A primavera começava a dar sinais de sua chegada, e Azula passou a reparar em como as ruas ficavam mais bonitas. Seu apreço pelas flores parecia crescer junto com seu apreço por Ty Lee. Elas gostavam de caminhar de mãos dadas até seus trabalhos, já que as lojas ficavam de frente uma para a outra.
— Bom, até mais tarde — Azula beijou a cabeça de Ty Lee quando chegaram na entrada da floricultura.
— Azula, espera.
Ty Lee estava com a testa franzida, o que não era um bom sinal.
— O que foi?
— Podemos almoçar no meu apartamento mais tarde?
— Ok?
Devia haver um motivo para o nervosismo de Ty Lee. Azula engoliu em seco. Talvez fosse uma conversa séria. Quem sabe Ty Lee finalmente tivesse decidido dar um pé na bunda dela e estava tentando privá-la da humilhação pública. O que Azula estava fazendo de errado? Provavelmente a falta de beijos era um fator, mas Azula não se lembrava de ter sido uma cadela rude nos últimos tempos. Pelo contrário, ela estava tentando muito melhorar.
Ty Lee segurou o rosto dela e se inclinou para beijá-la, deslizando a língua com delicadeza. Normalmente, Azula seria contra demonstrações públicas de afeto, mas Ty Lee beijava muito bem, e era apenas o segundo beijo de língua delas. O namoro das duas andava muito casto, porém se a florista havia escolhido aquele momento para beijá-la, era possível que não fossem terminar.
Ah, não. E se Ty Lee estivesse beijando Azula justamente porque iriam terminar? E se fosse um beijo de despedida?
Ty Lee encerrou o beijo com um selinho e sorriu para ela. Azula tentou encontrar pistas na expressão da florista sobre o que aquela ação representava.
— Até mais tarde — disse Ty Lee antes de entrar na floricultura.
Azula se lembrou como se mexer alguns segundos depois e atravessou a rua até o estúdio.
Ela não conseguia se concentrar direito no trabalho. Azula estava começando a pegar o jeito de como ser namorada de alguém e talvez todo o esforço fosse para nada. Seria cruel. Ela nunca fez questão de ter Ty Lee por perto e, agora que tinha, não estava pronta para perdê-la. Não que Azula fosse admitir em voz alta.
— Você está aérea — June apontou.
Azula suspirou.
— Sinto que eu e Ty Lee vamos ter uma conversa séria mais tarde.
Ela não queria desabafar, muito menos para June, mas com quem mais Azula iria falar?
— Hum, é... Eu também ficaria preocupada no seu lugar.
June nunca era muito útil.
— Por outro lado, a Ty Lee é completamente obcecada por você, então duvido que seja para terminar. Você andou pisando na bola?
— Não que eu saiba! — Azula ficou na defensiva. Ela estava em seu melhor comportamento nos últimos tempos.
— Então não há nada com o que se preocupar. Você ainda é nova nessas coisas, mas às vezes casais discutem o relacionamento. Nem sempre é algo ruim.
— Mesmo?
— Sério. Talvez ela só queira desabafar sobre um problema pessoal ou até mesmo te surpreender cozinhando um almoço. Talvez... — June a estudou por um instante — Bom, vocês já tiveram a primeira vez?
Azula ficou completamente em silêncio, encarando June de maneira inexpressiva. Por que ela sempre precisava dar um jeito de ser incômoda?
— Não me olhe assim! É apenas uma possibilidade que ela esteja se preparando pra isso — June continuou — Você... você tem alguma experiência na área, certo?
— Claro que sim.
A insinuação de June a irritou. Azula era atraente. Óbvio que haviam pessoas dispostas a dormir com ela. Isso nem deveria ser uma pergunta.
— Sério? Com garotas?
— Sim. Bom, uma. Um garoto e uma garota.
— Hã...
— Eu precisava comparar pra descobrir o que eu gostava — Azula deu de ombros como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— E quais foram as conclusões?
Azula ponderou.
— Com homem foi mais... curto?
— Nem sempre é curto. Talvez ele só fosse ruim. Não dá pra resumir o desempenho de todos os homens na cama com um só exemplo.
— Então você tá dizendo que preciso compilar mais dados?
— Não! Essa é a sua conclusão? Que abordagem mais sociopata à sexualidade — June suspirou de frustração — Você namora agora, se esqueceu?
Azula ainda não entendia completamente o problema. Era apenas uma coleta de dados empíricos. Não haveria qualquer sentimento envolvido. Além disso, ela poderia praticar para agradar Ty Lee, que certamente tinha mais experiência.
— Ok. Não posso dormir com outras pessoas, já entendi.
— Ainda bem — June massageou as têmporas — Ao menos sua relação com a outra garota foi boa?
— Bom, eu achei meio indiferente, mas não totalmente ruim. É só... tão mecânico e exaustivo e não é nada do que as pessoas dizem ser. Eu não vi fogos de artifício ou coisa assim.
— Cara, com quem você andou transando?
— Ei! Você tá me deixando nervosa. E se eu for ruim?
June respirou fundo.
— Azula, todo mundo precisa aprender de algum lugar. Não acho que a sua namorada iria se importar de te ensinar.
— Eu preciso ser imediatamente boa. Tem certeza que não posso praticar primeiro?
— O que eu tenho certeza é que se você sair por aí praticando, aí sim vai levar um pé na bunda.
O argumento foi convincente. Azula teria que confiar nas próprias habilidades quando o momento chegasse. Não fazia sentido se preocupar com aquilo naquela hora. Ainda existia uma possibilidade de Ty Lee terminar com ela na hora do almoço. Pelo menos, ela teria um espaço para praticar suas habilidades antes do próximo relacionamento.
Azula franziu a testa. Próximo relacionamento? E se ninguém mais quisesse se esforçar para estar com ela? Naquele momento, Azula não conseguia se imaginar tendo interesse em mais ninguém. Se não fosse Ty Lee, talvez ela se resignasse a ficar sozinha para sempre.
— Eu não quero ficar sozinha — Azula murmurou, torcendo para não ser ouvida.
— Fico feliz de ouvir isso. Quase achei que você não era humana — June respondeu — É bom saber que aí dentro também bate um coração.
Para que serve um coração se não para ser partido?
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A Serpente em meu Jardim
Romance[CAPÍTULOS SEGUNDA, QUARTA E SEXTA] Uma energética florista se muda para a cidade grande e se encanta com a fria e atraente tatuadora com tatuagem de serpente que trabalha do outro lado da rua. Cafeterias, casas de chá e flores por todos os lados cr...
