XIX. Erva daninha *

237 31 0
                                        

Quando se viu sozinha com Iroh e Zuko numa conversa desconfortável, Azula se perguntou se deveria pular pela janela do apartamento e mudar a trajetória das vidas deles. O tio trouxe presentes auspiciosos num pedido de trégua e ela permitiu que eles entrassem, apesar de sua vontade ser bater a porta na cara deles. Zuko pelo menos parecia tão miserável quanto ela e Azula tinha certeza de que ele havia sido forçado a ir.

— Gostei do que fez com o lugar — Iroh era o único a falar, enquanto Azula e o irmão pareciam estar numa competição de quem iria piscar primeiro.

— Bom saber. Vou redecorar o apartamento inteiro.

Zuko grunhiu enquanto revirava os olhos.

— Ser agradável te causa algum tipo de dor física? — ele perguntou à irmã.

— Se eu disser que sim, vocês vão parar de me forçar a ser civilizada?

— Eu disse a ele que vir aqui era um erro.

— Olha só! Eu e o Zuzu concordamos em alguma coisa.

Tio Iroh perdeu a paciência com os sobrinhos, que não paravam de escalar a situação.

— Silêncio! — O velho elevou a própria voz, fazendo com que os dois se calassem.

Zuko e Azula viraram os rostos em direção opostas com os braços cruzados.

— Vamos tentar ter ao menos uma conversa que não termine com vocês dois brigando, por favor. Azula, nós viemos em paz.

Ela torceu o nariz para o tio.

— Se o senhor preza tanto por isso, por que não me deixa em paz? Não é porque somos do mesmo sangue que precisamos conviver. Vocês não pegaram o recado quando eu parei de dar notícias?

— Nós não podemos evitar de nos preocuparmos com você, Azula.

— O senhor não pareceu pensar nisso quando mandou meu pai pra cadeia — Ela cuspiu as palavras como se fossem veneno.

Zuko parecia prestes a explodir com Azula outra vez, mas o tio o impediu com muita calma.

— Vejo que ainda está chateada com isso — ele respondeu a sobrinha.

Azula riu de escárnio.

— Não, eu deveria te agradecer por ter arruinado a minha vida, certo?

— O tio não forçou o Ozai a fazer as coisas que ele fez. A culpa é somente dele — Zuko cansou de segurar a língua.

— Você é mesmo um ingrato. Como ousa falar assim do próprio pai? — Azula devolveu na mesma intensidade — Você não suportava o fato dele gostar mais de mim.

— Ele gostava mais de você porque você aceitava ser capacho dele — Zuko elevou a voz.

— Pelo menos ele não nos abandonou feito a mamãe! — Azula gritou, sentindo os olhos pinicarem.

Tio Iroh se levantou e se colocou entre os dois, prestes a berrar de frustração novamente. A situação já estava saindo do controle e nem cinco minutos haviam se passado.

— Zuko, por favor, espere lá fora. Deixe que eu falo com a Azula.

— Tio, eu não vou deixar o senhor sozinho.

— Zuko, estou te pedindo. Vocês dois ainda não conseguem conversar sem brigar.

Azula não disse nada, apenas encarou o irmão como se adagas pudessem sair de suas pupilas e acertá-lo em todos os pontos vitais. Zuko bufou, mas obedeceu o tio.

Mesmo após o irmão sair, Azula continuou calada e de braços cruzados, sem querer trocar palavras com o tio. Ela não estava disposta a perdoá-lo. Ele era um traidor, um fracote inútil que agia como se fosse moralmente superior a todos eles, mas que era capaz de apunhalar a própria família pelas costas.

— Azula, você não é obrigada a me perdoar, mas eu fiz o que fiz pelo bem de todos.

Ela sentia ódio. Ódio puro e intenso por todos eles. O pai era o único que não tratava Azula feito um monstro desprezível. A família sempre quis se ver livre dos dois, então por que agora estavam fingindo que se importavam?

— Eu não podia continuar sendo cúmplice do Ozai por omissão. Eu também errei e não sei se vou ser capaz de me redimir nessa vida — Tio Iroh continuou falando apesar do silêncio dela — Mesmo assim, você e o Zuko ainda podem recomeçar. Eu quero que vocês dois sejam felizes.

— Vocês me acham um monstro — Azula respondeu.

— Eu não te acho um monstro.

— Para de mentir pra mim! Eu sei que eu sou um monstro!

Ela não havia esquecido dos próprios erros. Eles ainda a rondavam, como se fossem assombrações. Azula entendia perfeitamente como havia acabado sozinha. Mesmo assim, ela jamais seria uma vítima.

— Você não é um monstro, Azula. Você apenas sofreu demais.

Azula riu, em parte porque não iria se permitir chorar.

— Tem certeza? Porque eu me lembro muito bem do sofrimento que eu causei. Eu também me lembro de ter feito tudo de propósito.

Iroh franziu ainda mais a testa. Ótimo. Talvez Azula conseguisse lembrá-lo de quem ela era e o velho finalmente desistisse daquela reconciliação.

— Eu sei que eu ajudei a fechar aquele colégio e não tenho o menor arrependimento.

— Eu não acredito em você.

— Eu não me importo se o senhor não acredita! Vocês ficam tentando justificar minhas ações culpando o meu pai ou culpando o fato de um médico qualquer ter declarado que eu sou maluca.

— Ele não te declarou maluca, Azula.

— Doente mental, tanto faz! Eu não ligo! Eu tenho controle das minhas próprias ações e da minha própria vida!

Ela continuou insistindo. Azula não tinha certeza se estava tentando convencer o tio ou a si mesma. Era insuportável que negassem a ela sua autonomia, mesmo que suas escolhas fossem terríveis. Azula preferia assumi-las até o fim.

— Eu sei disso — Iroh permaneceu calmo, deixando que ela explodisse com ele o quanto quisesse.

— Eu não vou permitir que vocês tentem me "ajudar" quando isso significa tentar me mudar — Ela quase soluçou, mas se conteve — Porque eu tô cansada disso. Eu consegui me virar muito bem sozinha nos últimos anos.

— Fico feliz.

Azula queria gritar até perder a voz. Ele realmente não entendia. Ele realmente não desistia.

— Pronto, agora que o senhor sabe que eu estou bem, pode ir embora e me deixar em paz.

Tio Iroh respirou fundo e baixou a cabeça, mas levantou o rosto com um sorriso amoroso.

— Tudo bem, Azula. Sinto muito por tomar o seu tempo.

Ela respirou fundo algumas vezes e começou a se acalmar. Finalmente poderia ficar sozinha. Ao menos, Iroh não piorou as coisas.

— Ok. Eu vou abrir a porta.

Azula se levantou e abriu a porta para o tio. Ele mereceu um último ato de civilidade por saber quando parar de insistir. Ela até mesmo manteria os presentes do tio, ao invés de arremessá-los do prédio um por um.

Quando Iroh estava no corredor, ele se voltou para a sobrinha uma última vez.

— Você será sempre bem-vinda na casa de chá.

Assim que a porta se fechou, Azula foi até o sofá, pegou uma das almofadas e gritou com todo o seu fôlego. O grito foi se transformando num soluço até virar um choro silencioso. O catarro começou a escorrer pelo nariz de Azula e ela ficou grata que ninguém jamais fosse vê-la naquele estado deplorável. Ninguém precisava descobrir o quanto ela era fraca.

A Serpente em meu JardimHistórias para pegar e não largar. Descubra agora