I. Novos começos

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Dormir até tarde, acordar sentindo o calor de Ty Lee, beber uma caneca do melhor café importado, comer o café-da-manhã preparado por Ty Lee (que quase sempre incluem carinhas sorridentes), sair para uma caminhada, tomar um banho gelado, ler um livro, assistir Ty Lee demonstrar novos golpes de luta, beijar Ty Lee, segurar Ty Lee, ter Ty Lee... Todos os dias deveriam ter aquela rotina, mas, uma hora, o verão tem que acabar.

Azula estava sentada na cama, encarando um ponto fixo há sabe-se lá quanto tempo. Ao seu lado, Ty Lee acordou, remexendo-se nos lençóis. Ela se sentou e se espreguiçou sem pressa.

— Pronta pro seu primeiro dia de aula? — Ty Lee perguntou, abraçando Azula e tirando-a do transe.


O ponto para onde Azula encarava poderia ter pegado fogo com a intensidade da mirada.

— Hum? Claro. É.

— Quer que eu faça o café-da-manhã? Você parece estar sem energia.

— Bom, a culpa seria sua. — Azula ergueu uma sobrancelha para a namorada com um sorriso que fez Ty Lee enrubescer. — Mas eu só estou reflexiva.

— Refletindo sobre o quê?

Azula suspirou.

— Eu estou irritada. Comigo mesma, com o mundo, sei lá. Saber que estou atrasada na vida me faz querer soltar raios pelos olhos, entende?

— Você não tá-

— Não minta pra mim. Tá tudo bem admitir. Eu desperdicei meu potencial. Quero me contentar com o rumo da minha vida, mas é difícil não pensar nas portas que se fecharam pra mim.

— Talvez nós nunca tivéssemos nos conhecido — disse Ty Lee em voz baixa.

— Ou talvez, quando eu te conhecesse, teríamos ficado juntas mais rápido, porque eu me sentiria digna de estar com você.

Azula sabia que isso não era inteiramente verdade. Seu orgulho ferido havia sido sim um empecilho na relação delas, mas uma Azula de orgulho intacto era mil vezes mais perigosa. Incapaz de acreditar que qualquer pessoa estaria em seu patamar e, portanto, incapaz de acreditar que qualquer pessoa fosse digna de estar com ela. Se ela ainda tivesse tudo, não valorizaria nada.

Se Ty Lee também compreendia isso, nada disse. Ela beijou a bochecha de Azula e se levantou da cama.

— Vou escovar os dentes e preparar o café. Não quero que você se atrase.

Azula encarou o relógio. Vinte e três minutos para comer. Dezesseis minutos para preparar a pele e passar perfume. Treze minutos para trocar de roupa. Sete minutos para chegar na portaria e onze minutos para alcançar o metrô. Quarenta e quatro minutos até chegar na estação certa. Oito minutos de caminhada. Daria tempo, se ela se levantasse imediatamente.

Ty Lee desocupou o banheiro, e Azula começou sua nova rotina. Acordar cedo, escovar os dentes, comer o café-da-manhã preparado por Ty Lee, preparar a pele, passar perfume, trocar de roupa, portaria, metrô, escola.

Ao vê-la, o professor olhou para o relógio de pulso, surpreso.

— Oito e meia em ponto. Impressionante.

E nenhum fio de cabelo fora do lugar ou gota de suor manchando sua roupa. Azula curvou-se diante do professor e caminhou até uma cadeira vazia na primeira fileira, demonstrando máxima disciplina e humildade. Era tão fácil entrar novamente no papel de pupila ideal, como andar de bicicleta. Aquele tipo de ambiente — competitivo, regrado, hierárquico — era onde Azula mais se destacava.

Ela olhou ao redor e viu um grupo muito distinto de pessoas, de todas as idades. Azula estava entre os mais novos, o que a deixou aliviada. No decorrer da aula, percebeu que também estava entre os mais espertos. Não, não há necessidade de ser humilde. Azula era, de longe, a mais esperta.

À princípio, ela erguia a mão depressa para responder e impressionar o professor. Porém, ao perceber as dificuldades dos colegas, Azula parou de levantar a mão e aguardou ninguém responder as perguntas para só então erguer a voz. Não era bom chamar muita atenção, especialmente se ela pretendia ganhar a simpatia dos colegas. Além disso, não existia mérito em responder rápido se não houvesse competição. Nem Azula era tão desesperada por aprovação.

Ao fim da aula, o professor a convocou, quando todos os outros já haviam deixado a sala.

— Azula, certo? Você é a aluna que veio daquela academia prestigiosa.

Azula nada disse, mas meneou levemente a cabeça em afirmação. Então ele ouvira falar nela.

— Sinto que você não vai se beneficiar muito das minhas aulas, e detesto mitigar o potencial dos meus alunos. Você já cogitou fazer os testes para receber o diploma mais rápido?

— Isso é possível?

— Em casos especiais, sim. Você teria apenas um semestre para se preparar, porém te deixaria livre para cursar uma faculdade ano que vem, se for do seu interesse. Só precisa realizar um exame provando que pode pular as primeiras unidades e eles te colocarão na turma mais avançada.

E assim, um sorriso cresceu em seu rosto.

— Então, por favor, senhor, abra um requerimento.

A Serpente em meu JardimHistórias para pegar e não largar. Descubra agora