V. Em família

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Já era a segunda vez que Ty Lee ia tomar um chá na casa de Iroh sem Azula. A princípio, ela temia que fosse ser constrangedor, mas o tio de Azula era uma figura paterna muito aconchegante, e em suas conversas Ty Lee havia descoberto muito sobre a mulher que amava. Azula sempre havia sido obstinada e perfeccionista; ela ganhara toda e qualquer competição em que se inscrevia, tivera tutores particulares para estudar conteúdos mais avançados que os da escola, e sempre encontrara tempo para praticar atividades extracurriculares que agradassem o pai. Antes dos catorze anos ela já era fluente em quatro idiomas, medalhista em dois esportes, e possuía a maior média da academia onde estudava. Azula estava encaminhada para um futuro brilhante, pronta para suceder o pai em um trono de glória. Mas isso não era o que Ty Lee se importava de aprender sobre ela.

— Sabe aquela pequena cicatriz embaixo do queixo da Azula? — Iroh perguntou. — Quando ela era pequena, Azula gostava de testar os novos golpes de luta com malabarismos que ela inventava para deixá-los mais impressionantes. Em um desses dias, ela resolveu testar um golpe que viu em um filme de ação com o Zuko. Azula fez uma montanha de cadeiras e, lá de cima, deu um chute no ar com um mortal de costas.

Ty Lee arregalou os olhos, impressionada. Porém, ao imaginar a cena, ficou horrorizada com a segurança precária da situação.

— Acho que você já deve ter imaginado que o giro da Azula não terminou como o previsto. Ela bateu com o queixo no encosto da última cadeira. Ursa ficou enlouquecida de preocupação, mas Azula levou a mão ao queixo, encarou o próprio sangue e disse que não era nada demais. É a coisa mais Azula que ela podia ter feito. — Iroh riu, e Ty Lee o acompanhou na gargalhada. Azula sempre havia bancado a durona, o que não a surpreendia nem um pouco. — Ao invés de deixar Ursa tocá-la, Azula limpou a ferida sozinha no banheiro e aguardou sem um único gemido de dor até o médico da família aparecer para suturá-la. Ela dizia que chorar era coisa do Zuko.

— Eles nunca se deram bem? — Ty Lee perguntou antes de dar mais uma mordida em seu bolinho.

Iroh suspirou.

— A relação deles sempre foi complicada. Às vezes eles eram perfeitamente capazes de se entenderem, mas o mais frequente era o clima de competição.

— Competindo pelo quê, exatamente?

— A aprovação de Ozai. A afeição de Ursa. Sabe como é, não sabe?

Ty Lee baixou a vista, lembrando-se de como foi crescer com tantas irmãs. O desespero por atenção. As brigas. Às vezes elas até arrancavam sangue uma da outra, mas duas horas depois estavam brincando como se nada tivesse acontecido. Algo a dizia que Azula e Zuko não perdoavam tão fácil.

— Azula sente que Ursa nunca a amou — Ty Lee respondeu sem pensar muito no que dizia. — Acho que é por isso que ela não consegue encarar a mãe até hoje.

Iroh a olhou com uma expressão triste e cansada, como se ele não tivesse mais energia em seus ossos para ajudar aquela família. A visão machucava o coração de Ty Lee, mas ela era apenas uma intrusa naquele drama. Uma forasteira que estava se intrometendo demais.

— Acredite em mim, Ursa sempre amou e sempre vai amar a Azula. — Iroh suspirou. — Mas ela sabe que cometeu erros. Sabe que agiu de uma maneira que afastou a filha de si.

— Eu só queria entender... Por que ela não tentou levar os filhos? Ou manter contato?

Ela sentiu constrangimento com o olhar de compaixão que Iroh a lançou. Compreendeu quão pouco compreendia antes mesmo que ele explicasse.

— Você não conheceu meu irmão, então não posso te culpar por se questionar. Porém, acredite em mim, Ursa lutou o quanto podia. Ele era apenas... forte demais.

A Serpente em meu JardimHistórias para pegar e não largar. Descubra agora