Natal

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Allie

Eu não entendo como ele pode ser tão teimoso!!
Da última vez o Dr. Edwards, havia explicado as possíveis consequências se ele não seguisse as recomendaçõe. E de novo estávamos aqui ... até quando ele persistiria no mesmo erro?
E eu estava com tanta raiva dele, por se colocar nessa situação, que prefiro me manter calada. Além do que, continuar a falar não ia alterar em nada a condição dele.
O fato de ele ter tentado esconder de mim que estava sofrendo, me fez ficar preocupada.
Se ele achava que tinha que me poupar à custa do próprio sofrimento, era sinal de que me considerava fraca?
Fiquei observando -o em silêncio.
Eu sabia que ele ainda estava com dor e imaginava a frustração que sentia ...
Voltariamos a rotina desgastante, que o deixava de extremo mau humor. E acabava por contagiar à todos ao seu redor... inclusive a mim.

O silêncio no quarto era quase sufocante. O som dos monitores e o leve zumbido do ar-condicionado eram a única coisa que preenchia o espaço enquanto esperávamos a liberação para ir pra casa. Ele fingia estar distraído, olhando pela janela, mas eu sabia que estava apenas evitando o assunto.
Cruzei os braços e encarei o chão por um instante antes de quebrar o silêncio, numa última tentativa de entendê-lo:
- Eu realmente não sei o que passa pela sua cabeça, Lucca. - disse num tom baixo, tentando conter a irritação. - O médico falou com toda a clareza possível, e mesmo assim você faz exatamente o contrário.
Ele continuou calado, e isso só aumentou o nó no meu peito.
- Você se coloca em risco, sente dor, e depois tenta disfarçar... pra quê? - insisti, a voz começando a tremer. - Acha que me esconder as coisas vai me proteger? Porque, sinceramente, só me deixa ainda mais preocupada.
Ele respirou fundo, sem me encarar, como se procurasse algo pra dizer. Mas eu continuei:
- Eu sei que deve ser difícil, que nada disso é fácil pra você... mas fingir que está tudo bem não vai fazer a dor desaparecer ou a situação mudar. Só piora tudo - inclusive entre nós.

Por um instante, o olhar dele se desviou da janela e se encontrou com o meu. Havia algo ali... culpa, talvez, ou cansaço.
- Você não precisa provar nada pra mim, Lucca. - completei, mais suave. - Eu só quero que pare de lutar sozinho.
O silêncio voltou a se instalar, mas dessa vez havia algo diferente nele. Um peso compartilhado, feito de tudo o que não precisou ser dito.
Ele respirou fundo, desviando o olhar novamente, como se minhas palavras o incomodassem mais do que a própria dor.
- Você está exagerando, Allie - murmurou, tentando soar firme. - Eu sei o que estou fazendo. Só foi um deslize, nada demais.
Aquela autossuficiência fingida me irritou ainda mais.
- Nada demais?! - repeti, com incredulidade. - Quarenta e cinco dias com os dois pés engessados não é nada demais?! Você mal consegue esconder o quanto está sofrendo, e ainda tem coragem de dizer que não é nada?
Ele fechou os olhos por um instante, como quem busca paciência.
- Eu só não quero que tudo gire em torno disso. Já basta o que perdi... não quero perder também o pouco de normalidade que ainda tenho.
Essas palavras me atingiram como um soco.
- E acha que se destruir em silêncio é o jeito certo de manter as coisas normais?! - rebati, tentando conter o choro. - Isso não é força, Lucca. É teimosia.
Ele me olhou então, realmente me olhou e, vi o orgulho dele vacilar por um instante.
- Você não entende... - disse com a voz mais baixa. - É humilhante depender de ajuda até pra sair da cama. Eu odeio isso. Odeio ver pena nos olhos das pessoas... até nos seus.
Meu peito se apertou.
- Eu nunca senti pena de você - respondi, firme. - Só dói ver você se punindo por algo que não escolheu.
Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo, os olhos marejados, embora tentasse disfarçar.
- Às vezes... eu só queria que tudo voltasse a ser como antes. - confessou, a voz falhando no fim.
Aquela confissão quebrou o último resquício da minha raiva. Aproximei-me devagar, toquei a mão dele e disse num sussurro:
- Eu também queria, Lucca. Mas isso é impossível... a gente precisa aprender a viver o agora. Juntos.
Ele não respondeu, apenas apertou minha mão com força - o suficiente pra me fazer entender que, mesmo calado, ele finalmente havia me ouvido.

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