Capítulo 26

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Ayla Miller

Com o cigarro entre os dedos, observo os alunos lá embaixo. Eles parecem formigas, todas vivendo suas vidas perfeitas.

Ainda estou com a roupa de ontem manchada de poeira, sangue seco e lembranças. Não tive tempo de voltar pra casa, trocar de roupa ou pegar a mochila.

Não faço ideia de pra onde ir, ou como vou viver a partir de agora. Só sei que preciso resolver isso. Sozinha. Preciso dar um fim nessa merda toda e vou fazer isso sem matar ninguém. Eu vou provar pros meus pais que a morte não é a única solução. Que ser humano ainda pode significar algo.

— Até que enfim te achei.

A voz rouca e debochada corta meus pensamentos. Me viro, e vejo Ryan se aproximando com aquela cara de quem já viu coisa demais pra alguém da nossa idade. O loiro passa a mão pelos cabelos e, à medida que se aproxima, seu semblante brincalhão se contorce em preocupação.

— Então... vai me dizer o que houve?

Dou uma tragada longa no cigarro, deixando a fumaça preencher meu peito antes de responder com um sorriso sarcástico.

— Bem... tirando o fato de que quase fui morta ontem, que tem assassinos atrás de mim e da Alice, que o governo tá querendo nos prender, que eu soquei o nariz do garoto que eu gosto, e que ele me alimentou e me beijou depois disso... ah, e que fui expulsa de casa e tô oficialmente sem teto... fora isso, tá tudo ótimo.

Ryan solta um riso surpreso, meio sem acreditar.

— Caralho... eu achei que tinha acontecido alguma coisa séria.

A risada que escapa dos meus lábios é curta. Ele sabe como quebrar o gelo, sempre soube.

— Pelo visto, sua vida tá um pouco pior que novela mexicana.

— E quando não esteve? — pergunto

— Bom... já teve dias que pelo menos pareciam mais normais — ele apoia os cotovelos no pequeno muro do terraço — E agora? O que você vai fazer?

— Descobrir quem tá atrás da gente. Antes que ele nos ache primeiro.

— E como pretende fazer isso?

— Tenho contatos. Lugares pra ir. Câmeras pra fuçar. Eu dou um jeito.

— Você sabe que eu posso te ajudar, né?

Seu olhar vai direto para o roxo na minha testa.

— Não quero te envolver. Isso é meu. Quero manter assim.

— Claro... — ele responde, mas sei que não vai se afastar.

Por um momento, só o silêncio nos acompanha. O vento sopra com força, bagunçando meu cabelo e levando parte da fumaça que escapa do cigarro.

— Pode comprar uns sprays? Quero fazer uma coisa.

— Claro. Mas só se você me deixar ajudar. — ele sorri torto.

— Você sempre ajuda.

Ele dá um aceno leve e caminha até a porta do terraço, dizendo que volta logo. Quando se vai, deixo o cigarro queimar mais um pouco. O gosto amargo dele é quase acolhedor agora.

A porta range de novo. Me viro esperando Ryan, mas não é ele.

Isaac.

O garoto dos olhos intensos e dos silêncios cheios de peso. Ele se aproxima com passos calmos e uma sacola branca nas mãos. Dentro, há uma vasilha.

— Não conseguiu trocar de roupa? — ele pergunta, se aproximando.

— Não... Fui expulsa de casa — solto a fumaça devagar, como se fosse confissão.

— Imaginei — ele murmura — Deveria parar de fumar... pode te matar.

— Essa é a intenção.

Isaac fecha os olhos por um segundo.

— Ayla... — ele diz meu nome como se estivesse me chamando de volta à vida — Sempre vai haver problemas. Não é como eles dizem. Você não é um caso perdido.

Ele se aproxima um pouco mais, e seu olhar crava no meu.

— A vida não é fácil, e nunca vai ser. Mas você não precisa passar por isso sozinha. Me diz o que sente... e eu prometo que te ajudo. Sem julgamento. Você é... — ele faz uma breve pausa — importante pra mim. De alguma forma.

Sou importante pra ele? Quer dizer, eu percebi isso ontem, mas não imaginei que estava falando sério.

— Você não precisa morrer pra se libertar, Ayla. Não precisa se destruir só porque os outros não te enxergam. Eu vejo você. E eu acredito que você pode mudar o rumo da sua história.

Olho o cigarro entre meus dedos, o filtro já queimando. Apago contra o cimento e o deixo cair do alto do prédio.

— Você é um menino de ouro... — murmuro, quase sem voz.

— Tá com fome?

A pergunta vem acompanhada da abertura da vasilha: arroz, carne, legumes, bacon, um pedacinho de torta. Tudo separado com cuidado. Ele pensou em tudo.

— Você fez pra mim?

— Eu já imaginava que ia acabar assim. Então sim... fiz pra você.

Sinto o estômago apertar.

— Obrigada — respondo baixinho, tentando ignorar o roxo no nariz dele.

Pego o garfo. Começo a comer em silêncio. O sabor é bom. Familiar.

— Tem onde ficar?

— Não. — respondo sem hesitar, com a boca cheia.

— Pode ficar na minha casa.

— Eu até aceitaria... — coloco a mão sobre a boca, ainda mastigando — Mas se meus pais descobrirem, vão expulsar a sua família também. Preciso encontrar um lugar que não coloque ninguém em risco.

— Certo... E os estudos?

— Vamos continuar. — sorrio fraco — Estava pensando em fazer veterinária.

— Invejosa!

— Invejosa, por quê?

— Porque essa era minha ideia, sua ladra de sonhos.

— Ridículo. Só porque escolhi veterinária também, agora sou invejosa?

Ele me encara com os olhos semicerrados, como se estivesse me analisando profundamente.

— Hm... sim. Tem medo de alguma coisa?

— Baratas. Mas ninguém cria isso hoje em dia. — dou de ombros

— Ah, você que pensa. Tem umas baratas, tipo a Blaberus giganteus. São ENORMES. Pesquisa depois. Vê se não dá arrepio.

— Isaac! — digo, horrorizada.

— O quê? Só estou dizendo a verdade.

— Eu tô comendo!

— E eu tô descrevendo baratas gigantes. Que, se duvidar, são até maiores que você.

Tento bater nele com a colher, mas ele se afasta.

Continua...

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