Árdua realidade

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Allie


Julian nasceu exatamente na data prevista. Eu mal podia esperar para conhecê-lo. Nos primeiros dias, achei que seria um momento de adaptação para a nova família, e talvez uma visita fosse inapropriada.
Mesmo assim, desde que eles voltaram para casa, eu ligava todos os dias.
Sentia um amor intenso, inexplicável, por aquele bebê que eu ainda nem tinha visto pessoalmente.
Mas, por enquanto, era só isso que eu conseguia: ligações e chamadas de vídeo.

Com o casamento da Carol e do Fábio, a gravidez, Lucca na terapia, os detalhes do meu próprio casamento e as demandas do meu novo cargo, eu mal conseguia respirar.
Ah, e havia outra questão que eu não podia mais protelar: a casa dos meus avós.
Continuava fechada.
Eu tinha decidido colocá-la à venda e precisava retirar meus pertences pessoais e escolher o que queria guardar de lembrança.
Isso seria doloroso… mas inevitável.

Cheguei em casa e encontrei Rosa saindo. Cumprimentei-a com um beijo e sorri:
— Tudo bem? Há quanto tempo não a vejo.
Ela retribuiu o sorriso.
— É que você tem trabalhado muito.
— Verdade, muita responsabilidade. E por aqui, tudo bem?
— Sim… mas o Lucca está com um humor de cão!!! E quase não se alimentou hoje.
Suspirei fundo.
Precisaria de coragem e paciência.
Rosa pareceu ler meus pensamentos e completou:
— Paciência e coragem, minha menina… o que ele passa não é fácil.
Assenti, beijei-a de novo e entrei para “enfrentar a fera”.

Ele estava no quarto, ao computador, concentrado no desenho de uma planta. Não me ouviu entrar.
Para não assustá-lo, tossi levemente. Sem se virar, disse:
— Rosa, eu não quero comer nada. Por favor, não insista. Eu não vou ter a sorte de morrer de inanição.
Seu tom era puro azedume.
Respondi friamente:
— Acho que morrer de inanição está longe de ser sorte.
Ele não pareceu desconcertado.
— É, sou eu. E você parece não ter ficado feliz em me ver.
Falei dengosa, massageando seus ombros rígidos de tensão:
— Claro que estou feliz. É que estou tendo que refazer essa planta e preciso de um livro que, graças a estar preso nessa cadeira, não consigo pegar. Ia pedir para a Rosa, achei que era ela que tinha entrado.- explicou tentando aparentar naturalidade.
Notei sua frustração.
— Onde está o livro? E qual o título? — perguntei calmamente.
Segui sua orientação, fui ao escritório e precisei usar a cadeira para alcançar o livro.
Realmente, ele não teria conseguido. Voltei e o entreguei.

— Enquanto você trabalha, vou tomar um banho e preparar o jantar.
— Obrigado pelo livro. Meus pais foram jantar fora e eu estou sem fome. Então não precisa fazer comida para mim.
— Ok. Mas a Rosa me disse que você não comeu nada hoje. Então eu vou preparar o jantar sim, e você vai se alimentar. Saco vazio não para em pé.- insisti firme.
— Alicia, por favor, não me trate como um dos seus alunos. Nós já discutimos por isso. E, se você esqueceu, eu não paro em pé. O fato de comer ou não não modifica nada na minha condição.- falou ríspido.
Engoli em seco e sustentei seu olhar gélido.
— Desculpe. Foi uma analogia infeliz. Mas vou fazer o jantar mesmo assim e espero que você me acompanhe.
Não dei tempo para que respondesse e fui para o banheiro.
Eu e minha mania de falar demais… era tão difícil ficar pisando em ovos o tempo todo.

Tomei banho, troquei de roupa e fui para a cozinha. Para aliviar o estresse, liguei o rádio.
Enquanto cozinhava, cantava e dançava. Coloquei os legumes para ferver e comecei a temperar os bifes.
No rádio, começou a tocar Sugar, do Maroon 5, e eu não pude resistir.
Saí dançando pela cozinha de olhos fechados.
Que saudade eu sentia de sair e dançar a noite toda…
Só percebi que ele me observava da porta quando a música acabou e eu abri os olhos.
Fiquei sem graça e disse, para disfarçar:
— Hum, o jantar está quase pronto.
— Você sente muita falta, não é? — perguntou, com um tom triste.
Fiz-me de desentendida:
— Falta do quê?
— Allie, você me entendeu. De sair para dançar como fazíamos antes…
— Não. Eu só gosto dessa música — respondi, de costas para ele, colocando os bifes na grelha. Eu não podia deixar que percebesse que estava certo.
Isso iria magoá-lo.
Mas não fui bem-sucedida na tentativa de disfarçar.
— Allie, não precisa mentir para mim. Eu sei que, ao ficar comigo, você está se privando de muita coisa. Eu não quero que se frustre para ficar comigo. Isso pode acabar com a nossa relação — disse tristemente.

Rise UPHistórias para pegar e não largar. Descubra agora