Em poucos dias, eu havia conseguido mudar a biblioteca quase por completo. Havia pilhas de livros sobre a mesa, maioria estavam abertos ou marcados com adesivos coloridos. Também tinha várias folhas amassadas jogadas perto do lixo, mostrando minhas anotações frustadas com uma letra desleixada. Outras folhas estavam entre os livros, sobre a mesa, presas no meu painel ou até mesmo caídas no chão. No sofá marrom com ar retrô que ficava perto da mesa, estava meu casaco preto de capuz jogado de qualquer jeito, junto com meu ALL star vermelho, prontos para uma viagem repentina. Isso estava acontecendo com uma boa frequência. Às vezes, durante minha pesquisa, eu tinha que sair e fazer uma pesquisa de campo, indo para as cidades e comprovando alguns fatos. É isso acontecia corriqueiramente e eu não me importava com o horário. Na poltrona, entreaberto, estava o notebook do Gê com acesso ilimitado a arquivos da A-51. Aquele vírus foi um quebra-galho.
Sentada de qualquer jeito no chão, voltei a ler quando minha mente resolver me desviar do meu objetivo. Voltamos a horas atrás. Era tarde da noite, depois do jantar, quando Peter veio me fazer uma visita. Enquanto ele estava sentado sobre a mesa, em um espaço que ele mesmo desocupara, eu estava na poltrona, lendo alguns artigos científicos no computador.
- Como você está depois de tudo isso? - perguntou ele, quebrando o silêncio entre nós.
- Eu já esperava por algo parecido. Sabe, essa guerra... Já sabíamos que tínhamos algo grande pela frente. - respondi, ainda com os olhos vidrados na tela iluminada.
- Não me refiro a missão nos dada. Estou falando do que aconteceu antes. Você está realmente bem com isso ou está apenas enganando a todos, inclusive a si mesma? - perguntou ele, sério.
O que tinha acontecido antes... O que eu tinha escolhido esquecer temporariamente. Vaguei meus olhos sobre o teclado do computador.
- Eu...eu realmente não sei. Não sei se superei ou se algum dia vou conseguir superar. Não estou feliz com o que fiz, mesmo que seja acidentalmente. Não estou em paz comigo. Sabe porquê? Porque queria sentir remorso, senti-me mal pelo rumo dessa história, mas não consigo. Não consigo chorar toda vez que vou dormir ou debaixo do chuveiro. Gostaria de gritar para ver se tudo melhora. Todavia também não consigo fazer isso. Parece que não tenho esse direito; de me aliviar, de liberar isso. Eu realmente não sei o que fazer. Estou agindo da melhor maneira que consigo. Estou seguindo em frente. - respondi, desta vez olhando para ele.
Peter ficou em silêncio por alguns segundos, provavelmente esperando que eu surtasse e começasse a me debulhar em lágrimas. Porém, apenas voltei a ler. Depois de alguns minutos, senti duas mãos sobre meus joelhos e voltei minha atenção para frente, deparando com Peter que me encarava. Assim que nossos olhares se cruzaram, ele sorriu e se aproximou, fazendo um calafrio subir pela minha coluna e meu coração errar algumas batidas. Com movimentos lentos, ele depositou um beijo em minha testa e permaneceu daquele jeito por um ou dois segundos. Senti sua respiração desregulada mexer alguns fios do meu cabelo. Porém, mentalmente, agradeci pelo carinho. Ele se afastou e manteve contato visual.
- Eu quero fique bem. Precisa ficar bem para que eu consiga ficar também. Todos nós precisamos. Você é nosso pilar. Se cair, caímos juntos. Os momentos que ficou fora, foi os piores que enfrentamos. Estou te pedindo com o meu coração que caso se sinta mal, não hesite em falar conosco em momento algum. Estamos aqui para dar todo apoio que precisa. Então, confie em nós. - argumentou ele.
Olhei para ele e assenti.
- Não se preocupem tanto. Eu estou bem agora. Obrigada. - confirmei e ele assentiu.
Por alguns minutos, continuamos do jeito que estávamos como se fôssemos estátuas até que o clima começou a ficar estranho. Mordi meu lábio inferior e bati o dedo na beira do computador.
- Vou voltar a ler aqui. - anunciei. - Está ficando tarde. Vá descansar.
Peter pareceu surpreso, porém sorriu.
- Está me expulsando?- perguntou ele, em um tom de brincadeira.
- Gentilmente, estou. - afirmei, dando um sorriso e voltando a ler.
- Você também deveria ir descansar. Está passando o dia todo nessa biblioteca. Daqui a pouco vai virar parte da mobília ou um exemplar de livro. - confessou ele, direcionando-se para a porta.
- Eu já vou. Só quero acabar esse artigo primeiro.- confessei.
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Os Doze Dons Do Sol
AdventureDoze crianças nasceram especiais. As crianças zodiacas. Uma para cada signo, planeta e constelação. Duas delas estão sobre a supervisão e cuidados do Governo. A A-51 era seu lar, mais precisamente o Setor H. Após um blecaute em todo prédio, Tory(Tou...
