Ao Norte.

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A DOBRADORA de ar recolhia algumas maçãs para que levasse de volta para a casa da bruxa. Não tinha achado nada além daquilo, então, teria que servir. Não tinha levado nada para que pudesse guardar, e se amaldiçoou por isso. Odiava ter que carregar muitas coisas tendo apenas duas mãos, mas... é verdade, era dobradora de ar.

Utilizou sua dobra para que as maçãs flutuassem ao seu redor, sorrindo contente por ter encontrado uma forma de carregar mais comida. Queria comida de verdade, ou sei lá, um pão já estava bom. Não gostava muito de maçãs, então não ficou muito entusiasmada ao conseguir somente aquelas frutas. Esperava encontrar uvas, amoras, até mesmo laranjas, mas só conseguiu aquela porcaria vermelha.

Largou mais duas no ar, vendo a fruta girar lentamente ao seu redor. Ouviu passos atrás de si e não virou-se para ver quem se tratava. Pelo arrastar dos pés e pela respiração, já sabia quem era. Não iria manter contato visual ou sequer uma conversa. Queria que a menina desaparecesse, não somente daquele momento, mas da missão em si. Que fosse embora, que retornasse para o laboratório; qualquer coisa que as mantivessem separadas.

Mas lá estava Chloé, parando de caminhar ao avistá-la colhendo mais uma maçã. A luz suave do dia dançava entre as folhas, iluminando o cabelo de Nyla como um halo dourado. Era quase irritante como ela podia parecer tão serena, tão distante, enquanto dentro de Chloé havia uma tempestade.

Chloé se escorou em uma das árvores, cruzando os braços e deixando escapar um suspiro baixo. Observava Nyla se mover com a precisão de quem fazia aquilo há anos, ignorando a presença que claramente havia percebido. Idiota, pensava, com os lábios pressionados em uma linha fina. Idiota, egoísta e linguaruda. Como conseguia ficar tão calma estando na saia justa que estava? Como conseguia simplesmente colher frutas em paz, sabendo que o restante das outras meninas - com exceção de SeoHan - não conseguia nem mesmo olhá-la da mesma forma que antes?

Como conseguia... ignorar a si depois daquele beijo?

A verdade era que a idiota da situação era a que estava ali, parada escorada em uma árvore, não a menina que colhia maçãs.

Seu peito apertava cada vez que via Nyla se afastar mais, erguendo muros invisíveis a cada interação, como se o beijo que haviam compartilhado não tivesse significado nada. Mas para Chloé, significara tudo. Significava uma fagulha de algo que ela nunca soubera que precisava, mas que agora era impossível ignorar. E então vinha a raiva. Não contra Nyla, não de verdade, mas contra si mesma. Por se deixar cair tão fácil. Por desejar algo que sabia que Nyla não queria, ou pior, algo que ela parecia estar desesperada para evitar.

O silêncio entre as duas era ensurdecedor, preenchido apenas pelo som suave das maçãs caindo rodopiando ao redor da dobradora de ar. Chloé queria dizer algo - qualquer coisa -, mas as palavras morriam em sua garganta. Ela sabia que, se abrisse a boca, tudo viria à tona: a frustração, o desejo, o medo de que Nyla nunca a enxergasse como ela queria ser enxergada.

— Você vai ficar parada aí o dia inteiro? — A voz da garota cortou o ar como um fio, baixa e casual, mas com um leve tom de provocação.

Chloé sentiu o coração acelerar, e a raiva voltou. Como ela podia fazer isso? Como podia ser tão fria, tão inabalável, quando estava ali, fervendo de emoções que não sabia como controlar?

— Talvez. — Respondeu, tentando soar indiferente, mas a voz saiu mais dura do que queria.

Nyla ergueu o olhar por um momento, estudando-a, mas não disse nada. Apenas voltou a colher as maçãs, como se a presença de Chloé não fosse importante.

E ali estava a verdade mais dolorosa: para Nyla, talvez não fosse.

Chloé apertou os lábios, tentando conter a mistura de sentimentos que a estava consumindo. A cada movimento da dobradora de ar, cada passo calculado, parecia um lembrete cruel de que aquele beijo - o que para Chloé tinha sido um terremoto, um ponto de virada - era apenas mais um instante descartável para Nyla. Ela sentiu os dedos cravarem na casca áspera da árvore atrás de si, uma tentativa inútil de se manter firme.

Sinfonia ElementalOnde histórias criam vida. Descubra agora