XXVI. Tensão

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A visita ao campo deixou Ty Lee cheia de energia. Ela sentiu vontade de visitar todos os cantos possíveis assim que voltou para seu apartamento. As luzes da cidade recuperaram a magia e até a indiferença dos desconhecidos era refrescante. Ty Lee sentiu tanta vontade de dar estrelinhas que cedeu à vontade nas calçadas vazias.

— Eu realmente achava impossível que você ficasse mais energética — Comentou Azula, que andava com ela tentando desviar de possíveis chutes.

Ty Lee andou sobre as mãos até a casa de chá de Iroh, fazendo com que Azula tivesse que abrir a porta para as duas.

Quando Ty Lee se levantou, ela percebeu que os amigos de Zuko estavam lá. Sokka e Aang ergueram o rosto com surpresa na direção delas e se olharam com preocupação. Katara empurrou a cadeira com raiva e saiu de lá imediatamente, sem soltar uma palavra que fosse.

— Vaca — Murmurou Azula quando a porta se fechou.

— O que houve, hein? — Perguntou Toph, confusa.

— Ah, oi, Ty Lee — Sokka a cumprimentou primeiro, tentando dissipar a animosidade — E... oi... Azula. Hã... há quanto tempo, né?

— Ai, minha nossa — Toph tampou a boca ao perceber a situação e passou a mão no lugar vazio que Katara havia ocupado — Agora entendi.

— Azula? — Iroh perguntou surpreso enquanto vinha dos fundos da loja. A presença dele aliviou os nervos de Ty Lee.

— Oi, tio. Estava tendo uma recepção calorosa aqui — Azula respondeu com sarcasmo.

Iroh ignorou o comentário e gesticulou para que as duas se sentassem em alguma mesa. Então, as entregou os cardápios com um enorme sorriso.

— Fiquem à vontade! É só chamar quando estiverem prontas para pedir.

Azula estalou a língua e começou a ler os itens do cardápio. Felizmente para Ty Lee, ela não parecia disposta a caçar confusão. Talvez terminasse sendo uma tarde agradável. Ty Lee a levou até a casa de chá na intenção de empurrá-la para uma reconciliação com os parentes. Era um agradecimento por Azula ter ajudado ela com seus próprios conflitos familiares.

— O chá verde daqui é delicioso — Ty Lee recomendou — Bem como os bolinhos. Porém, esses chás gelados com bolinhas de tapioca ao fundo são meus favoritos.

Enquanto elas se decidiam, a porta da frente se abriu. Mai e Zuko entraram na casa de chá boquiabertos. Ty Lee os encarou progressivamente mais nervosa. Mai cruzou os braços e caminhou até a mesa mais oposta possível.

— Ai, que fofo. O casal entrou juntinho — Azula abaixou o cardápio e apoiou o rosto nas mãos.

— Não somos um casal — Respondeu Zuko com seriedade — Bem-vinda de volta, Ty Lee.

Ele não estendeu as boas-vindas para Azula e se dirigiu até os fundos para colocar o uniforme. Mai as ignorou. O clima não parava de ficar tenso e Ty Lee sentia vontade de desmaiar.

— Então... Sokka — Ela chamou a atenção do rapaz, na esperança de mudar o foco.

— Eu?

— Você mencionou que sua namorada dava aulas de artes marciais. Posso me matricular?

Sokka pareceu gaguejar.

— Ah, claro, é só que... Artes marciais são bem puxadas e a Suki é bem profissional. Você acha que dá conta?

Ty Lee franziu a testa, ofendida.

— Você quer uma luta contra mim pra saber? — Ela ofereceu.

— É, Sokka. Você já não cometeu esse tipo de erro antes? — Toph riu, cutucando o amigo.

Ele engoliu a seco e balançou a cabeça freneticamente.

— Sem duelos. Eu confio na sua palavra. Não quero apanhar de outra garota por burrice.

Aang e Toph começaram a rir, o que fez Ty Lee dar uma risadinha também. Azula apenas revirou os olhos enquanto segurava o cardápio.

Zuko apareceu pouco depois para anotar os pedidos delas e foi estranhamente civil com a irmã. Ele era realmente profissional em atendimento ao cliente. Ty Lee ficou aliviada que mais uma etapa havia sido concluída sem terminar em desastre.

— Ok, o lugar não é dos piores — Azula admitiu — Vamos ver se a comida também é decente.

Ty Lee sorriu quando Azula finalmente provou o chá e o bolo, sem conseguir conter uma expressão de aprovação. Tio Iroh jamais erraria a mão nesse quesito. Ele ficou em pé ao lado delas, aguardando pelos comentários, esperançoso.

— Uma delícia como sempre — Ty Lee ergueu um polegar.

— Muito obrigado, querida — Ele se curvou em agradecimento e virou para a sobrinha.

Azula suspirou e cruzou os braços.

— Não é ruim. Eu não estou muito surpresa com isso. O senhor sempre gostou tanto de comida.

Apesar dela não ter sido muito generosa com as palavras, tanto Ty Lee quanto Iroh eram fluentes em Azulês e sabiam o que aquilo realmente significava. Ela havia adorado.

Mai se levantou, pagou a conta e foi embora sem dizer uma única palavra o tempo inteiro. Ty Lee estava um pouco preocupada que a amiga ficasse zangada com ela por ter trazido Azula. Mai prometeu não impedir Ty Lee de andar com a ex-herdeira, mas também solicitou que não fosse forçada a interagir com ela. Talvez aquilo fosse uma violação do acordo. Ela teria que descobrir depois.

— Ela continua um raio de sol — Azula comentou revirando os olhos quando Mai saiu.

— Azula, eu estou contente que você veio — Ty Lee mudou de assunto — Eu gosto de poder compartilhar um dos meus locais favoritos com você.

— É mesmo? Pelo visto, você é a única — Azula riu sem humor e começou a mexer num arranjo da mesa — Eu estraguei a tarde de ao menos três pessoas só por vir até aqui.

Ty Lee se remexeu inquieta. Ela olhou para a mesa dos amigos de Zuko, que frequentemente as encaravam de soslaio (com exceção de Toph, por motivos óbvios). Aang sempre sorria para ela quando era flagrado, mas o sorriso era nervoso. Eles pareciam ter mais medo do que raiva de Azula.

— Você tá fazendo progresso — Ty Lee assegurou — E, mesmo assim, você deixou duas pessoas muito felizes só por vir. Eu e o seu tio.

Azula não teve como argumentar. Ela olhou na direção do tio por um instante e depois baixou a vista. Ty Lee sentiu uma pontada de esperança. Ainda havia um longo caminho pela frente, mas talvez Azula já tivesse plantado uma semente no peito, sem saber. A semente do perdão.

A Serpente em meu JardimHistórias para pegar e não largar. Descubra agora