Capítulo 67

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Isaac Willian

O rosto dela está tão machucado... só de olhar me sinto em pedaços. A culpa me corrói — deixei Ayla sozinha, e minha irmã também acabou ferida. Droga! Eu não devia ter saído.

Levei Ayla ao hospital. Fizeram os exames e confirmaram: o rosto sofreu ferimentos graves, mas nada que não se cure com tempo e cuidado. Eu deveria me sentir aliviado, mas não consigo. Paguei para que fosse liberada logo. Não queria deixá-la lá. Agora, não vou deixá-la sozinha nunca mais.

— Ela vai ficar bem, garoto. Só precisa descansar e ter bons cuidados. — o médico da família disse, apertando meu ombro antes de ir.

Soltei um suspiro pesado. Tudo saiu do meu controle. Meus pais tinham me chamado para resolver um assunto, e por isso precisei sair. Mas, por essa escolha, Ayla quase morreu. Essa culpa vai me perseguir.

— Tudo bem? — minha mãe pergunta, cautelosa.

— Sim... — respondo com a cabeça baixa, sem coragem de encará-la. — Eu deveria ter vindo antes.

— Não se culpe, querido... coisas assim são difíceis de evitar.

Falar é fácil. O difícil é arrancar esse peso daqui de dentro.

— Ouvi que ele levou um tiro... Foi você?

Meus olhos caem sobre Ayla, adormecida na cama.

— Foi. — murmuro.

Seguro sua mão fria. Pelo menos agora o pesadelo acabou. Só resta resolver o assunto com os pais dela e, comparado a Layam, aquilo parece menos perigoso.

— Até onde você vai por essa garota? — minha mãe pergunta baixo.

— Até o fim do mundo, se for preciso. — respondo sem hesitar. — Se alguém tocar nela, eu vou caçar essa pessoa até o inferno. Se levantar a mão, ou a voz, vai se arrepender pro resto da vida. Eu vou protegê-la, dar o conforto e a paz que ela sempre quis. Se for preciso, sacrifico o mundo para mantê-la segura.

Minha mãe suspira.

— Você está cegamente apaixonado por ela...

— Estou. — admito, olhando o rosto pálido de Ayla. Ela não faz ideia do quanto me destrói vê-la assim.

***

Ayla Miller

A dor me arranca do sono. Meu rosto lateja tanto que parece que vai explodir. Tento manter os olhos fechados, mas a claridade que entra pela janela faz arder. Um gemido escapa quando tento mexer a face. Céus... nunca senti dor assim.

Viro a cabeça devagar e quase me esqueço da dor quando vejo Isaac dormindo ao meu lado. Ele parece um anjo adormecido, sereno, vulnerável. E eu não consigo desviar os olhos.

Sempre reclamei da minha vida, do quanto era difícil continuar... mas a dele é mil vezes pior. Ele perdeu tudo antes mesmo de nascer: avós paternos, maternos, primos, qualquer laço de família. Só tinha os pais e o irmão. E, ainda criança, viu os dois serem assassinados diante dos seus olhos. Anos depois, foi forçado a matar o único parente vivo — para me proteger.

Isaac perdeu tudo. Tudo. E mesmo assim, não se deixou consumir pela vingança.

Agora eu entendo Layam. A dor dele, o ódio. Ele só queria que sentíssemos a mesma perda. Mas não sabia que aquele garoto que jurava destruir também era sangue do seu sangue. Que bagunça... que tragédia.

Sinto o peso das dores de ambos: Layam, querendo vingança. Isaac, querendo justiça.

O movimento dos olhos de Isaac me tira dos pensamentos. Ele acorda e me observa. A expressão doce se desfaz, dando lugar a uma tristeza silenciosa.

Estendo a mão, tocando seu rosto quente. Ele se aproxima e me envolve em seus braços

— Desculpa... — sussurra contra meu peito.

— Está tudo bem... — minto. — Eu estou bem agora.

Ele não responde. Apenas acaricia minhas costas, num gesto suave que me desarma.

— E você? — pergunto, baixinho. — Sei que é delicado... mas você matou o Layam. Ele era seu irmão.

— Não era. — sua voz sai firme. — Layam morreu quando escolheu a vingança. O que ficou... era só um assassino.

Fico em silêncio. Não sei se concordo. Minha cabeça começa a latejar outra vez. Me afasto dele e me sento na cama, retirando a seringa do braço.

— Aonde vai? — ele pergunta.

— Banheiro... minha cabeça dói.

— Vou pegar seu remédio.

Assinto, observando-o sair. Caminho devagar, a visão escurecendo. Respiro fundo diante do espelho, esperando passar. Quando a visão clareia, quase grito: meu rosto está acabado. Inchado, roxo, manchado de sangue seco. Céus... vou carregar essas marcas por um bom tempo.

Escovo os dentes e encho a banheira, querendo me afogar no calor da água. Quando termino, Isaac volta com um copo d'água e o remédio.

— Obrigada. — engulo a pílula e bebo até a última gota.

Ele recolhe o copo, mas quando começo a tirar a roupa, é ele quem toma a iniciativa.

— Deixa que eu faço. — sorri de leve.

Com cuidado, Isaac retira cada peça, prendendo meu cabelo depois. Segura minha mão até eu entrar na água.

— Vou ver como está minha irmã e já volto.

— Ela se machucou muito? — pergunto, aflita.

— Quebrou o tornozelo. — responde, levantando-se. — Mas não se culpe. Ela está bem e vai receber todos os cuidados.

Como não me culpar? Ela quebrou o tornozelo por causa de tudo isso... por minha causa.

Continua...

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