A MULHER caminhava até o lugar que era conhecido. Lembrava-se daquele lugar, duplamente. Ali fora palco de muitas histórias, quase como se fosse premeditado. Não sabia o porquê da mulher estar se escondendo naquele lugar, mas sabia que ela estava ali. Sabia que ela estava se rastejando entre os escombros, como uma cobra pronta para dar um bote. E Hani, pela primeira vez em anos, não estava com medo.
A Escuridão estava ao seu lado, ajudando a farejar o doce aroma do medo e do caos.
Havia tirado seus saltos, pois não havia necessidade alguma de usá-los por ali. O chão de pedra era confortável, a sujeira e o disforme dos níveis eram agradáveis. O cheiro do solo recém-molhado era agradável, como o cheiro de uma manhã preguiçosa em um dia chuvoso. Porém, a ausência do sol era nítida, apenas seus resquícios iluminavam seus caminhos naquele momento.
Hani caminhava pacientemente, observando a sala de trono do grande castelo. Era engraçado, até. Após ser dominada pela Escuridão, soube de muitas histórias engraçadas. E a mais humorada de todas, era que já tinha pertencido àquela realeza. Não havia ordem por ali, não havia supervisão e tampouco guardas. Mas havia uma em específico que parecia gostar de brincar com a ambientação do lugar, como se conhecesse as sombras de seu passado, como se estivesse presente em cada momento de sua vida, mesmo que distante.
A Bae parou de caminhar, sentindo o chão abaixo de si confortar seus pés descalços. Ela olhava atentamente para sua frente, admirando secretamente as sombras do castelo, esgueirando-se por entre a estrutura abandonada, onde uma vez esteve presente, em uma vida que não lhe pertencia, mas que fora vivida. À sombra daquela penumbra, Hani ficou parada, ouvindo os sons agradáveis de corvos, pássaros e o rastejar de passos. Seus olhos não perderam o foco, pois estava certa da posição em que estava, e levaria apenas vinte e quatro horas para que finalizasse aquele trabalho.
Instigada apenas pela sede de vingança, amargura e ressentimentos guardados e selados ao peito.
Afinal, fora por conta desses sentimentos remoídos no âmago de seu peito, que a Escuridão encontrou seu lar. Não foi por conta de sua personalidade bondosa, que morria cada vez mais que a Escuridão se embrenhava por entre sua alma, mas sim, pelos seus desejos mais obscuros. Hani sempre teve o coração bondoso, mas sempre guardou muitos segredos lúgubres. Muitas ambições obscuras, que apenas a Escuridão poderia entender.
Caminhou um pouco mais à frente, vendo os resquícios de sua antiga vida atingirem com força a nostalgia intrincada em seu peito. O antigo lar da Escuridão quase foi a pequena dobradora de água, frágil e fácil de manipular; sua ação foi similar a uma criança que brincava sorrateiramente com uma boneca de porcelana, ou como um adulto pisando em cacos de vidro. A Escuridão, por mais promíscua e manipuladora que fosse, sempre fora muito cuidadosa com sua escolha centenária.
Sabia que Chloé não seria compatível com seu poder, por mais poderosa que fosse, assim como a dobradora de fogo, terra e ar. Nenhuma delas serviria, afinal. Mas quando sua influência residiu no laboratório, sempre observou Hani. A humana. Tão frágil quanto a dobradora de água, tão impulsiva quanto a dobradora de fogo, tão desordenada quanto a dobradora de terra e tão curiosa quanto a dobradora de ar. Era a junção que sempre sonhou em ter, há mais de séculos atrás.
A Escuridão era completamente culpada pelos atos inconsequentes de Hani, e a mulher tampouco sabia disso. Sua verdadeira forma estava adormecida dentro de si, pois agora, sua consciência pertencia à entidade ancestral do caos. Não era mais Bae Hani, ou Bae Haneul. Era, como gostavam de nomeá-lo, Breu. Em toda sua magnitude e horror.
Saciaria os anseios obscuros da mulher, mas não por piedade ou senso de dever, mas sim, para executar sua função: instaurar o caos. A pequena e doce Haneul nunca teria coragem para matar sua própria mãe. Nunca vingaria o fim de seu pai. Nunca abandonaria suas relações com o laboratório. Mas, aquela Haneul sim. A Haneul perfeitamente construída pelas ideias podres de uma divindade ancestral, que cultivou-a com seus sussurros ímpios até que começasse a realizar seus testes.
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Sinfonia Elemental
FantasíaFANTASIA | ROMANCE SÁFICO | DRAMA | SUSPENSE | TERROR Em um mundo onde os humanos acreditavam que superpoderes eram uma exclusividade dos filmes fantasiosos, os quais não passavam de meras histórias distópicas para que pudessem arrancá-los da realid...
