Um amor que teve início na adolescência, pode ser destruído por um acidente e suas consequências?
Imaturidade, traumas do passado, falta de confiança e preconceito, podem acabar com uma relação?
Nessa história vamos descobrir como o autoconhecimento...
Eu não me cansava de olhar para minhas filhas... meus bens mais preciosos. Rafaella, a mais velha por dois minutos, era calma, serena, parecia ter vindo ao mundo já em paz. Cecília, não. Cecília era tempestade e abrigo ao mesmo tempo. Desde o primeiro choro, algo em mim soube: ela era minha. A mancha em forma de gota em sua mão esquerda idêntica à que Allie tinha no braço sempre me chamou atenção. Eu a beijava em silêncio, como se aquele pequeno sinal fosse um pacto entre nós dois. Um elo invisível que ninguém mais via, mas que eu sentia todos os dias.
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Eu as amava com a mesma intensidade. Mas Cecília... ela me exigia de um jeito diferente. Só se acalmava quando eu a pegava no colo. Seu choro cessava no instante em que meu peito a acolhia, como se reconhecesse meu coração antes mesmo de compreender o mundo. Às vezes, bastava minha voz. Outras, meu cheiro. Sempre eu.
Enquanto Rafaella atravessou os primeiros meses sem cólicas e logo passou a dormir a noite inteira, Cecília nos ensinou o verdadeiro significado de exaustão e entrega. Foram madrugadas intermináveis, com ela deitada sobre mim, respirando compassada, e eu imóvel, suportando a dor nos músculos, o peso do cansaço... e o medo absurdo de me mexer e perdê-la daquele sono frágil. Mas eu nunca reclamei. Porque, de algum modo, era ali com ela aninhada ao meu peito que eu me sentia mais necessário, mais homem, mais pai.
Flashback On
Cecília dormia sobre o meu peito, pequena e quente, com a respiração leve roçando minha pele. Um dos bracinhos estava estendido, a mãozinha pousada exatamente sobre o meu coração - como se soubesse onde precisava ficar. Eu mal respirava, não por medo de acordá-la, mas porque aquele instante parecia sagrado demais para ser quebrado. Passei os dedos, com cuidado, pelos fios macios de seu cabelo. Cecília se mexeu de leve, resmungou algo inaudível e voltou a se aninhar, mais perto. O peso dela não me cansava. Ao contrário. Me ancorava. Foi então que senti. Antes mesmo de ouvir qualquer movimento, eu soube que Allie estava ali. Não precisei virar o rosto para confirmar. Conhecia o silêncio dela. A forma como parava à distância, respeitando aquele momento como se estivesse diante de algo que não lhe pertencia totalmente - mesmo sendo tudo nosso. Cecília suspirou, e eu baixei o rosto, encostando meus lábios em sua testa. - Tá tudo bem, meu amor... papai tá aqui - murmurei. Ela respondeu apertando minha camisa entre os dedos, num gesto quase instintivo. Como se dissesse fica. E eu ficaria. Quantas vezes fossem necessárias. Levantei os olhos devagar. Allie estava encostada no batente da porta, braços cruzados junto ao corpo, observando em silêncio. Havia um sorriso suave em seus lábios e algo úmido em seus olhos. Orgulho. Amor. E aquela ternura contida que só quem ama profundamente conhece. Nossos olhares se encontraram. Ela fez um pequeno gesto com a cabeça, como quem pergunta se estava tudo bem. Respondi apenas com um olhar firme e calmo: estava melhor do que tudo. Allie levou a mão ao peito, emocionada, e respirou fundo, como se precisasse se recompor. Eu a conhecia demais para não perceber. Aquela cena a tocava mais do que ela deixava transparecer. Inclinei levemente o corpo para ajeitar Cecília. Ela não acordou. Apenas se acomodou melhor, confiando completamente em mim. Esse tipo de confiança muda um homem. - Ela só dorme assim... - falei baixo, sem desviar os olhos de Allie. - Eu sei - ela respondeu no mesmo tom. Allie sorriu, dessa vez sem tentar conter a emoção. Deu um passo à frente, mas parou, respeitando o espaço. Sempre delicada. Sempre inteira. Aproximei os lábios do topo da cabeça de Cecília mais uma vez e fechei os olhos por um segundo, gravando aquele instante dentro de mim. Quando os abri, Allie ainda estava ali. E sempre estaria. Porque aquele silêncio não era distância. Era amor.