A LUZ suave da tarde se infiltrava pelas janelas, iluminando a sala simples e acolhedora da pousada. O silêncio agora era quebrado apenas pelos sons ocasionais das panelas na cozinha e pelas respirações pesadas das dobradoras, que ainda se recuperavam do peso das revelações do dia anterior. Sentadas em torno da mesa, as mulheres pareciam prontas para dar início àquilo que seria mais um marco na jornada que as havia unido.
Madison, que liderava o momento, sentia uma mistura de cansaço e responsabilidade. Não era fácil assumir a posição de quem precisava reunir todos e conduzir decisões que poderiam mudar o rumo das coisas para sempre. Mas, ao olhar para as companheiras, percebeu que estavam ali porque acreditavam no que estavam fazendo.
A Flowers respirou profundamente e evitou olhar para as outras da mesa, em específico, Nyla.
— Bem, devo começar informando que a missão foi praticamente um sucesso. Praticamente. — Reforçou. — Fomos buscando informações de cidade em cidade, e cada uma das informações nos trouxeram aqui, para a pensão de Adam e Marie. Após nossa pequena estadia aqui, fomos até o bosque... que foi onde a Ordem nos abordou pela primeira vez. — Falou baixo, para que apenas as dobradoras escutassem o que estava ouvindo. — Porém, houve um erro de percurso de uma de nós. Nyla fugiu, então fomos abordadas apenas em três. — Fez uma pausa, percebendo o clima estranho. — Ela retornou no dia seguinte.
Nyla tinha a cabeça baixa e não ousaria falar qualquer coisa ou olhar nos olhos das mais velhas. Syuzanna, direcionou seu olhar para a Kushina e sua postura era muito semelhante à do dia em que tentaram fugir do laboratório, severa e imponente. Alika tomou uma profunda respiração e, por mais que quisesse dizer algumas coisas para a loira, resolveu esperar que Syuzanna o fizesse primeiro.
— Nyla. — A chamou calmamente, mas seu tom entregava a seriedade do momento. A Kushina não ergueu a visão. — Nyla, estou falando com você.
— Estou ouvindo. — Disse, baixinho.
— Encare seus erros com a mesma coragem que teve para deixar suas amigas sozinhas. Olhe nos meus olhos, agora! — A mulher disse um pouco mais firme, tomando cuidado para não elevar a voz.
Nyla assim o fez.
Enquanto seus olhos transbordavam de culpa e arrependimento, mesmo que não houvesse tanto arrependimento assim, os de Syuzanna transbordavam tristeza e decepção. Eram coisas que a dobradora de ar não esperava ver novamente voltadas para si, lembrava-se bem de como havia se sentido da primeira vez. E naquele momento, estava sendo infinitas vezes pior.
— Eu quero que me diga o que você foi fazer. O que de tão importante você tinha para fazer que não pôde esperar um pouco mais? O que era tão importante para que você apunhalasse suas amigas pelas costas e traísse a mim, à Alika e à Hani? — Questionou deixando que seu descontentamento fosse evidente. — Quantas vezes nós alertamos todas vocês de que não deveriam desviar o caminho da missão? Quantas vezes dissemos que poderiam existir perigos externos ao propósito disso, fora todos esses malditos dobradores? Quantas vezes, Nyla? Me diga!
— Muitas.
— E mesmo assim você fez! E se algo tivesse acontecido às outras? Algo pior do que o que já aconteceu? E se algo tivesse acontecido à você? Você pensou nisso, Nyla?
— Não, me desculpe. — Nyla disse sentindo as primeiras lágrimas lhe escorrerem pelos olhos.
Todas olhavam para a dobradora de ar com expressões indecifráveis. Syuzanna era a única que mantinha o olhar firme, mesmo que estivesse muito grata e aliviada por todas estarem bem, e por Nyla ter sido a responsável por salvar a todas, aquilo era um erro que precisava ser corrigido. E por mais que soubesse que a menina odiava ter aquelas conversas perto das outras, aquele seria o momento que iria corrigi-la, pois sabia que se fosse diferente, não teria o mesmo peso para a dobradora de ar.
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Sinfonia Elemental
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