Alícia
Assim que ouvi a notificação de mensagem, senti meu coração disparar, o toque diferenciado me mostrou que era Lucca. Contudo, por conta do adiantado da hora, o medo me dominou de imediato e se houvesse acontecido algo?!
Sendo assim, antes mesmo de ler o teor da mensagem, já estava tremendo e rezando.
Suspirei aliviada por um breve instante ao ver que ele só queria conversar...
Ele quer conversar!
Quando me dei conta do que isso poderia significar, o temor e a tremedeira voltaram com força total.
Mas munida de coragem, que não sei onde arrumei para ser sincera, respondi, enquanto começava a me trocar:
"Estou indo para aí! Beijos!"
Eu não irei aguentar esperar pra saber o que ele quer me dizer e, seja bom ou ruim, que fale de uma vez!
Coloquei um jeans, camiseta branca e sapatilhas, peguei minha jaqueta de couro e soltei os cabelos. Como tinha acabado de tomar banho, nem precisei me perfumar.
Eu poderia estar indo tomar um fora, ouvir que ele não queria nem mesmo a minha amizade,mas iria ajeitada, como minha avó costuma brincar.
Nos últimos tempos, tenho notado como ele fica inquieto e talvez até incomodado... porém, tentei ignorar e colocar na conta do novo programa de fisioterapia e das dores que ele tem sentido.
Entretanto, esse pedido para conversarmos, me faz ter que encarar que provavelmente, o problema seja comigo.
Decidida a resolver de uma vez, dei uma última olhada no espelho e desci as escadas com as pernas trêmulas.
Meu avô ainda estava na sala, em sua poltrona, lendo.
Suspirei, porque preferia não ter que confrontá-lo, porém era inevitável.
-Allie! Onde você vai a essa hora?- questionou surpreso assim que se deu conta da minha presença.
- Vou encontrar com o Lucca, vovô...
- Tão tarde?! Esse rapaz não se preocupa com a sua segurança!- me interrompeu, visivelmente contrariado.
- Vô, nem é tão tarde assim e nós moramos a dez minutos de distância. E o principal, eu disse que que iria agora, ele não me pediu.
Argumentei paciente, já com as chaves do carro e a bolsa em mãos.
- Você sempre defende esse rapaz! Não entendo o que vê nele, principalmente, agora que está aleijado...
- Olha, vovô, eu não quero discutir, mas não vou admitir que o senhor se refira a ele dessa maneira!- interrompi indignada- Ele é o homem que eu amo! E o fato de estar com dificuldades é locomoção, em nada o desabona...
- Dificuldades de locomoção, Alícia?! Faz-me rir com seu eufemismo! ALEIJADO! Isso sim! Dependendo dos outros para tudo e você vai se acabar se ficar com ele!
Fiquei em silêncio encarando o homem que me criou, que assumiu e desempenhou tão bem o papel de pai e que mesmo tendo perdido sua única filha não permitiu que a própria dor me atingisse, agindo como um ser frio e cruel. E senti meu coração se partir em milhares de pedaços.
Eu nunca consegui entender a razão do meu avô ter começado a odiar tanto o Lucca quando começamos a namorar e, tive a esperança por muito tempo de que esse ódio fosse passar. Mas vendo sua atitude e ouvindo suas palavras, me dei conta de que isso não irá acontecer. E que vou precisar me posicionar, não posso admitir que ele desrespeite ao Lucca.
- Ainda bem que a escolha é minha, né vô? Porque eu o escolho, quero é aceito da forma que for.- afirmei friamente- Nessa vida e em quantas outras existirem, como o senhor diz acreditar.
- Alícia, eu estou falando porque quero o seu bem, a sua felicidade...
- Se realmente quisesse minha felicidade, teria aceitado a nossa relação e JAMAIS, JAMAIS, falaria essas coisas. - interrompi abrupta e com a voz embargada- O senhor me fere de morte agindo assim.
Virei as costas e deixei as lágrimas correrem livremente. Como meu avô pode agir assim?!
E toda a crença em amor e caridade? Em ser empático e respeitoso? Obviamente, quando se trata do Lucca, todos os princípios dele escorrem pelo ralo.
Entrei no carro e tentei me recompor... eu preciso de todo o controle possível para a conversa que terei.
Dirigi o curto percurso, fazendo o exercício de relaxamento que aprendi com Anne em nossa última sessão de terapia. E as lembranças dos nossos últimos encontros voltaram à minha mente.
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Rise UP
RomanceUm amor que teve início na adolescência, pode ser destruído por um acidente e suas consequências? Imaturidade, traumas do passado, falta de confiança e preconceito, podem acabar com uma relação? Nessa história vamos descobrir como o autoconhecimento...
