Capítulo 25

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Ayla Miller

Fecho a porta com um estalo seco que ressoa pela sala, chamando a atenção de todos. O silêncio que se instala é denso, sufocante. Todos os olhares da família Miller se voltam para mim e Alice

A sala de estar está cheia. Meus avós paternos e maternos, tios, primos — todos ali, como se tivessem sido reunidos para um jantar elegante. Os olhos arregalados, os sussurros surgindo.

O ambiente fede a falso afeto. A decoração luxuosa não consegue disfarçar o cheiro de sangue que carrego nos pensamentos desde ontem.

— Querida! — minha mãe se adianta, andando na direção de Alice, que ainda segura firme a minha mão.

— NÃO! — a voz de Alice explode no ar como um trovão, surpreendendo até a mim. — EU JÁ ESTOU CANSADA DISSO!

Todos paralisam. A pequena Alice, com os olhos marejados e o rosto corado de raiva, se esconde atrás de mim. Meus dedos apertam os dela, como se isso bastasse para protegê-la.

Minha mãe para no meio do caminho, os olhos indo de Alice para mim. O olhar antes apreensivo agora assume a fúria gelada que eu conheço tão bem. A máscara de preocupação derrete, dando lugar ao controle doentio que sempre guiou seus atos.

— O que eu disse pra você? — ela pergunta com os dentes cerrados, a voz baixa e ácida. — Falei pra não sair! Mas é claro que não me ouviu. Nunca escuta ninguém da família! A culpa é sua por quebrar a regra. Sua.

Ah, claro. Sempre a mesma ladainha. Sempre eu sendo o problema.

— Tenho certeza que a vida da Alice ficou em risco. Tudo isso por culpa da sua desobediência! Onde foi que eu errei com você, Ayla? — ela avança um passo — Sempre te dei tudo! Te tratei melhor do que o Marcus e a Alice! E foi esse o meu erro: mimar você! Agora, além de destruir sua própria vida, está colocando a Alice contra nós? Olha o caos que você tá causando nessa família!

Ela fala. E fala. E fala.

A sala gira levemente, e meus olhos encontram os rostos frios e julgadores ao meu redor. A boca do meu avô paterno se contorce em reprovação. Minha avó desvia o olhar, fingindo não ouvir. Tão conveniente. Tão covardes.

A bolsa em minha mão voa antes que eu possa racionalizar. Ela atinge o vaso de cristal sobre a mesa com força, o estilhaçando em dezenas de pedaços. O barulho invade a sala como um disparo. Todos se calam.

— Quer me culpar, mãe? — solto a mão da Alice devagar, com os olhos fixos nela. — Sim, quase morremos ontem. Eu e a Alice. Mas a culpa não foi minha. Enquanto um desgraçado me sufocava, ele disse: "Seus pais precisam entender a minha dor."

Dou um passo à frente.

— A culpa é sua. É do papai. É dessa porra de família toda.

— Como você-

— VOCÊ QUER VIR ME CULPAR POR VOCÊS SEREM ASSASSINOS? — grito — AQUELE HOMEM TINHA ÓDIO NOS OLHOS! SEDE DE VINGANÇA!

— Ayla! — meu avô paterno bate a bengala no chão, tentando manter sua pose de moralidade — Olhe como fala com sua mãe!

— NÃO ESTOU FALANDO SÓ COM ELA! — minha voz reverbera — ISSO É PRA TODOS VOCÊS! E ELA NÃO É MINHA MÃE!

— AYLA! — agora é meu pai que ruge.

— Você diz que se importa, mãe. Que se importa com a gente... Mas se realmente se importasse, teria largado essa vida quando estava grávida do Marcus. Teria nos dado uma chance de crescer fora do sangue, da mentira, do medo.

— Eu estava preocupada! — ela responde, a máscara rachando, os olhos começando a arder de fúria.

— Estava? — dou uma risada sem vida, amarga — Nem uma mensagem, mãe. Nem uma ligação. Eu e Alice passamos a noite TODA fora e você nem se importou. Eu quase MORRI! E por quê? Por conta das suas escolhas. Das merdas que vocês fizeram. Acha mesmo que "aqui se faz, aqui se paga" só vale para os outros? Não. Quem está pagando por tudo são os seus filhos!

O silêncio volta, ainda mais pesado. Meus olhos enchem. O choro vem, e não consigo conter.

— Eu odeio a vida que tenho... — sussurro, entre os soluços — E odeio você, mamãe.

— JÁ CHEGA, AYLA! — meu pai grita, quebrando um copo que está sobre sua mão, e todos se encolhem. — Fiz de tudo pra proteger vocês! Convenci sua mãe a te tirar da máfia! E é assim que você agradece?

— EU QUASE FUI MORTA ENQUANTO VOCÊ MATAVA OUTRAS PESSOAS, RAFAEL! — grito com o peito em chamas.

— Abaixe o seu tom pra mim, mocinha! Eu sou seu pai! — ele aponta o dedo na minha direção.

Dou um sorriso torto, sarcástico, quase doentio.

— Agradeço pelo que fez por mim, papai... mas também te odeio. Tento te ver como um pai normal. Juro que tento. Mas toda vez que olho nos seus olhos, só vejo um assassino com um sobrenome herdado. Nada mais. Alice só tem dez anos... e vai viver no meio desse inferno por culpa de vocês.

— Saia dessa casa! — ele ruge, apontando para a porta. — E só volte quando pedir desculpas para sua mãe!

Dou um passo para trás, rindo pelo nariz.

— Então não esperem me ver de volta.

— Ótimo!

Apenas levanto o dedo do meio, olhando para todos à minha volta com um desprezo tão profundo que poderia queimá-los vivos se meu olhar tivesse o poder.

— Vão se foder. Todos vocês.

Viro as costas. Abro a porta e saio.

Continua...

E aí? Vocês acham que ela pegou pesado, ou eles mereceram ouvir tudo isso?

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E aí? Vocês acham que ela pegou pesado, ou eles mereceram ouvir tudo isso?

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