bem... agora quero sua ajuda — diz, com aquela doçura.

— Claro. O que tenho que fazer?

— Pode começar cortando essas verduras.

Levo minhas mãos bem rápido. Pego a faca com cuidado e vou picando as folhas enquanto ela me observa. Conforme as lâminas deslizam pela tábua, Elis começa a conversar. Me conta que só trabalha com família: a afilhada fica no caixa, o filho mais novo serve as mesas, e ela, a mãe e a avó se revezam na cozinha. Fala da filha mais velha, que está longe, cursando faculdade em outro estado.

Ela menciona que todas na família tiveram filhos jovens.

— Se quer um conselho, arrume uma renda antes de pensar em filho. Amor é lindo, mas fralda é cara.

Sorrio, assentindo, até que ela muda o rumo da conversa com um sorriso.

— E o que acha do Isaac?

O movimento da faca desacelera. Finjo naturalidade.

— Ah... Ele é um garoto legal.

— Só isso?

Ela cruza os braços, limpando os dedos no avental, e me encara com aqueles olhos espertos.

— Sim — minto.

— Mentirosa! — ela ri. — Vi como você olha pra ele.

— O quê?! — quase deixo a faca cair.

— Ah, Ayla! — ela joga um pano no ombro e se aproxima. — Eu já fui menina, minha querida. Sei bem como é estar apaixonada. Já se confessou?

— Não... — respondo num sussurro, constrangida.

— Já pensou em dizer?

— Às vezes. Mas a gente começou a se falar faz só uma semana. Antes disso, eu só observava de longe.

— Se você ficar enrolando, vai perder um homão — ela ergue as sobrancelhas, divertida. — Se eu tivesse sua idade, já tinha tentado amarrar esse menino!

— Quê?

— Isaac é tudo que uma mulher quer — ela pisca — Mas vou deixar você descobrir sozinha.

— Gostar dele é... difícil. Sempre tem alguma garota em cima.

— Eu sei, meu bem. Quando ele vem aqui, é a mesma coisa. Acha que só porque ele usa óculos e finge que não liga pra nada, que ele não sente? Isaac pode até ser um nerd por fora, mas por dentro... ele tá esperando por alguém. Por isso eu digo — ela continua — se não se confessar logo, outra vai fazer isso antes.

Eu não sei... Talvez ela tenha razão. Mas e se ele recusar? E se nunca mais quiser falar comigo?

Continua...

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