Capítulo XXX: Conheço meu inimigo...

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Para ser sincera, eu não estava contente com aquilo. Estávamos indo em um pequeno grupo de sete pessoas: Peter, Gê, Arys, Violet, Sam, Anelise e eu. Eu sei o que está pensando: por que a Violet, Sam e Anelise estão indo? Teoricamente, eu só precisaria do mais inteligente e do lutador para me acompanhar com Arys, mas a Violet era minha reserva. Assim como eu, ela estava desenvolvendo o dom dos túneis e como eu era a mais experiente a ajudava. Naquele momento, se eu me encontrasse impossibilitada de trazer um túnel para nós, Violet poderia fazer isso por mim. Mesmo não se saindo muito bem, ela estava pegando o jeito certo e logo estaria tão boa quanto eu. Agora, Sam e Anelise: esses dois deram trabalho e não desistiram por nada, nem com Arys perdem a cabeça e brigando com eles. Eu também tentei negociar, mas nada foi suficiente. Não importava, se eu fosse, Pulga 1 e Pulga 2 iriam. Temendo o pior, deixamos os dois virem. Aquilo não me deixava nada feliz. Não sabíamos o que aconteceria em Las Vegas ou que nos esperava.

Pela manhã, arrumamos mochilas com alguns lanches, água, kit de primeiros socorros, lanternas e outras coisas que usaríamos . Nosso objetivo era voltar no fim da tarde. Esther ficaria responsável pelo demais e me prometeu ficar longe da minha cozinha. Deixamos dinheiro para que pudesse ir em São Paulo e comprar algumas pizzas para o almoço.

Gê havia calculado nossa viagem e de acordo com ele, demoraríamos nove horas para ir e voltar. Saímos com o sol nascendo. Caminhavamos rápido e muito apreensivos. Aproximei de Gê, querendo tirar as dúvidas da minha cabeça.
- Gê, se por acaso os doutores ainda tiver procurando por nós, o que provavelmente fariam? - perguntei.
- Relaxa, To. Eles não estão. - disse ele, colocando seu braço por cima do meu ombro e abraçando-me. Era impressão minha ou ele estava tentando me acalmar?
- Mas e se tiverem? - perguntei novamente.
- Então, teremos que ser bem espertos. Foi como eu te disse: mudamos muito. Vai ser muito complicado para eles nos reconhecer. - argumentou ele.
- Mesmo assim, não estou com um pressentimento bom...- retruquei.
- Isso é porque você está com medo. Eu também estou assim. Não temos boas recordações de Las Vegas e isso nos influencia. Até mesmo por que estamos indo para perto da Área-51. - comentou Gê.
- Então, por que você parece tão tranquilo? - interroguei.
- Porque, apesar de tudo, há não motivo para entrar em pânico. No final, vai dar tudo certo. - respondeu ele, confiante.

Assenti, sem nada a dizer. Eu sabia que ele tinha razão, mas não conseguia seguir seu exemplo, ainda mais com as crianças no grupo. Eu tinha medo que o pior acontece e com o passar do tempo, tinha me apegado a aqueles dois. Jamais me perdoaria se algo acontecessem com eles. Sam e Ane passavam o dia todo na minha cola. Era difícil não se apegar assim. Tanto Sam quanto Anelise haviam perdido a mãe cedo e por ser tão protetora, Gê havia me dito que eles me viam como uma pessoa próxima a figura materna. Não que eu ligasse deles pensar assim, mas acabava me sentindo mais velha por carregar tal responsabilidade. Por isso, preferia pensar que era apenas a irmã mais velha dos dois. É claro que também me preocupava com os demais do grupo. Todos eram parte da minha família e sabia que teria um ataque se eles se machucassem.

Saímos do túnel, beirando Las Vegas. Com a descrição do Arys, seguíamos rumo ao tal orfanato que viveu. Andamos disfarçadamente, tentando não chamar a atenção. Arys nos aconselhou a sairmos da região dos cassinos e pegamos uma rua que parecia deserta, seguindo por um bairro mais calmo. Parecia de classe média. No final da rua, estava o orfanato. Era um prédio antigo, mas em condições habitaveis.

- Como faremos para falar com eles? - perguntei ao Arys.
- Eu vou entrar lá dentro e chamar eles. - respondeu ele.
- Certo. - concordei.

Enquanto Arys entrava, nós paramos debaixo de uma árvore e aproveitamos para beber água e descansar um pouco. Tinha sido uma longa caminhada sem direito a descanso. Eu não estava cansada, mas sentia que o restante do grupo estavam. Descansar nem que fosse alguns minutos, faria bem.
- Está um pouco frio aqui, não acham? - perguntei, sentindo a temperatura baixa.
- Acho que já estamos acostumados com as temperaturas calorosas do Brasil. - confirmou Peter, rindo.
- Eu concordo. Nem trouxe um casaco de precaução.- exclamei.
- Só de lembrar que lá em casa deve está uns 30°, me dá até saudades. - comentou Gê.
- Nessa temperatura, seria bom um sorvete. - falou Sam.
- Ou um mergulho no mar. - propôs Ane.
- Muito bom. - confirmou Violet, sorrindo.
- Gente! - chamou Arys.

Olhamos na direção e ele se aproximava com mais dois garotos um pouco maiores que ele. Observei-os, analisando.
- Você disse que nos pagaria, Arys. Por que nos trouxe aqui? - perguntou um deles.
- Tory, pague os meninos. - pediu Arys.
- Quanto ele deve a vocês? - peguntei.
- Oitenta dólares. - respondeu o garoto. - Vocês me parecem familiares...
- Engano seu. Nunca nos encontramos antes. -retrucou Gê, enquanto eu pegava as notas.

Dei as notas a eles e afastei-me. Eu não sei por que, mas aqueles dois não me pareciam boas pessoas.
- Obrigada, moça. - agradeceu um deles.
- Afinal, o que vocês são do órfão? - perguntou o outro garoto.
- Somos responsáveis por ele...- respondi.
- Eles são a minha família. - corrigiu-me Arys. - Não acho que saiba o que é isso. Vamos embora, pessoal. Já terminamos o que tínhamos que fazer.

Os garotos nos olharam com um certo ódio. Como uma atitude esperta , começamos a nos afastar.
- Foi rápido. E agora, o que vamos fazer? - perguntou Anelise.
- Vamos voltar para casa. - confirmou Gê.

Antes de virarmos a esquina, pude ver um dos garotos com uma folha nas mãos. Eu conhecia aquele papel;era o mesmo que Peter me entregou poucas horas que nos conhecemos.Era um anúncio de procurados.

- To? Tory! - chamou-me Gê, elevando o tom.
- Gê, eles tem um anúncio nosso. Não sei por que, mas acho que vão ligar. - murmurei, sentindo um frio na coluna.
- O quê?! - e então, olhou na direção.

Na mesma hora, os dois assentiram e correram na direção do orfanato.
- Ah, não. Mal sinal, galera. - comentou Peter.
- Vamos sair daqui. - falei. - Sam, suba nas costas do Peter. Anelise nas minhas.

E assim os dois subiram. Arys seguram firme na mão do Gê e da Violet. Começamos a correr até sairmos ao lado de um cassino. Alo, tínhamos que agir normalmente ou chamaríamos mais a atenção. Eu não sabia o que pensar. Só tinha uma coisa em mente: tínhamos que sair dali o mais rápido possível.

- Precisamos de um lugar com terra. - pedi, olhando para Arys.
- Não sei, Tory. - respondeu ele.
- Eu vi um lugar que podemos usar, mas acho que está um pouco longe. Tory, lembra daquela lanchonete que falei que os ovos estavam com um cheiro incrível? - interrogou Peter.
- Lembro. Ela estava umas cinco quadras daquela torre. - falei, apontando.
- Ao lado tem um chão de terra pura. - confirmou ele.
- Então, vamos para lá. - exclamei.

Eu estava com os nervos tensos e apesar de estar andando um pouco rápido, eu sentia que estávamos indo em câmera lenta. Cada minuto contava. Seguíamos firmes, tendo a nossa referência, a torre. Meu coração começou a bater mais aliviado quando por fim, faltava duas quadras para a lanchonete.

No então, de repente tudo começou a dar errado. Três viaturas apareceram, bloqueando a rua. Fizemos uma parada brusca, surpresos com seu aparecimento. Olhei para trás e tinha mais quatro carros.

- Eles...nos encurralaram... - anunciei, sem reação.
- E agora, Tory? - perguntou Violet.
- Eu não sei. Gê, tem alguma ideia? - interroguei.
- Eu...eu..não...- eu via como ele estava perdido. Tão assustado quanto eu.

Voltei minha atenção para os carros e vi os policiais saírem e apontaram suas armas em nossa direção.

- Não tentem nada. Estamos correndo perigo agora. - anunciei.

Então, um homem de terno saiu de um carro fortemente armado. Ele era loiro, olhos negros como carvão e tinha uma expressão tão má que me deu medo. Ele passou pelos policiais que mal se mexeram, aproximando-se de nós. Ele parou diante a mim e disse:
- Enfim nos encontramos, Projeto Touro. - comentou ele. Soube na hora que ele trabalhava na A-51. Ele caminhou até Gê e o avaliou. - Projeto Gêmeos...

Mais homens se aproximaram e eu os reconheci: eram guardas e soldados da A-51, que trabalhavam para os doutores. Eles nos cercaram.

- Prendam todos. Esses outros devem ser os demais signos e vamos precisar deles. - disse o homem de terno, afastando-se.

Antes de nos prenderem, o homem de terno nos olhou por cima de seu ombro e sorriu, cheio de sarcasmo.
- Espero que estejam com saudades da antiga cela de vocês, pois é para lá que voltarão. - falou ele, entrando no carro.

Eu o odiei. Odiei com todas as minhas forças. Tinha vontade de estrangulá-lo. Sentia o mais puro ódio. Não importa quem ele fosse, eu não ligava. Eu faria ele pagar.

Os Doze Dons Do SolHistórias para pegar e não largar. Descubra agora