Após selar contrato para um emprego de tempo integral, Zuko teve que largar sua posição na loja de chá do tio. Contudo, ele precisava treinar a nova funcionária pelas próximas semanas. Zuko não sabia nada sobre a garota, exceto que se chamava Jin. Ele não era exatamente bom com pessoas, nem um professor muito paciente, mas confiava na sua capacidade de ser didático e disciplinado. Jin, por outro lado, parecia ter outra abordagem em mente.
— Existe um passo a passo para servir chá. Escolher a chaleira ideal é parte indispensável do processo. Ela precisa derramar o líquido silenciosamente, assim. — Zuko demonstrou usando água. — Lembra do processo que eu ensinei?
Jin reprimiu uma risadinha com a mão.
— O que foi?
— Você fica muito fofo assim concentrado. Desculpe. Qual era a pergunta?
Zuko franziu o cenho e virou o rosto, desconcertado. Teria de ensinar a ela também mais profissionalismo.
— Quero que me diga o passo a passo para preparar o chá.
— Ah, sim. Enxaguar a chaleira e os copos com água quente e...
— Errado. O primeiro passo é separar o kit de chá na mesa.
Jin não pareceu constrangida pelo erro. Ela apenas sorriu gentilmente e baixou a cabeça.
— Tem razão. Primeiro colocar todos os itens na mesa em suas posições. Passar água fervente na chaleira e copos para pré-aquecer o chá e liberar mais do aroma. Separar um pouco das ervas e...
Apesar de aparentar ser ocasionalmente distraída, Jin recitou o resto do processo perfeitamente. Zuko se sentiu compelido a encontrar mais defeitos, sem sucesso, mas foi comedido com os elogios. A vivacidade dela em seus modos a tornava adequada para manejar os clientes, embora Jin fosse menos rigorosa com formalidades. De certa forma, ela era exatamente como o dono que a contratara.
Após algum tempo de treinamento, Zuko foi ter com tio Iroh para atualizá-lo do progresso.
— Ela pareceu absorver bem as instruções, e sinto que vai ter menos problemas em socializar com os clientes do que eu.
— Ah, eu sabia que a Jin era uma boa garota. — Tio Iroh sorriu satisfeito e bebeu um gole de chá, que ele sempre se servia por conta da casa, mesmo Zuko alertando que isso fazia um rombo no orçamento da loja. — O que acha dela?
— Parece decente o bastante pra função.
Iroh riu.
— Quis dizer como pessoa.
A expressão de Zuko azedou. Era uma das manias mais irritantes do velho — a de se intrometer em sua vida. E, por qualquer que seja a razão, tio Iroh era obstinado em ser seu casamenteiro. Acontecia perto de Mai também e, em ao menos uma ocasião, com o Sokka. "Aprovo todas as formas de amor. Chá é chá em qualquer sabor," dissera. A analogia passou batida pelo sobrinho, que apenas apontou a preferência do tio pelo chá de jasmim.
— Um tanto sem senso e cabeça oca — Zuko respondeu, não disposto a entreter as intenções do velho.
— Bom, isso pode ser dito sobre muita gente. — Tio Iroh pareceu indiferente, ainda sorrindo satisfeito. — Creio que ela seria uma boa amiga para você.
— Eu tenho amigos.
— Claro que tem. Ótimos amigos. Porém, vez ou outra, é bom deixar pessoas novas entrarem na sua vida. É perigoso se fechar dentro de uma bolha. Você pode enxergar o mundo através de lentes distorcidas.
— Detesto quando o senhor começa a falar de maneira enigmática.
Tio Iroh gargalhou, deixando seu copo de chá numa superfície e se levantando para encarar o sobrinho melhor.
— Sua vida está mudando bastante. Eu só quero que você não perca a perspectiva de quem você quer ser.
Zuko sabia que se tratava de como ele iria navegar o mundo dos negócios, e os medos gerais de que ele se tornasse igual ao pai. Medos compartilhados por seus amigos, por Iroh, e por ele mesmo.
— E o que a Jin tem a ver com isso, tio?
— Quando uma pessoa nova entra na sua vida, você expande seus horizontes. E a Jin é excelente no Pai Sho!
Ali estava o real motivo! Zuko teve que conter a vontade de revirar os olhos. No fim das contas, tio Iroh queria alguém para jogar com ele durante as horas de descanso, já que nunca convenceu o sobrinho a se interessar por Pai Sho.
— Com licença, vou continuar o treinamento da sua funcionária. A conversa fica para depois.
Mesmo assim, Zuko teve que admitir relutantemente que Jin era uma presença agradável, e que de repente seria bom fazer uma nova amiga. A ideia o transportou para a memória de Azula, e de como uma amizade mudou a vida dela para melhor. Sua irmã ainda tinha um longo caminho pela frente — não estava pronta para o menor grau de aproximação com a mãe e a meia-irmã —, mas ao menos havia se tornado funcional. Tolerável. Alguém que pode se redimir. Como ele próprio havia se transformado com muito esforço.
Talvez os medos de que ele se tornasse igual ao pai tivessem mais fundamento do que Zuko gostaria de crer. Se torna fácil justificar ações hediondas uma vez que você se acostuma, e a pressão dos negócios em nada ajuda. Por que então escolher aquela carreira? Para provar que não sou o meu pai, ele repetia para si. Precisava se convencer de que tomaria escolhas melhores, e de que a corrupção do homem não é inevitável diante das mesmas circunstâncias.
Após encerrar aquele dia de treinamento, Zuko foi para casa atordoado, onde Ursa e Kiyi o aguardavam para jantar. O padrasto chegaria no dia seguinte, e os quatro andavam conversando sobre a possibilidade da família se mudar para a cidade grande. Zuko tinha agora condições de ajudá-los financeiramente.
— O que foi, meu filho? — Ursa perguntou após colocar Ikki para dormir.
Diante do questionamento da mãe, ele não ousou esconder a verdade, e buscou consolo no colo dela. Zuko se transfigurou do homem que havia sido forçado a se tornar para o menino que chorava nos braços da mãe quando o mundo o machucava demais.
— Eu não quero me tornar igual a ele.
Ela sabia de quem se tratava, claro que sabia, e por isso o apertou mais forte contra si.
— Nunca. Você jamais seria.
— Eu nem sempre fui bom.
A mãe o afastou para olhar em seus olhos, com mãos gentis segurando o rosto do filho.
— Nós nem sempre somos bons. Isso não é o que te difere dele.
— O que difere então?
— Você não querer ser como ele. Para Ozai, ser daquele jeito é a única escolha possível. Ele não vê nada de errado em ser um monstro.
Zuko suspirou, trêmulo. Um medo ainda pior lhe causou um frio na espinha.
— Mãe?
— Sim?
— Você acha que a Azula pode mudar?
Ursa apertou os lábios e seus olhos se umedeceram, mas ela manteve um sorriso maternal.
— Ela ainda é a menininha que eu ninava em meus braços. Independente do que ela faça, eu nunca deixaria de amá-la.
— Eu sei, mas-
— Só ela pode decidir mudar, Zuko. Você precisa preparar seu coração para o pior e o melhor cenário.
— Como
— Acreditando que ela pode mudar, mas aceitando que essa mudança não cabe a você. Sabe o que você controla? — Ela segurou o rosto do filho com mais firmeza, e uma lágrima escorreu quando Ursa piscou. — A pessoa que você quer se tornar.
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A Serpente em meu Jardim
Romance[CAPÍTULOS SEGUNDA, QUARTA E SEXTA] Uma energética florista se muda para a cidade grande e se encanta com a fria e atraente tatuadora com tatuagem de serpente que trabalha do outro lado da rua. Cafeterias, casas de chá e flores por todos os lados cr...
