O AMBIENTE na casa da bruxa parecia começar a fazer sentido. As paredes, antes assustadoras, agora pareciam entediadas com a presença das outras meninas, quase como se estivessem cansadas do falatório sem sentido do grupo de dobradoras. Chloé estava arrumando sua cama, ou melhor, seu saco de dormir, ao lado de SeoHan. Catarina e Madison haviam decidido procurar por algum quarto na casa, e por isso cederam um dos sacos para a novata, que ainda parecia se acostumar com a ideia de pertencer àquele grupo.
Mesmo que a dobradora de água quisesse permanecer ali na sala, agora que a casa não parecia tão assustadora assim, sentiu uma pontada de curiosidade cutucando-a para que continuasse a exploração. Mas seu corpo era pesado, sua cabeça doía levemente e o cobertor parecia muito quentinho. Fazia frio naquela noite, quase como se estivesse com um ar condicionado ligado no dezesseis bem à sua frente. O frio não a incomodava, mas gostava da sensação de calor que uma coberta poderia proporcionar. Quase como um abraço.
SeoHan se arrumava e parecia acanhada de estar descansando. Fazia tanto tempo que não tinha esse momento que agora parecia mais um privilégio do que uma necessidade básica. Era triste pensar assim, mas não estava exagerando em nenhum ato. Queria mesmo poder voltar a ser uma garota normal, mas também estava começando a se acostumar com aquele caos, e com os poucos - e raros - momentos de tranquilidade que sua vida estava proporcionando-a.
Com uma lamparina acesa, Madison despediu-se das demais e seguiu o rumo para aquele corredor sombrio. Catarina ainda estava na sala, com a mesma expressão pensativa, quase como se estivesse em outro universo. A casa ainda era um problema para si; estar ali ainda era um problema. Não sabia se as outras também sentiam o que estava sentindo agora, ali, mas que estava assustada, isso estava. Assustada talvez não fosse a palavra certa, mas atenta sim, com certeza. Atenta a qualquer mísero sussurro proveniente da casa.
Ainda que estivessem tendo um momento de paz, a visão da bruxa não conseguia sair de sua cabeça, e o curto diálogo que tivera com Nyla também não ajudava a relaxar. Estava triste pelo que a menina havia feito com o grupo, mas não estava zangada como as outras. Não entendia o porquê de não conseguir sentir raiva da menina, e isso a frustrava ainda mais. Raiva era mais fácil de ser sentida, e é claro que as coisas não seriam fáceis para si agora, em um momento tão delicado como aquele.
A verdade era que sentia pena da dobradora de ar, mesmo que não quisesse; mesmo que isso custasse sua amizade com Chloé e sua relação com Madison. Ambas as dobradoras estavam mesmo sentidas pela ausência da Kushina na batalha, talvez não pela força da menina, mas pelo simples querer estar; por desejar enfrentá-los como um grupo, como uma família. Para Madison podia ser difícil, não só pelo fato de ser a líder e ter que lidar como responsável o tempo todo, mas também por Nyla ser sua melhor amiga. Por elas terem criado aquele elo que parecia inquebrável, mas que agora estava trincado, só esperando um vento mais forte soprar para que ele se estilhaçasse por completo.
Contudo, para Chloé estava sendo pior. Catarina sabia disso.
Assim como Madison era melhor amiga de Nyla, Catarina sentia que podia ser considerada melhor amiga da dobradora de água. Era confortante ter um elo como aquele, mesmo depois de tanta confusão entre elas, encontrar um caminho que as levassem para a harmonia era indescritível. Catarina sentia que Chloé estava mal, mesmo que não demonstrasse por fora, ela sabia que por dentro o mar dentro da Guillaume estava agitado e tempestuoso. Chloé amava Nyla, ela só não entendia isso ainda.
Ou não queria admitir.
Já Nyla, parecia querer evitá-la a todo custo. Mas a troco de que? O que ela ganharia evitando um sentimento tão puro? Talvez a mexicana tenha mesmo ferido a loira americana ao terminar aquela relação, e não sabia ao certo o que fazer para diminuir aquilo. Queria poder voltar naquele quarto, conversar mais um pouco e tentar explicar todos os pontos corretamente, porém, não tinha volta. Quando a Kushina decidia ficar sozinha, isolada do restante das outras, era porque precisava de um tempo assim. Precisava entender seus próprios sentimentos.
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Sinfonia Elemental
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