Fábio
DIAS DEPOIS
Após a alta, voltamos para casa, apesar da insistência dos meus pais para que ficássemos com eles.
Carol ainda estava abatida, mesmo com o repouso e todo o cuidado que vinha recebendo de todos nós. E se recusava a tocar no assunto do encontro com os pais.
Eu a cercava de atenção e carinho, mas a sentia distante - e, por vezes, irritada.
Dias depois, a volta ao trabalho atenuou um pouco a tensão que pairava entre nós, mas não o suficiente.
Eu queria que ela dividisse comigo sua dor e seus medos como eu queria dividir o que sinto com ela.
Mas, em muitos momentos, parecia querer me afastar... ou me culpar pelo que aconteceu.
Não sabia mais o que fazer.
Sentia que, a qualquer momento, poderia sucumbir à tristeza e à angústia que tentava manter sob controle.
Mesmo sabendo que o bebê estava bem, o medo não me deixava em paz, não só por ele, mas por Carol também.
Decidi pedir socorro à Allie.
Sempre fomos amigos e até confidentes, além do que ela havia se tornado uma verdadeira irmã para Carol.
Se não soubesse o que fazer, pelo menos eu poderia desabafar.
Peguei o telefone e liguei:
- Oi, Allie.
- Oi, meu cunhado preferido! - respondeu com aquele tom leve que eu tanto precisava ouvir.
- Nós podemos conversar? - tentei soar despreocupado, mas minha voz falhou.
- Quando e onde? - perguntou, direta, como se lesse meus pensamentos.
- Hoje, na hora que você puder... eu... - não consegui terminar. O nó na garganta não permitiu.
- Então me encontre em vinte minutos em casa. Quer dizer, na minha e do seu irmão - corrigiu com um tom divertido - Estou saindo da escola agora mesmo.
- Ok. Até daqui a pouco.
Agradeci mentalmente aos céus por ter uma cunhada que, na verdade, era uma irmã.
Alguém em quem eu podia confiar cegamente.
Exatamente vinte minutos depois, toquei a campainha.
Ela abriu a porta e, sem dizer nada, me puxou para um abraço apertado, que fez meu peito apertar.
Entramos e nos sentamos na sala.
Eu tentei começar a falar, mas as palavras se perderam.
Então, simplesmente chorei.
Um pranto intenso, libertador, como se, depois de tanto tempo, eu finalmente pudesse respirar.
Ela se sentou ao meu lado, e eu simplesmente deitei a cabeça em seu colo.
Enquanto chorava, sentidamente, Allie acariciava meus cabelos em silêncio.
Não sei por quanto tempo fiquei assim, mas quando o pranto começou a cessar e o alívio veio, levantei a cabeça, envergonhado.
- Eu molhei toda a sua saia... pareço um bebê chorão.
- Não tem problema - disse sorrindo. - Nada que um par de Jimmy Choo não resolva.
Rimos.
- Só você pra me fazer rir...
- Ah, e você não é um bebê chorão - respondeu com doçura -, é um homem que passou por um momento aterrorizante e doloroso.
Suspirei fundo.
- Allie, eu não sei o que fazer... Ela está se afastando de mim. Não toca no assunto, não compartilha o que está sentindo... Sinto como se me culpasse pela atitude dos pais.
- Fábio - disse com calma -, talvez ela esteja perdida. Tentando ser forte, porque sente que, se desabar, vai se afogar nesse mar de medo e desespero.
Fez uma breve pausa antes de continuar:
- Ela só precisa que você esteja presente, segure a mão dela e mostre que não está sozinha.
- Mas eu tento...
- Tente, sim, mas sem pressão. Sem querer forçar o silêncio a se quebrar. Dê o tempo que ela precisa... Cada pessoa processa a dor de um jeito.
- Ela te disse alguma coisa? Se abriu com você? - perguntei, esperançoso.
- Saímos pra tomar um café há alguns dias... - contou, com o olhar terno. - Ela só disse que precisa de um tempo pra lidar com tudo o que aconteceu. E que gostaria de poder te ajudar, mas não se sente capaz agora.
Fez uma pausa e acrescentou:
- E tenha certeza, Fábio... ela não te culpa de nada. É o contrário: se sente culpada. Acha que você a responsabiliza por quase terem perdido o bebê.
- Meu Deus... Eu jamais faria isso!!!- falei incisivo- Eu a amo, Allie!!! Vê-la sofrer é um martírio...
- Então esteja com ela e mostre que não a culpa por nada - disse, apertando minhas mãos. - Essa tempestade vai passar. Vocês não estão sozinhos. Não se afastem de nós.
- Eu não sei como te agradecer... - falei, emocionado.
- Ah, mas eu já disse! - respondeu com um sorriso maroto. - Jimmy Choo.
Puxou-me pela mão em direção à cozinha, rindo.
Parei e a abracei forte.
- Allie, eu te amo. E o meu irmão tem muita sorte por ter você.
- Eu também te amo, meu cunhado preferido!!! - respondeu divertida. - E, convenhamos, o seu irmão realmente tem sorte. Eu sou demais! Às vezes até me canso de ser tão legal.
- E modesta também...
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Rise UP
Roman d'amourUm amor que teve início na adolescência, pode ser destruído por um acidente e suas consequências? Imaturidade, traumas do passado, falta de confiança e preconceito, podem acabar com uma relação? Nessa história vamos descobrir como o autoconhecimento...
