Rio de Janeiro, novembro de 2022.
Estranho quando vejo Antônio entrar na padaria bem mais cedo que o normal. Ele passa pelo balcão rapidamente se dirigindo à sua habitual mesa, no meio do caminho para, volta vagarosamente como quem quer pedir alguma coisa. Aguardo calmamente até que ele toma coragem e pergunta. – Ei Ricardo! Bom dia! Amigo, Amanda já passou por aqui hoje? – Achei engraçado a forma que ele perguntou, achei mais ainda ele ter acertado. – Não é que já passou, Antônio! Bom dia! Então... ela passou e pediu o de sempre, só que pra viagem. Disse que tinha uma reunião importante cedinho... até me preocupei, ela parecia cansada, mas ainda sim estava com uma ótima vibe.
Percebo que o suspiro longo do meu cliente vizinho foi quase doloroso. Ele parecia tranquilo e ao mesmo tempo ansioso. Pensei em perguntar, porém por mais que eu queira saber, não acho uma boa ideia. Antônio volta para o seu lugar olhando fixamente para o telefone com uma indecisão em seu rosto. Peço a Ana que vá atendê-lo na mesa.
Menos de cinco minutos depois, pouco antes da Vic levar o café para o Antônio, ouço uma voz alta, conhecida e sempre indesejada! – Ricardo!!!! Ric, Ricardinho, Ricardão! Tava morrendo de saudade de você! Ainda tem café? – Disse Cristian ou melhor, grita Cristian! Só pensei em como meu dia seria péssimo! Ter que aturar meu colega de escola era o que tinha de maior castigo na vida. Nos conhecemos desde criança, eu, ele, Amanda, Bianca e mais uma turma.
Cristian é um cara relativamente bonito, nunca entendi qual é a necessidade de ser tão implicante. A descrição que minha mãe o define é: “entrão”, Sarah diz que ele é “deselegante”, eu sempre digo que é “desagradável”, mas é isso! Ele quer café! Espero que seja só isso... - Oi Cristian! Só café, né? Tem sim! – Quando me viro pra eu mesmo fazer seu expresso, percebo o olhar de todos os clientes sobre ele, sim! Ele já está incomodando a todos.
Sabendo que Cris quase nunca vem à BBB, tinha certeza de que ele queria falar alguma coisa, e eu estava certo. Então ele começa... – Não vi você no samba da feira, depois que casou resolveu que não gosta mais de ver os amigos! Cadê a Sarah, vou pedir um habeas-corpus já hoje, pra na próxima edição ela deixar você ir, Ric! – Viro os meus olhos, respiro longamente, analiso se devo responder, mas já conhecendo a peça, falo pausadamente. – Você sabe que na hora do samba eu tô trabalhando, né? E que em dias de evento, fico até mais tarde já que um monte de gente para aqui pra comer antes de ir pra casa. Deixa a Sarah quieta, parece que não conhece. – Viro para acertar o jato de água quente na xícara, quando acho que ele vai parar, ele piora. – Você não sabe quem eu encontrei nessa edição, nunca mais tinha visto... – Paro tudo que eu tô fazendo, olho pra ele e sinto minha espinha gelar, ele segue falando alto e de forma grosseira – A Mandy! Lembra dela? Sempre foi gostosa, mas parece que tá mais! – Sabia que ele ia falar besteira, olhei rapidamente para a mesa do Antônio, devo admitir que fiquei com medo dele perceber a quem ele estava se referindo. Antônio e todos os outros clientes estavam incomodados, mas aparentemente ele não ligou o nome à pessoa. Agradeço em silencio. - Quase desenrolei, ela tava soltinha! Mas toda vez que eu chagava perto ela falava de um cara que deu bolo nela! Que ele tava certo, mas que não queria que estivesse... tudo muito confuso! Essas coisas de mulher que a gente não tem paciência! – Essa eu respondo sem dó. – Vai morrer sozinho! Não julgo as meninas não te darem atenção! – Abro o meu primeiro sorriso do dia! Entrego o café, pra minha tristeza, ele senta em uma das banquetas do balcão, droga!
- Pão na chapa, mas não deixa torrar, pede pra uma daquelas meninas daqui fazer certo! – Me viro pras meninas, vejo Pam olhar fixamente pra ele, virar pra mim e dizer – Deixa que eu faço! Vai ficar do jeito que esse ser gosta, assim ele vai embora logo, a gente dá um soquinho de mão e ela segue pra cozinha. Para meu desespero, o chato não desiste e volta a falar. – Ricardinho, você consegue imaginar quem é o cara que é capaz de dar um bolo em uma mulher gostosa, igual a Mandy?! Burro! Nada explica... – Olho pra frente e vejo Antônio vindo até nós, pronto! Sinto que terei problemas, mas quando ele chega bem perto de onde estamos, olha pro folgado do Cris e fala: - Você fala alto e não me deixou tomar café em paz! Concordo com o Ricardo, vai morrer sozinho! – Vejo que eles se olham fixamente, mas Antônio passa, para no caixa, paga pra Sarah que chegou a pouco e fez questão de não nos cumprimentar, e sai.
Cristian ainda fica mais uns vinte minutos e depois sai, prometendo que volta com mais calma. Faço uma oração para que isso não aconteça tão cedo.
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EVERY DAY, ONE DAY
FanfictionUma rotina Um café Uma mesa Várias percepções O quanto alguém pode alterar sua vida apenas sentando em seu lugar favorito? - Uma FIC COLLAB com muita gente legal! Recheada de amor!
