VIII. O ponto fraco

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Azula andava de bom humor. Ela sentia que finalmente a vida voltava a girar em seu favor e que a maré de azar havia ficado para trás. Os estudos iam bem e o namoro parecia cada dia mais apaixonado, graças aos seus esforços para ser uma namorada atenciosa. Era de se esperar, afinal Azula sempre almejava a excelência em tudo que fazia, mas nos últimos anos havia se acostumado com baixas expectativas. Ela, que sempre teve a vida inteira planejada nos mínimos detalhes, demorou muito tempo para aceitar que esses planos não se concretizariam mais.

Não era só questão de orgulho. Azula não sabia desejar outras coisas fora aquelas que saíram do seu alcance. Tornar-se tatuadora foi praticamente acidental. Em seu aniversário de dezoito anos, Azula virou alguns shots e decidiu se tatuar. Era um impulso friamente calculado, claro. Ela nunca seria o tipo de pessoa que marca o corpo permanentemente sem pensar muito a respeito. Azula já tinha tudo definido — desenho, cores, posicionamento. A única razão para anteriormente não ter cogitado se tatuar era porque perderia pontos de profissionalismo aos olhos de muitos. Seu pai certamente seria um deles.

No estúdio de tatuagem, ela mostrou o estêncil que ela mesma havia feito e arregaçou a manga da camisa. Azula não reclamou da dor uma única vez. O tatuador puxava papo com ela para distraí-la da agulha, mas Azula dava respostas curtas e desinteressadas. O único momento que teve sua atenção capturada foi quando o tatuador elogiou a precisão dos traços do desenho e sugeriu que ela fosse sua aprendiz.


Naquele momento da vida, as finanças de Azula estavam no fim, e ela se via obrigada a vender muitas coisas para conseguir comprar comida. A maioria dos empregos que não requeriam educação formal pareciam muito degradantes para ela, muito servis. Enquanto tatuadora, Azula poderia se convencer de que estava fazendo um favor àquelas pessoas que gostavam tanto da sua arte que pagavam para gravá-las na própria pele. Ainda assim, o salário era uma merda. Manter seu padrão de vida só era possível porque Azula havia se tornado mestre em administrar finanças. Além disso, ela mandava todo homem que enchesse seu saco depositar dinheiro em sua conta, o que sempre funcionava. A maioria deles gostava de ser tratada com desdém absoluto, algo que nunca havia surpreendido Azula.

Mesmo assim, ela estava infeliz com sua vida há bastante tempo. Estagnada, sufocada, presa pelo seu próprio capricho, e sem a menor ideia de como arranjar um rumo. Eis que entrou Ty Lee em sua vida, a primeira pessoa que enxergou as qualidades de Azula antes dos defeitos. A pessoa que conseguiu desenterrar o potencial que Azula até se esquecera que tinha. Foi como nascer pela segunda vez.

Agora, Azula ria de si mesma por ter se preocupado em algum momento com o seu namoro afetar os estudos. Suas notas continuavam impecáveis como sempre.

— Azula — chamou o professor.

Azula andou até ele confiante, ansiosa, preparada para os elogios que iria receber. Suas mãos começaram a tremer quase imperceptivelmente quando segurou o papel e viu 78 ao invés de um valor acima de 90.

— Como...?

— Você cometeu erros bobos. Com outra pessoa eu não me preocuparia, mas você não é de se distrair — disse o professor, anotando algo na caderneta. — Acredito que ao revisar a prova você já entenda onde errou. Se tiver dúvidas, pode vir falar comigo.

— Eu nunca tirei nada abaixo de noventa na vida. — Ela continuou colada no lugar, encarando fixamente o papel.

— Essas notas de simulado não vão contar para nada, não se preocupe. Apenas o resultado do exame que vocês farão no final do semestre vai determinar seus desempenhos.

Ela engoliu a seco, ordenando os músculos do corpo para não tremerem. Seu lábio insolente precisou ser contido entre seus dentes. Azula procurou freneticamente pelos erros. Coisas bobas, pequenas cascas de banana que ela sempre sabia evitar, detalhes que foram esquecidos. Por que sua mente havia traído ela daquele jeito? Azula sabia que tinha estudado horas a fio para aquela prova. Talvez não com o mesmo afinco das primeiras semanas, mas não era possível que...

— Azula? — O professor a encarou com um ar de preocupação. Ela estava chamando muita atenção para seu fracasso.

— Perdão.

Com o máximo de autocontrole que ela conseguiu reunir, Azula se desgrudou de onde estava e sentou-se novamente. Pelo resto da aula, sua postura foi impecável e a atenção redobrada. Ela teria um colapso, mas não ali. Não na frente de outras pessoas.

O caminho de volta para o apartamento foi torturante. Ela sentia os olhos pinicarem com lágrimas e as mãos voltando a tremer. Podia ao menos culpar o tempo que esfriava em preparação para o outono. Apenas mais alguns passos e um girar de chaves, e então Azula estaria segura para desabar.

Com um suspiro de alívio, Azula escorregou contra a porta e soluçou, arremessando a mochila pela sala com toda a força que lhe restava. Azula rastejou para perto do sofá e enfiou o rosto em seu tapete felpudo para abafar os gritos e o choro. Ela sentia vontade de bater a testa contra o chão até desmaiar, ou até o abuso consertar algo em seu cérebro de uma vez por todas. 

Ser inteligente era tudo que lhe havia restado. Não havia mais dinheiro, prestígio, poder. Nada disso lhe pertencia. Azula nunca se sentiu tão ingênua por pensar que fosse especial, algo além de uma menina rica com sorte, porque no fim das contas nem sua inteligência era garantida. Talvez ela nunca tivesse sido boa em nada para começo de conversa. Em seu peito, raiva e tristeza se misturavam numa solução venenosa, comandando seu corpo em espasmos de ódio e desgosto. Apenas a destruição poderia acalentar aquela dor irritante nas entranhas.

Em meio aos urros descontrolados e socos contra o chão, Azula não percebeu a presença dela. Se ela não tivesse esbarrado em uma cadeira, teria continuado despercebida. Azula ergueu os olhos em desespero e sentiu uma traição irracional. Na sua fragilidade, confundiu a preocupação no rosto de Ty Lee por medo dela.

— Zula...

— O que você tá fazendo aqui? — ela perguntou em voz baixa, buscando manter a compostura, mas apenas soava mais assustadora.

— Eu... Se você quiser, eu posso ir embora.

Ty Lee desviou o olhar e retorceu as mãos como costumava fazer quando estava desconfortável. Azula se sentia absurdamente humilhada, apesar de não ser seu primeiro surto na frente da namorada. Não seria algo possível de ignorar; Azula precisaria explicar o que aconteceu em algum momento e, com isso, o motivo para a crise lhe parecia mais ridículo a cada segundo. Se ela mandasse Ty Lee embora, poderia adiar a conversa, mas também seria ainda mais constrangedor revê-la. Sem saber o que fazer, Azula escolheu a raiva.

— Você não me avisou. Te deixaram subir sem eu estar aqui.

— Não é culpa do porteiro. Eu venho tanto aqui que ele não quer te encher tocando o interfone. Lembra? Você disse para ele só me deixar subir logo, porque todo dia o interfone tocava e...

— Ty Lee.

— Eu acho que é melhor eu ir embora. — Ty Lee pegou o moletom e a bolsa apressadamente enquanto Azula a encarava do chão. — Você vai ficar bem sozinha?

Azula riu de escárnio, enxugando lágrimas.

— Sim, terei uma noite maravilhosa.

Ty Lee franziu o cenho ainda mais. Aquela preocupação enojava Azula, pois beirava pena.

— Eu posso ficar se-

— Não.

— Zula...

— Eu vou ficar bem. Vá pra casa. Te mando mensagem mais tarde provando que ainda tô viva.

O silêncio naquele momento foi um dos mais insuportáveis que qualquer uma das duas havia sentido em muito tempo. Ty Lee claramente não queria ir embora, mas Azula claramente queria ficar sozinha. No fim, a vontade de Azula venceu.

— Tem risoto na cozinha pra você — disse Ty Lee antes de abrir a porta e ir embora.

Azula respirou fundo e deixou a máscara cair de novo, junto com as lágrimas. Elas não haviam brigado, mas ainda assim seu coração estava pesando com um sentimento desagradável. O medo de perder Ty Lee. Foi então que lhe ocorreu.

Ty Lee era a sua fraqueza.

A Serpente em meu JardimHistórias para pegar e não largar. Descubra agora