43 - Noite de Natal em Arraial

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Rio de Janeiro, dezembro de 2022.


A pousada é sempre cheia, mas essa época do ano é muito disputada. No verão, a Região dos Lagos tem sempre muita gente, esse ano não está diferente. Estamos com lotação máxima para o Natal, sorte que Amanda já tinha avisado que vinha, se não ela e Antônio teriam que dormir no chão do meu quarto. O dia passou rápido, tínhamos bastante demanda de serviço e ainda me dividia entre a cozinha e os hóspedes. Desde o primeiro Natal aqui em Arraial, sou eu quem faz a ceia na pousada.

Já era de tarde quando Emanuel entra na cozinha querendo saber que horas Amanda chegaria. – Regiane, tem notícia da Amanda? Ela mandou mensagem cedo dizendo que estavam saindo e até agora nada. – Pergunta preocupado. Olho para o relógio e vejo que falta pouco tempo para quatro horas. Penso em ligar, mas ouço barulho de buzina em um ritmo só dela. – Ê boca, Emanuel! Anota ali pra mim os números da loteria – Saímos da cozinha rindo, seguindo o barulho. Quando chegamos no estacionamento encontramos Amanda no chuveirão da piscina, tirando areia da praia, enquanto Antônio abria o porta malas para pegar as bagagens. Eles estão corados de sol e com sorrisos largos. Fico feliz pela cena que vejo. Parecem entrosados, se tratam com carinho e ele se importa muito com a minha filha. Meu coração de mãe está quentinho. Em pouco tempo ela está me abraçando, toda molhada! Ela faz isso todas as vezes que chega da praia e todas as vezes eu saio reclamando enquanto ela dá gargalhadas. O pai está com Antônio, levando tudo para os quartos. Estivemos poucas vezes juntos, mas ele é doce e fácil de se apaixonar. Peço então para que ela vá logo se trocar, para que eu possa servi-los um lanche, praia sempre dá fome.

Essa é a primeira vez que Antônio vem para a posada, resolvemos então não coloca-los no quarto que ela sempre fica. Nos organizamos com as reservas e separamos a suíte principal para eles. Quando entregamos as chaves, Amanda nos olha com cara de quem não acredita, já que ela sempre pede para ficar lá e a gente sempre diz que não, ela é a maior e dá mais trabalho para arrumar, mas hoje era especial. – Quer dizer que eu só posso ficar no quarto que eu mais gosto por que o Antônio veio, é isso mesmo? – Ela implica com o pai, que dá de ombros e retruca – Posso voltar vocês para o quarto menor, tenho certeza de que nenhum hóspede vai reclamar do up grade. – Ele fala desdenhando e ela diz que de jeito nenhum! Agarra o Emanuel e o enche de beijos na testa. É tão bom vê-los assim! Eles demoram mais do que eu imaginei para saírem do quarto, mas não me importo com isso. Eles vêm para a cozinha me encontrar e peço para que se sentem no restaurante. Acho interessante que Antônio se nega – Dona Regiane, lá já tá tudo arrumado para a ceia. Acho que eu prefiro comer aqui mesmo. Posso? – Ele pergunta já puxando a cadeira da mesa de serviço. Me sinto ainda mais feliz, ele está se sentindo em casa. Amanda logo se junta a ele. Tenho pronto algumas pastas e coloco tudo na mesa. E eles mesmo montam os sanduíches. Me assusto quando o vejo fazer exatamente a mesma coisa que Emanuel, pegou uma torrada e colocou cada pasta em uma ponta. Amanda também percebe e entramos em uma crise de riso sem fim.

Eles estavam felizes e ficamos conversando enquanto termino o que faltava da ceia. Um papo leve e gostoso. Eles falando da praia, de que a cidade está cheia, mas que segue linda. Digo que não me adapto mais a vida no Rio, aqui é delicioso demais para que eu queira voltar. Acho graça quando Amanda diz que vai sentir falta do panettone de Bacalhau da BBB e que queria também o bolo Húngaro que a mãe do Ricardo fazia. Sou péssima para segredos, então arrumo uma desculpa e peço para que ela vá até a dispensa e ela sai de lá correndo e agradecendo – Mãe, não acredito! Como a senhora conseguiu isso??? Como meu panettone preferido veio parar aqui? – Antônio sorri e então ela entende... – Vocês se falaram, né? Vocês agora são um trio, é isso? Aliciaram até o Alface? – E a vejo com a mão na cintura, igual quando tinha 5 anos – Alface, não! – Diz Antônio enquanto pisca e eu concluo – Sarinha! – Ela se vira com o maior sorriso que eu já vi ela dando, vai até ele, o beija e agradece. Depois vem até mim e repete o ato. Depois de tudo pronto, vamos todos nos arrumar.

Oito horas em ponto estamos quase todos já no restaurante quando eles chegam rindo muito e todos riem assim que eles chegam. Tenho certeza que isso é coisa da Amanda e tô bem assustada dele ter topado vir combinando com uma roupa natalina de verão. Eles são uma piada. Uma piada linda! Feliz e apaixonada! A nossa árvore está toda enfeitada com muitos presentes. Este ano, como não temos nenhuma criança hospedada, abrimos mão do papai-noel. Antes de começarmos a ceia, fazemos uma oração simples em agradecimento ao ano, por estamos reunidos e pedimos saúde e bênçãos para todos. Fiz uma mesa única e longa, com o intuito de dividirmos o espaço e dá certo. Todos conversam entre si e parecemos mesmo uma grande família feliz.

Depois da sobremesa servida, um hóspede de São Paulo começa com os presentes até chegar a vez da Amanda, que inicia pelo meu, um vestido longo, lindo! Já sei que vou usá-lo no Ano Novo, depois segue para o pai, que ganha uma máscara de mergulho novinha. Ela é muito atenta, a última vez que esteve aqui percebeu que a dele estava ressecando. E então parte para o do noivo. Vemos que é uma caixa grande, que ela faz a opção de não segurar, ela se vira para ele e começa: – Comprar presente para uma pessoa que tem tudo é uma missão quase impossível! Fiz a opção por essa roupa maravilhosa, que, assustadoramente, ele topou usar. – E o puxa, todos nós rimos novamente. Ela o beija rapidamente e segue – Mas aí pensei que poderia ser uma coisa que ele gostasse e que fosse o ponta pé inicial para a nossa nova vida. – Só então ela pega a caixa. O olhar do Antônio é de curiosidade, ele faz igual criança, pega a caixa e a primeira coisa que faz é sacudir. Meu Deus! Como se merecem! Agradeço em silêncio por a minha filha ter encontrado alguém tão perfeito para ela! Até que ele apoia a caixa na mesinha lateral e abre encontrando uma máquina de café expresso completa, com direito a moagem de grãos. Ele olha incrédulo enquanto pega o celular e mostra pra ela. Amanda arregala os olhos – Você comprou? – Ela pergunta assustada – Não! Ia fechar a compra mais tarde! Isso é incrível! Você é incrível! – A puxa para um abraço. Estamos todos assustados e vibrando com a coincidência.

Chega a vez do Antônio. Ele pega uma sacola linda, dessas que não tem muito como saber o que tem dentro, pega a mão da minha filha e começa quase miando – Rodei o shopping inteiro e não achei nada que parecesse, genuinamente, com você. Até que você me ligou e seus olhos resplandeceram no visor. Tão verdes e tão lindos! Espero que você goste! – Quando ela abriu a caixa que tinha dentro da sacola encontrou um conjunto completo de joias de esmeralda. Ela não tinha reação, seus olhos estavam encantados com o que viam. Ela o abraçou forte e disse que ele era louco de gastar tanto dinheiro assim em um presente. Aí ele ri e fala: – Fico feliz que você tenha gostado, mas se eu fosse você eu virava a caixa. – Ela faz exatamente o que é orientada e encontra um envelope colado. Quando tira, tem um papel simples com alguma coisa escrito e ela dá um grito e pula sem seus braços. – Como você conseguiu isso? Antônio, tá assinado por ele... ele te chama de amigo! – Ele dá uma gargalhada com a reação – Nos conhecemos desde pequeno, ele tá ansioso para te conhecer. Quando resolvermos tudo, marcaremos com ele. – E Amanda novamente beija o noivo e se vira para mim e para o pai mostrando o que era. A noite seguiu feliz. Resolvi então fazer uma surpresa e levei até a porta do quarto deles dois espumantes e algumas frutas.

De manhã tomamos um longo café da manhã juntos,até que seguirem de volta para o Rio, iriam almoçar em outro lugar.

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