Capítulo 73

60.7K 5.3K 2.3K
                                        

QUATRO ANOS DEPOIS - 15 de fevereiro, Coreia, Seul.

Ayla Jhonson

Mais um estágio concluído. Deus... nunca imaginei que veterinária fosse tão puxado. É cansativo, esgota até os ossos, mas eu amo. Pena que, no fim do dia, parece que carreguei o mundo inteiro nas costas.

— Alyyyy! — Alice corre até mim, a voz afinada, os olhos brilhando. Essa menina cresceu tanto... O tempo voou. Já é uma mocinha, com o coque malfeito segurando os cabelos pretos e aquele sorriso que ilumina qualquer ambiente. — Queria te perguntar... posso sair com alguns amigos?

Sorrio e seguro seu rosto lindo. Na idade dela, eu parecia um bicho preguiça que vivia escondido. Ela é o oposto: radiante, cheia de vida.

— Não. — belisco suas bochechas, arrancando um biquinho.

— Por favor! Já tenho quinze anos, sei me virar!

— Você só quer ir porque o crush vai estar lá. E a resposta continua sendo não. — passo direto por ela, entrando na cozinha em busca de algo pra comer antes de subir pro banho.

— Para de ser chata! — ela bufa, jogando as mãos pro alto. — Com quinze anos você já bebia e fumava, e eu não posso nem sair com amigos?

— Onde?

— No cinema. — a voz sai quase cantarolada, meio boba.

— Vai só você e ele, né?

— Sim...

Puxo uma lasanha da geladeira e coloco no micro-ondas. Alice me observa ansiosa, como se a vida dela dependesse da minha resposta.

— Só cinema?

— Só cinema! — sorri, quase pulando de alegria.

— Está bem. — cruzo os braços. — Mas se passar da meia-noite, eu caço esse moleque e arranco as bolas dele. Fui clara?

— Claríssima!

— E mais uma coisa. — aponto o garfo na direção dela. — Se tiver dedada ou você perder a virgindade, advinha o que acontece?

Ela me olha com descrença.

— Ele perde o pau e os dedos.

— Não vai acontecer nada! — rebate ríspida. — A gente só vai assistir a um filme!

— Tá, tá. Some da minha frente antes que eu mude de ideia.

O micro-ondas apita. Minha lasanha está pronta. Alice sobe correndo as escadas, gritando um "te amo" que ignoro de propósito. Me concentro em comer, cada garfada pesada pela falta de energia.

Pouco depois, ela desce pronta. Deixo o prato na pia e vou até a porta, abrindo antes que ela toque na maçaneta. E lá está ele: um garoto alto, cabelo preto caindo numa franja bagunçada, óculos de grau que lhe dão um ar nerd e inocente. Sorri tímido.

— Quem é você? — cruzo os braços.

— Sou o Kim Ha-jun. — ele estende a mão. Não aperto.

— É virgem?

— AYLA! — Alice quase engasga de vergonha.

Ignoro. Observo o garoto suar frio.

— É... s-sim.

— Que moleza. — avalio ele de cima a baixo. — Espero que continue assim até ela fazer trinta.

— AYLA!

Ele ri nervoso, as bochechas coradas. Nerd tímido. Quem diria que Alice se apaixonaria por alguém assim?

— Quantos anos tem?

— Dezesseis. — ele tenta se recompor, ainda vermelho. — Não se preocupe, vou trazer Alice de volta no horário certo.

— Espero. — dou um passo pro lado, abrindo caminho. — Não queira descobrir o que uma irmã furiosa pode fazer.

— Idiota! — Alice resmunga, saindo de casa de nariz empinado.

Fecho a porta atrás deles, soltando um suspiro longo. Nunca pensei que fosse gostar tanto da Coreia. No começo, sem saber a língua, parecia impossível. Mas agora... a vida aqui é calma, segura. Diferente de tudo que já vivi.

Subo para meu quarto, jogo a roupa na cama e sigo direto para o banheiro. Nada que um banho de rosas não resolva. Quero sair daqui tão perfumada que vão sentir do outro lado da rua.

Encho a banheira. A água quente envolve meu corpo, me arrancando um suspiro de alívio. Fecho os olhos, deixo meus músculos relaxarem, passo a mão devagar pela pele. E então, como sempre, meus olhos param nela: a aliança em meu dedo.

Quando entrei naquele avião e abri a caixinha que Isaac tinha me dado, chorei até não ter mais lágrimas. Ainda hoje, quatro anos depois, espero por ele. Todo santo dia sonho em ouvir a batida na porta, sentir seus braços me envolverem e ouvir que nunca mais vai me soltar.

Levo o anel aos lábios e o beijo com carinho, afundando em seguida na água cheia de pétalas. O calor me envolve, mas o frio da saudade sempre vence.

Enquanto seguro o ar, lembranças me invadem como um filme acelerado: meus pais sendo presos, Isaac me salvando tantas vezes, Alice sendo rebelde, nós duas tendo que mudar de sobrenome... mas, acima de tudo, cada instante ao lado dele. O menino que virou meu porto seguro. O amor da minha vida.

Eu disse que esperaria. E vou esperar. Mesmo que seja em outra vida.

Mas, lá no fundo, o medo cresce. Já faz tanto tempo sem notícias de Isaac. Sem notícias de Ryan. Meus pais, ao menos, ainda me mandam cartas — frias, controladas pelo governo, que nunca posso responder. Mas dele... nada. Só o silêncio.

Minha vida agora é essa: paz, rotina, segurança. Mas também um vazio que não se preenche. Talvez seja a saudade da família. Talvez seja o buraco que Isaac deixou.

Volto à superfície quando o ar me falta. Respiro pela boca, o vapor do banheiro nublando minha visão. Apoio a cabeça na borda da banheira, passando a mão pelos cabelos encharcados.

Vem logo pra mim, Isaac.

Continua...

Fiz esse tempo todo passar, pq quero que entendam uma coisa: não importa os anos que passarem estando longe um do outro, quem realmente ama irá esperar por você

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Fiz esse tempo todo passar, pq quero que entendam uma coisa: não importa os anos que passarem estando longe um do outro, quem realmente ama irá esperar por você.

Obrigada por ler, não se esqueçam de votar, me ajuda muito! Beijos❤️

O NerdOnde histórias criam vida. Descubra agora