Alguns dias depois
Carolina
Após o pedido de casamento acreditei que todas as minhas inseguranças haviam sido sepultadas, mas bastou uma situação em uma loja para que elas voltassem com força total.
Eu e Fábio tínhamos saído para fazer a compra dos presentes de natal, o convenci a não deixar tudo para a última hora como é seu costume.
Fiz a lista com três opções para cada pessoa, dica que peguei com Allie que é a praticidade e organização em pessoa.
Ao ver a lista, ele riu e de pronto disse:
- A Allie conseguiu te levar para o lado obscuro da força.
Rindo, o abracei e confirmei:
- Sim, ela me convenceu.
Seguimos para comprar o primeiro presente, que seria o da mãe dele. Eu sugeri que comprássemos materiais de arte e ele concordou.
Ao chegarmos à loja, andamos pelos corredores repletos de suprimentos e perdidos diante de tantas opções, solicitamos o auxílio de uma vendedora.
E aí começou o meu suplício...
A vendedora ao nos ver de mãos dadas não conseguiu esconder a expressão de reprovação e apesar de sorrir solícita para ele, quando se dignou a me responder foi com extrema frieza e me medindo de cima a baixo com desdém, já que Fábio havia se afastado para olhar um quadro.
Irritada, mas tentando não demonstrar, disse a ele que talvez fosse melhor escolhermos outra coisa que não nos deixasse com tantas dúvidas e ele concordou.
A insolente da vendedora, dirigindo-se diretamente a ele e ficando parcialmente de costas para mim, entregou um cartão da loja em que anotou o seu telefone e sorrindo afirmou que ele poderia ligar a qualquer momento.
Chocada com tamanha ousadia, fiquei sem reação, enquanto Fábio jogou o cartão no lixo ainda dentro da loja. E assim que saímos, me abraçou, mas não disse nada.
Para não estragar de vez o clima, decidi ficar quieta e não fazer absolutamente nenhum comentário sobre o ocorrido.
Não quis confirmar o estereótipo de negra raivosa, o que faria aquela petulante se sentir vitoriosa. Porém, no restante do dia só conseguia pensar no que houve e a cada loja que entramos, fiquei reparando na maneira como reagiam e nos atendiam.
Em estado de alerta e pronta para reagir... contudo, não ocorreu mais nenhum ato racista ou de grosseria.
Mas confesso que me senti mal e uma avalanche de sentimentos confusos me dominou.
Nos dias que se seguiram, tentei esquecer, mas lembranças do que vivi com Henry e também momentos em que estava com Fábio e percebi o racismo velado por trás de algumas ações, voltavam à minha mente constantemente, me deixando tensa e irritadiça.
Mesmo tentando me conter, em alguns momentos acabei sendo ríspida com Fábio e percebi em seu olhar o estranhamento e mágoa.
E ferí-lo mesmo que sem querer, me faz muito mal.
Em um momento de extrema angústia e sentindo que ia explodir, liguei para Allie e a convidei para tomar um café.
Assim que ela chegou, ao me olhar, seu sorriso se desfez. Em silêncio me abraçou e disse:
- Vai ficar tudo bem.
Sorri tristonha, mas agradecida diante da sua perspicácia e sensibilidade.
Tentei aparentar algum ânimo ao responder:
- Assim espero, Allie. Venha, preparei algumas guloseimas para nós.
- E eu trouxe um chá especial, preparado pela minha avó.
Entramos e a conduzi à cozinha para que preparasse a infusão e fui terminar de arrumar a mesa.
Ela veio para a sala sorrindo, segurando o bule fumegante e me disse :
- Nada como um bom chá para acalmar e nos equilibrar, Vovó Cellie, sempre diz isso.- nos serviu e sentou de frente para mim.
Eu segurei a minha xícara, observando o líquido como se nele estivessem todas as respostas para os meus problemas...
Eu não tinha coragem de romper o silêncio e mais uma vez Allie me ajudou:
⁃ Carolina, eu não quero ser intrometida, mas ...
A interrompi:
- Você não está entendendo o que está acontecendo?- questionei sorrindo tristemente.
Allie fez apenas um movimento afirmativo com a cabeça e continuou me olhando atentamente.
- Allie, eu entrei em pânico... tenho me sentido aflita e angustiada. Percebi que tenho que fazer uma escolha: meus pais ou o homem que eu amo.- despejei meu desespero- Eu não quero ter que escolher ... Eu não quero perder nada!!! Toda essa situação é muito injusta!!! Como eu posso enfrentar o preconceito do qual sou alvo se meus pais são contra o meu relacionamento?! Se o meu parceiro não percebe as situações constrangedoras e humilhantes, mesmo estando ao meu lado ?! Será que passar por tudo isso vale a pena?! Me sentir insegura, inferiorizada pelos olhares e comentários. Ser completamente ignorada por meus pais ?!
- Carol...
- Allie eu tenho medo!!! E se ele mudar de ideia ou agir como o Henry ?! Eu não vou suportar e não terei meus pais para me apoiar.- conclui em um desabafo aflito.
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Rise UP
RomanceUm amor que teve início na adolescência, pode ser destruído por um acidente e suas consequências? Imaturidade, traumas do passado, falta de confiança e preconceito, podem acabar com uma relação? Nessa história vamos descobrir como o autoconhecimento...
