Capítulo IX: A guia vem me visitar no dia de fazer compras

129 10 1
                                        

Acordei com alguém me cutucando.

Poxa vida! Agora que estou livre, não posso ter umas horinhas de sono a mais?, perguntei mentalmente.

- Acorda, To. - chamou-me George.
- Por que? - perguntei, sentando.
- Por que temos assuntos a resolver. - disse Esther, jogando algo no meu colo.

Avaliei o que tinha e percebi que se tratava de um kit de higiene.
- Vou adicionar isso a minha lista de "Coisas que não gosto de fazer". - retruquei, indo em direção ao banheiro.

Precisei lavar o rosto três vezes para estar realmente desperta. Tomamos o café-da-manhã em silêncio mortal. Concentrei-me nos sons que meus ouvidos eram capazes de captar e surpreendi-me com a diversidade. Escutava carros nas vias, pessoas conversando nos mais variados tons de vozes, umas brandavam enquanto outras falavam tão baixo que suas palavras saiam como múrmuros lançados ao vento. Era uma metrópole bem barulhenta para uma manhã. Percebi que era acostumada com silêncio. Na A-51, os únicos sons presentes eram de máquinas trabalhando, desde as que faziam os meus exames as que refrigerava todo o prédio. Contudo, eram pequenos sons e se não se concentrasse, mal escutaria.

Peter se arrumou no banco e disse:
- As caras de vocês estão espalhadas por toda cidade, ou seja, não podem sair sem ser vistos. - comentou ele.
- Isso é ruim. - afirmei, largando o copo de café.
- Então, pensamos em uma solução, só que é bem radical. - disse Esther, olhando-nos.
- Fugimos de um dos lugares mais seguros dos Estados Unidos. Duvido que seja algo mais radical que isso. - confessou Gê.
- Olhando por esse lado, não é mesmo. - disse ela.
- E o que seria? - perguntei.
- Uma mudança de visual. Conheço uma amiga que está fazendo curso de cabeleira e que pode ajudar. Já as roupas. Vamos em um adelo de um amigo. - respondeu Esther.
- Quantos amigos! - exclamei.
- Não dá para viver nas ruas sem ter ajuda e a amizade ajuda bastante. Agora, vamos pois não temos tempo a perder.- disse Esther nos puxando.

Caminhando por becos e vielas da cidade, conseguimos chegar até o nosso destino.Não foi difícil convencer a Loly a nos ajudar. Ela estava animada em exercer sua profissão. Ela acabou nos separando, colocando Gê em uma sala distinta a minha. Como minha transformação demorou mais, Peter saiu com o George que pudessem ir adiantando as compras. Passei boas horas na companhia de Loly, Esther e Courtney. No final, fui colocada com os olhos vendados na frente de um espelho. Loly tirou a venda e disse:
- Então, o que acha? - perguntou ela, animada.

Assustei com o reflexo que via no espelho. Era impressionante e não parecia nada comigo. Minhas madeixas que eram completamente escuras, agora ganhará uma nova cor: vermelho escuro. Estava mais curto e em camadas, dando um certo destaque ao meu rosto claro e oval. Toquei leve algumas mexas, confirmando que aquele era realmente meu reflexo e que agora eu era daquele jeito.

-Está incrível! - afirmei e a abracei. - Muito obrigada.
- Se gostou, valeu a pena. De nada, Tory. - confessou ela, feliz.
- Realmente, parece outra pessoa . - comentou Esther, sorrindo.
- Está demais, Tory. - confirmou Courtney.
- Obrigada, meninas. - agradeci.
- Vem, Tory. Parte dois. - anunciou Esther me puxando.

Voltamos a correr. Não por que tínhamos pressa e sim por que Esther estava imperativa e adorando tudo aquilo. Logo chegamos no nosso destino. Fomos recepcionadas pelo Josh, o meu amigo de Esther. Ele sorriu e disse que ficaria feliz em poder nos ajudar. Assim nós quatro passamos a revistar a pequena loja. Eu estava olhando algumas jaquetas quando reparei em uma senhora me olhando tranquilamente. Ela tinha cerca de oitenta anos, cabelos grisalhos e sorriso bondoso. Seu vestido era arcaico e de pesados tecidos. Como se fosse uma deixa para que me aproximasse, ela assentiu. Olhei para os meus amigos e percebi que nenhum deles parecia notar sua presença. Então, com passos calmos e muito desconfiada, aproximei-me dela. Assim que cheguei perto, acabei falando:
- Seu rosto... é familiar para mim. - murmurei.

Os Doze Dons Do SolHistórias para pegar e não largar. Descubra agora