Capítulo XXXV: Uma viagem em família.

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Observei Lilith arrastar suas malas a pressa, sem entender o que acontecia. Apesar dela ser a minha mãe, eu não conseguia ver ela em tal papel. Era estranho pensar que eu tinha uma mãe. Era difícil sentir falta de algo que nunca tivemos. De certo modo, eu agradeci mentalmente, ao doutor. Ele parecia jovem, talentoso e de bom coração. No entanto, desde cedo guardava um grande segredo e fazia o que estava ao seu alcance para me cuidar de mim. Ainda era cedo dizer que confiava nele, mas sentia que isso futuramente isso poderia mudar.

O Dr. John também segurava sua mala.
- Acho que peguei tudo que não pode ficar para trás. – falou ele, verificando os bolsos.
- Então, podemos partir. – confirmei, indo na direção da porta.
- Ainda não sei por que estamos saindo assim. – murmurou Lilith, puxando a mala para a saída do pequeno apartamento.
- Mas, Lilith, não era você que vivia dizendo que queria uma vida nova? Que estava cansada desta cidade? Estamos tendo a chance de mudar tudo. Não do jeito que queríamos, mas estamos. – brincou o doutor, mas senti mágoa em sua voz. De certa maneira, vi que era difícil para ele partir.

- Mudar não é tão ruim. Passei longos dias sem ter uma casa fixa, um lugar para me estabelecer e criar raízes. Vocês vão perceber que não é tão difícil; que apesar de largar tudo que conhecem, saindo da zona de conforto, o mundo é lindo demais para não ser explorado. – orientei.

O doutor apenas me olhou e assentiu, recebendo minhas palavras e tentando se conformar. Ele pegou a chave do apartamento e sinalizou para que saíssemos. Lilith e eu esperamos no corredor, enquanto ele trancava tudo. Olhei em volta. Quanto tempo levaria para a A-51 notar que eu não estava mais em minha cela?

- Doutor, temos quantas horas até eles começarem a nos caçar? – perguntei, voltando minha atenção para ele.
- Eu consegui manipular as câmeras que tinha em sua cela. Elas teriam que mostrar uma imagem em tempo real, mas troquei pela filmagem da noite passada. Assim nenhuma câmera pode provar que eu te ajudei a sair. Nenhuma delas filmaram isso. Eles só irão perceber quando forem levar seu café-da-manhã e não virem ninguém. – exclamou o doutor, pegando sua mala. – E até lá, espero está bem longe daqui.

Concordei. Também queria estar longe. Descemos em silêncio até o térreo, seguindo na direção do carro. Parecíamos criminosos fugindo em plena madrugada. Lilith e o dr. John se caminharam ao porta-malas, enquanto eu seguia na direção do banco da frente do carro, ao lado motorista. Seria melhor fazer o túnel se estivesse na frente. Doutor tomou um pequeno susto ao me ver ali e Lilith teve que se contentar em ficar no banco de trás, mas isso não a deixou muito feliz.

Doutor ligou o motor e segurou firme no volante.
- Vamos para uma rodoviária ou um aeroporto? – perguntou ele.
- Só precisamos de uma estrada de terra. – respondi, colocando o cinto de segurança.
- Para quê? – questionou novamente.
- É mais fácil vocês verem do que eu explicar como ocorre. – exclamei.
- Tem uma estrada de terra na saída leste da cidade. – murmurou Lilith.

Ninguém disse mais nada. Nervosos? Cansados? Preocupados? Sim, talvez estivéssemos assim, mas a tensão que no carro também não nos permitia ter calorosas conversas. Doutor parou no início da rua e me olhou. Estava na minha hora. Eu sabia que o que estava preste a fazer, faria com que os dois me enchesse de perguntas, mas só de pensar que chegaria mais rápido em casa, meu coração ganhou força para suportar tudo e todos. Fechei os olhos e imaginei um túnel largo suficiente para passar o carro.

- Siga em frente e não pare. – pedi.
- Mas...- começou a argumentar.
- No meio da noite, o senhor invadiu a minha cela e me pediu para confiar em você; que não tínhamos muito tempo. Agora, eu te peço o mesmo. Preciso que confie em mim. – contra-ataquei.

Ele olhou para estrada por um momento e começou a colocar o carro em movimento. O carro começou a ir devagar e logo estávamos dentro do túnel.
- O-onde estamos? – perguntou Lilith, demonstrando seu espanto.
- É um túnel subterrâneo. Por ser um signo da terra, tenho o dom de fazer vários desses e com esse túnel viajaremos mais rápido. O tempo e a distância passa diferente aqui em baixo.- expliquei.
- E estamos indo para o lugar certo? – questionou o doutor.
- Esse túnel é sustentado por mim. Se algo der errado comigo e eu ficar inconsciente ou algo do tipo, o túnel se encerra a poucos metros à frente. E sim, estamos indo diretamente para o Brasil. O túnel segue a imagem ou palavra que tenho em minha mente. – afirmei.
- E isso funciona para outros continentes? Você consegue ir desta maneira até outro continente, mesmo tendo um oceano no meio?
- Sim. Foi assim que resgatamos os outros signos. Cada um estava em um lugar diferente.
- E em quantos são? Quero dizer, há quantas pessoas como você? Se não quiser dizer, tudo bem. Vou entender.
- Somos em doze. Uma criança para cada signo, constelação, planeta. Realmente, ainda não confio inteiramente em você, mas se eu achar melhor posso deixar os dois presos aqui em baixo.

Doutor me olhou espantado. Era claro o medo em seus olhos. Apenas ri.
- Calma. Não sou tão má assim. Meu lar em si já nos defenderia e se isso não funciona, será dois contra doze. – confessei.
- Também não somos maus, mas deve ser difícil você confiar em qualquer um da A-51. – retrucou o doutor.
- Não é só a A-51, mas para nós é difícil confiar em qualquer um que venha de fora; qualquer um que não é como nós. Tivemos sim, muita sorte por só esbarrar com poucas pessoas boas pelo mundo, mas também sabemos que há pessoas ruins; pessoas que poderiam nos fazer mal se soubessem o quanto somos especiais. – confessei, olhando a barra do meu casaco.
- Então, cada uma das pessoas que vivem com você, são signos? – perguntou o doutor.
- Sim, todas. E foi por isso que escolhi ficar na A-51, para dar tempo de elas fugirem. Sabia que se as demais pessoas daquele setor colocassem a mão neles, principalmente nas crianças, elas contariam sobre nosso lar e em pouco tempo, estaria os dozes em celas. Eu jamais suportaria ver tal cena. – contei.
- Foi corajoso da sua parte. – elogiou-me o doutor.
- Espera um momento! Em que língua vocês estão falando? Por que eu sinceramente não estou entendendo nada. – comentou Lilith, perdida.

Doutor sorriu e com calma, passou a explicar sobre nós: as crianças zodicais. Ele contou que aquelas informações eram extremamente sigilosas do governo americano. É claro que em algumas partes tive que o corrigir ou acrescentar pequenas informações. O restante das horas se passaram rápido com Lilith fazendo uma pergunta diferente a cada minuto. Tinha algumas que até me tiravam do sério por segundos. Ela era pior que quando o Sam e a Ane se ajuntavam para ficar no meu pé o dia todo.

- E seus pais? Onde estão? – perguntou-me ela.
- Nunca tive contato. Desde que me lembre, sempre estive no setor H, da Área -51. Os doutores me disseram que fui um bebê de proveta. Na verdade, nunca procurei sobre. Nunca me interessou. Como havia perdido vários anos da minha vida, sempre procurei por saber mais do mundo do que de mim mesma e com a chegada dos signos mais novos, alguém tinha que cuidar deles. Não acho que um pai ou uma mãe vá me ajudar com meus atuais problemas. – respondi, olhando para o túnel em nossa frente.

Eu sabia que aquilo poderia magoar o doutor, mas era a verdade. Nenhum dos signos se deram bem com seus progenitores. Talvez, assim fosse mais fácil de larga a mão da atual vida e seguir com o grupo.

- Então, enrolamos bastante e acabei não contando o porquê de termos abandonado tudo... – comentou o doutor, tentando mudar o clima do carro.

Ele continuava a contar, enquanto dirigia tranquilamente. Com o passar do tempo, reparei que estava ficando mais cansada e a noite mal dormida não me ajudava a ficar bem. Para a minha sorte, com a ajuda do carro, não íamos tão devagar quanto caminhar. Demoramos cerca de quatro horas para chegar em São Paulo. Doutor deixou sua irmã em um hotel e disse que assim que voltasse, arrumaria tudo para ele. Então, quando voltamos para a estrada estava apenas nós dois. Ele sorria amistosamente como se tivesse tirado um grande peso das costas. Eu também não o julgava. Estar na A-51 sugava cada um. Orientei o doutor da localização da costa paulista para irmos e depois de mais duas horas, chegamos. O restante do caminho foi feito a pé, dentro da vegetação que cercava portal.

- Esse portal é o único jeito de entrar na minha casa. Você só pode passar se tiver acompanhado por um dos signos. Quando atravessarmos, fique perto de mim. – pedi. – Ah, já estava esquecendo. Você não tem medo de cobras, não é?
- Não muito. Por que? – perguntou ele.
- Só...não grite. – falei, segurando o riso.

Ele concordou e nos preparamos para entrar na Ilha das cobras.

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