NA MANHÃ seguinte, Madison despertou com uma sensação rara de alívio. O conforto familiar de seu quarto no laboratório parecia quase um luxo, um contraste gritante com os cenários caóticos que enfrentara recentemente. Sem casas abandonadas ou dobradores à espreita, sem o silêncio opressor de vilarejos desolados. Ironicamente, aquele lugar que um dia considerara um inferno agora parecia um refúgio. Contudo, as memórias da missão ainda pulsavam vivas, como uma ferida recém-aberta. Bastava fechar os olhos para sentir o frio áspero da cela onde estivera.
Ela se esticou na cama, espreguiçando-se com um prazer quase indulgente, enquanto o perfume suave de suas roupas limpas invadia suas narinas. Uma pequena, mas reconfortante vitória. Olhou ao redor, deixando os olhos passearem pelo espaço que, embora não fosse exatamente seu, ela aprendera a chamar de lar. Após alguns momentos de contemplação, sentou-se na cama e alcançou o botão das luzes. O quarto se iluminou gradualmente, e Madison piscou algumas vezes, ajustando-se à claridade.
Assim que a sensação de torpor desapareceu, ela balançou os pés para fora da cama, sentindo o chão frio sob eles, o que a fez estremecer levemente. Já estava na hora de começar o dia. Caminhou até o banheiro, ainda meio sonolenta, mas decidida a recuperar a rotina. Na noite anterior, havia tido forças apenas para um banho rápido e uma escovação de dentes apressada, então o restante dos cuidados precisaria ser resolvido agora.
Frente ao espelho, ela abriu o pequeno armário embutido, pegando sua escova de dentes e a pasta. O ritual era automático, quase meditativo: umedecer a escova, aplicar a pasta e começar os movimentos circulares enquanto observava o próprio reflexo. Os olhos, ainda um pouco inchados de sono, miraram as raízes loiras que começavam a despontar sob os fios ruivos. Um lembrete de que precisaria decidir se continuaria com a coloração ou deixaria seu tom natural retornar.
Ela suspirou, considerando a possibilidade. O ruivo lhe caía bem, destacando suas feições, mas havia algo reconfortante em imaginar-se novamente loira. Talvez fosse nostalgia. Talvez, uma chance de reconectar-se com uma versão mais autêntica de si mesma. "Decisões para outro dia", pensou, enquanto enxaguava a boca e buscava seus produtos de skincare.
Após prender os cabelos com uma faixa para evitar que molhassem, Madison começou o processo. O frescor da água e das loções parecia trazer sua mente completamente para o presente. Enquanto esperava o tempo para a ação do produto no rosto, foi até o criado-mudo, onde seu iPod descansava. A tela se acendeu com um leve toque, revelando a playlist preparada na noite anterior. Com um sorriso satisfeito, ela escolheu Just A Girl, do No Doubt.
A melodia enérgica encheu o ambiente, trazendo uma onda instantânea de ânimo. Era o tipo de música que sempre conseguia levantá-la, fosse qual fosse o humor. Conforme a letra tomava forma, Madison começou a balançar o corpo, os pés marcando o ritmo no chão. Um sorriso divertido escapou quando ela se lembrou da frase que a música repetia: sou apenas uma garota. Havia algo profundamente libertador nessa ideia, como se tudo fosse permitido por um instante.
Quando chegou ao refrão, ela não resistiu. Pegou um desodorante em spray e o ergueu como se fosse um microfone, posicionando-se em frente ao espelho. As palavras escapavam de seus lábios com entusiasmo, mesmo que ainda não soubesse todas as partes da letra. Madison riu de si mesma, sentindo-se absurdamente feliz.
Enquanto dançava, os fios soltos da faixa em sua cabeça balançavam de maneira quase infantil, e ela não pôde deixar de pensar no apelido que havia ganhado ao longo dos anos: Alice no País das Maravilhas. Talvez houvesse um pouco de verdade nisso. Estar de volta ao laboratório, com seus pequenos confortos, era como sair de um mundo de pesadelos e retornar a um lugar onde, mesmo com suas imperfeições, ela podia ser apenas quem era.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Sinfonia Elemental
FantasiFANTASIA | ROMANCE SÁFICO | DRAMA | SUSPENSE | TERROR Em um mundo onde os humanos acreditavam que superpoderes eram uma exclusividade dos filmes fantasiosos, os quais não passavam de meras histórias distópicas para que pudessem arrancá-los da realid...
