Adeus - Parte 2.

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ERAM por volta das sete e meia da noite e Syuzanna prendia o cinto de Hani no banco dos passageiros de seu carro. Aos poucos o bairro estava ficando mais apresentável, mais iluminado e habitável. Haviam focado primordialmente na casa dos Bae, afinal, queriam se mudar o quanto antes e só quando a reforma havia terminado que resolveram reformar as demais casas que cercavam a residência das duas mulheres. A obra estava fluindo bem e rápido, mesmo que não tivessem tanta pressa, mas era muito bom para o casal observar aquilo, já que aos poucos conseguiam visualizar melhor aquele lugar sendo habitado pelas demais pessoas que amavam.

E por falar nisso, estavam prontas para se encaminhar até uma dessas pessoas que tanto amavam. Estavam indo buscar Nyla na casa de Grace e ali, após Syuzanna ter certeza de que estava tudo certo com o cinto de sua noiva, olhou para a mulher, que já a olhava. Ficaram em silêncio por breves segundos e riram nervosamente. Era engraçado estarem tão nervosas com aquilo, uma vez que já tinham tudo em mãos, tudo legalizado e já mantinham um contato mais íntimo com a menina.

Mas fazia algum tempo que não se viam e seria a primeira vez juntas como uma família de verdade, sem ser virtualmente. Com um beijo na testa de Hani, a mulher se afastou e fechou a porta, logo dando a volta no carro e assumindo seu lugar no banco de motorista. Ligou o carro e tomou uma respiração profunda, liberando-a de maneira ruidosa e prolongada. Olhou para a mulher, estendendo-lhe a mão, que de pronto recebeu o contato da mão da outra, podendo assim levar às costas desta até seus lábios e deixar um beijinho por ali.

— Pronta? Podemos ir? — Perguntou, deixando um afago em sua mão com o polegar.

— Bem, acho que sim. — A mulher respondeu, soltando uma risada desconcertada. — Acho que é normal me sentir nervosa.

— Só precisamos pensar que já passamos um ano com a guarda dela não oficialmente, agora só foi oficializado. — A mulher deu de ombros, fazendo uma pausa. — E eu sei que pensar assim não ajuda muito, estou muito nervosa também.

Hani mordiscou seu lábio. Mesmo que tivesse passado esse tempo todo com a menina, e até compartilhado momentos a sós com a mesma, não era a mesma coisa. Agora ela seria, oficialmente, mãe da menina. Tinha medo de não conseguir ser uma boa mãe e magoá-la, pois mesmo que se sentisse como uma, nenhuma mulher era cem por cento preparada para ser mãe. Todas tinham inseguranças.

Não tinha relação com a gestação, não tinha relação com ser do mesmo sangue, mas sim, com o compromisso com a maternidade. Hani e Syuzanna seriam mães de Nyla, independente de qualquer coisa. E não seria uma folha de papel ou uma opinião popular que poderia dizer aquilo, eram elas mesmas. Estava temerosa, mas estava feito. Agora, tinham que buscar sua filha.

— Vamos? — Olhou para a dobradora de metal. — Não quero que você dirija muito tarde. E também não quero que Nyla vá dormir pela madrugada.

— Espero não estourar uma peça do carro. Seria complicado isso agora. — A mulher riu soprado, já colocando o carro em movimento. — Tá tudo bem e vai permanecer tudo bem. — A mulher dizia mais para si do que para a mulher ao seu lado.

Não conheciam Grace pessoalmente e mesmo que tivessem trocado algumas palavras algumas vezes, Syuzanna temia que a mulher entendesse as coisas errado. Sabia da história entre sua filha e a mulher, e temia que fossem compreendidas como uma tentativa de anular o seu papel na vida de Nyla. Era difícil saber o que realmente se passava na cabeça da mulher, já que ela era sempre muito calma, pacífica e dócil em suas palavras, mas também não parecia muito aberta para conversações.

E não cobravam isso da mulher, apesar do tempo distante, sabiam do carinho que esta sentia por Nyla, uma vez que a menina revelou para suas mães o conteúdo das inúmeras cartas que Hani havia conseguido recuperar. Era realmente delicado, pois mesmo que Grace visse Nyla como sua filha, ainda que estivesse afastada de seu cargo, muito dificilmente conseguiria adotá-la. E mesmo que conseguisse, não teria condições de manter a menina como gostaria e sendo assim, mesmo que doesse em si, preferia que a garota tivesse uma família que pudesse supri-la devidamente.

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