O DEDO indicador de SeoHan permanecia erguido, rígido como um obelisco, apontando para um horizonte desvanecido que parecia pulsar com uma luz tênue e sobrenatural. Os olhos da menina brilhavam em um azul etéreo, tão vívido que pareciam conter estrelas agonizantes em sua profundeza. Madison sentiu um nó se formar em sua garganta, mas reprimiu o impulso de recuar. A hesitação nunca a levaria a lugar algum. Inspirou fundo e deu um passo à frente, o som de suas botas esmagando o silêncio como um eco ameaçador. Outro passo. E mais um. O ar ao redor parecia mais pesado a cada movimento, como se uma força invisível a testasse, sussurrando advertências que ela decidiu ignorar.
Agora próxima da novata, Madison levantou o queixo, confrontando aqueles olhos luminosos que pareciam perfurar o véu de sua alma. O medo rugia em seu interior, mas ela o silenciou com a determinação de alguém que já havia perdido tudo e não tinha mais nada a temer. O peso do que buscava - respostas, verdades, significados - ardia dentro dela. Não era apenas para o grupo; era para si mesma. Ela precisava entender. Precisava saber por que sua vida passada havia terminado tão abruptamente. E, mais do que isso, precisava descobrir quem era o responsável por sua morte. Edgar Brandt.
Seu olhar endureceu, a raiva se mesclando com uma ousadia quase imprudente. Madison avançou e, sem hesitar, pressionou a testa contra o dedo erguido de SeoHan. O toque não era quente nem frio, mas algo indescritível, como um fragmento de vazio tocando sua pele. Um calafrio atravessou sua espinha, serpenteando até a marca oculta em sua nuca. Fechou os olhos, sentindo a onda de energia se acumular ali, como se algo estivesse despertando.
Quando os abriu novamente, os olhos de SeoHan - ou da entidade que habitava aquele corpo pequeno e frágil - encaravam-na com uma intensidade avassaladora. Era como se aquele olhar fosse uma janela para um infinito aterrador, onde todas as suas vidas passadas dançavam em agonia e glória, expostas em um caleidoscópio de memórias esquecidas.
Por alguns segundos, Madison jurou que aquilo sorriu para ela.
— A escolhida do fogo, que honra ter-te aqui. Tua linhagem é forte. És destemida, e guarda a vontade do fogo em seu coração. Fez muitos sacrifícios ao longo de suas vidas. — Aquelas vozes falaram, sem que o corpo da menina movimentasse os lábios. — Teve tantos sobrenomes... cada um com sua própria peculiaridade. És líder de espírito, escolhida do fogo. Todas as tuas vidas foram assim, e assim serão até o repouso de tua alma.
— O que essa... coisa tá falando? — Nyla sussurrou, mas as outras dobradoras não responderam nada. Apenas observavam a cena como se quisessem participar. — O que é essa coisa?
O corpo de SeoHan virou lentamente sua cabeça até onde a dobradora de ar estava. Seu indicador ainda tocava a testa de Madison, e a menina parecia não se incomodar de estar daquela forma. Na verdade, sentia-se... bem. Não era uma sensação ruim; um arrepio ruim. Era diferente, e parecia conhecer intimamente a si mesma. Algum lado que nem mesmo ela conhecia, mas que de alguma forma aquela coisa sim, e muito bem.
— A escolhida do ar, fascinante. — A voz tremeluziu, como se falhasse. — Há um motivo para que guardes tantos rancores e angústias. Estas prisões intrinsecamente humanas em ti... é adorável. Tua alma foi corrompida em sua primeira vinda a este mundo, e desde então, permanece assim. — A cabeça de SeoHan deu um espasmo, como se a força que a dominava estivesse tentando se sobressair. — Este corpo não pode suportar tanto tempo. O prazo está acabando, e Ele está voltando. Não há tempo para vós, Escolhidas do Espírito. Sigam para o Norte. Lá acharão as respostas.
Chloé deu um passo para frente, ainda que estivesse hesitante. Estendeu a mão para que tentasse alcançar a novata, mas não teve forças para isso.
— Espera! — Tentou. SeoHan agora tremia levemente. — Pelo menos diz pra gente que devemos confiar em você, e que não é nenhuma armadilha do Breu.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Sinfonia Elemental
FantasiaFANTASIA | ROMANCE SÁFICO | DRAMA | SUSPENSE | TERROR Em um mundo onde os humanos acreditavam que superpoderes eram uma exclusividade dos filmes fantasiosos, os quais não passavam de meras histórias distópicas para que pudessem arrancá-los da realid...
