IV. Saudade

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Apesar de exaustivo, Azula havia tido um ótimo mês. Da hora que acordava até a hora de dormir, ela se debruçava em livros e estudava até a vista cansar. Então, fazia meio período no estúdio de tatuagem, onde revisava suas anotações entre um cliente e outro. Para muitos, seria uma rotina cansativa, mas era o tipo de ritmo acelerado que Azula gostava, porque mantinha seu cérebro ocupado com coisas realmente importantes, ao invés de pensamentos desagradáveis. Além disso, ela finalmente estava se sentindo o prodígio que sempre havia sido, e não o fracasso que ela se acostumou a ser.

— Cuidado com tanta leitura. Não sei como seus olhos não caíram ainda — disse June ao encontrá-la com um livro de química, esperando um cliente.

— Surpresa por eu querer algo com a vida?

— Na verdade, não. Mas, considerando que você ficou menos chata quando conheceu a lindinha que trabalha do outro lado da rua, me preocupa ver você negligenciando sua namorada. Imagino que uma Azula pós-pé-na-bunda seria ainda mais desagradável que o normal.

Azula fechou a cara, encarando June com a acidez de sempre. Claro que June estava despeitada. Uma delas agora tinha a chance de levar uma vida melhor, e isso provavelmente incomodava. Mesmo assim, havia alguma verdade no comentário sobre Azula não estar priorizando tanto seu tempo com Ty Lee, e isso a deixou ainda mais irritada com June.

— Talvez se você tivesse uma vida amorosa ficaria menos investida na minha — respondeu, fechando o livro. — Ty Lee apoia que eu volte aos estudos. Ela sabe que isso é temporário. Além disso, claro que ainda estou planejando encontros especiais para nós duas.

— Ah, é mesmo? — June sorriu, pouco convencida.

Não. Mas você vai ver só. Eu consigo ser a melhor aluna e a melhor namorada ao mesmo tempo.

— Claro. Só não te contei nada, porque, bom, não é da sua conta, e porque sua matraca enorme poderia contar tudo pra ela.

— E estragar a surpresa? Jamais. Boa sorte com seu grande e épico encontro. Contanto que ela te mantenha feliz, não me importo se você começar a tatuar equações nos seus clientes.

June a deixou em paz depois disso, embora não sem antes plantar aquela inquietação em Azula, que precisava urgentemente planejar o melhor encontro de todos. Ty Lee geralmente decidia tudo que elas faziam juntas, mas, como Azula agora vivia estudando, a florista parecia ter dado a ela um espaço. E se Ty Lee estivesse se cansando? Azula certamente detestaria se ficasse sem receber atenção por tanto tempo, e sua namorada não era muito diferente nesse quesito.

— Eu acabei de largar do estúdio, mas queria te ver. Acabei de passar na frente da floricultura e tava tudo fechado, então... Você já foi pra casa? Posso passar aí? — Azula deixou o pedido na caixa de mensagens da namorada com o coração pesado.

Ela ainda não estava acostumada com aquilo. Relacionamentos eram tão vulneráveis, e Azula ainda sofria em ser honesta sobre suas emoções. Como palavras não vinham fácil, ela tentava compensar demonstrando seu amor de outras formas. Cuidando e protegendo, por exemplo. Ty Lee parecia gostar desse lado dela, quando ela forçava a namorada a relaxar ou a defendia de pessoas desagradáveis. Porém, agora que a atenção de Azula estava totalmente voltada para outra coisa, será que Ty Lee ainda conseguia sentir seu amor de alguma forma?

O celular tocou enquanto ela ainda estava distraída. Azula quase o derrubou na calçada com a ânsia para atendê-lo.

— Alô?

— Ainda quer vir aqui em casa? — perguntou Ty Lee do outro lado da linha. — Eu saí mais cedo do trabalho hoje e não te mandei mensagem porque achei que você iria pra casa estudar, senão poderíamos ter voltado juntas. Pra ser sincera, estou com saudades, mas não queria te alugar muito.

A Serpente em meu JardimHistórias para pegar e não largar. Descubra agora