A noite foi mal dormida. Eu não esperava por isso. Nunca tinha acontecido antes. Quando eu estava na A-51 fazia tantos exercícios, que no final do dia, tudo o que mais queria era uma bela e completa noite de sono. Meu cansaço físico garantia minhas noites sem insônia. Mas eu tinha que voltar a realidade. Forcei-me a abrir os olhos. Eu tive uma grande sorte por ter acordado naquele momento, pois eu estava centímetros de cair do colchão. Não que eu fosse me machucar muito (na verdade, não ia arranhar nem a ponta do nariz), mas não estava ansiosa para encostar meu rosto naquele chão gelado e duro.
Apoiei minha mão no chão e levantei. Calcei meus coturnos e fui ao banheiro, agradecendo pelo momento sozinha que teria. Não que eu odiasse a companhia dos outros, mas também estava acostumada a estar sozinha boa parte do meu dia. Eu via Gê apenas pela manhã e a noite. Também não podia dizer que os doutores eram uma boa companhia, pois mal falavam comigo.
Lavei meu rosto e olhei para o espelho manchado.
- Chega de reclamar, Tory. Você não está mais no Setor H. Está livre e no mundo. Precisa se adaptar a sua nova vida. - disse a mim mesma.
Sai do banheiro e me dirigi a saída em completo silêncio. Desci as escadas calmante, indo na direção de um banco perto do prédio.
-Kayra, eu preciso de ajuda mais uma vez. - confessei para a madrugada, sentando no banco. - Odeio estar tão perdida assim.
- É normal, Tory. Tudo é novo para você. Até me assusto, às vezes. - respondeu Kayra, aparecendo sentada ao meu lado.
Assustei-me e quase cai do banco.
- Por acaso, você pode se aproximar como uma pessoa normal? Esses seus surgimentos do nada vão acabar me matando do coração. - comentei, voltando a minha posição no banco.
- Você tem uma saúde de touro. Não vai passar mal por qualquer bobagem. - comentou ela, sorrindo.
Sorri junto.
- Ok. Entendi. - e respirei fundo, aproveitando a brisa matinal. - Esse mundo é difícil, Kayra. Peter disse que falta pouco para começarmos a roubar, para que possamos comer. Estamos sem dinheiro e pelo que sei, a família só vai aumentar. Como vamos nos sustentar? Não quero roubar, mas não vou deixá-los passar fome. Isso desumano.
- Está pensando como um todo, minha cara. Por que tanta preocupação, afinal?
- Não consigo evitar. Isso está me deixando maluca. Pela primeira vez durante meus quinze anos, dormi mal. Não posso tirar eles de uma vida mais ou menos normal para colocá-los em outra vida pior. Devo admitir que também não estou acostumada a comer pouco. A-51 tinha seus defeitos, mas nunca passamos necessidades.
- Então, é isso? Precisam de dinheiro?
- Sim. Só para comer, já que sabemos como viajar e arrumar um lugar para dormir e descansar. Ou se for melhor, podemos trabalhar...Bom, nem todos. Porém, sou a mais forte do grupo. Posso aguentar um pouco de trabalho duro. Por isso pedi ajuda, nem que seja um conselho.
- Calma, Tory. Sei do seu potencial, mas isso não será necessário. Esse pequeno saquinho vai lhe ajudar. Ele segue a mesma regra dos túneis. Pense na quantidade e espécie de dinheiro que ele te dirá exatamente o que desejar. - e colocou um saquinho verde escuro em minhas mãos.
- Oh, meu Deus! Muito obrigada, Kayra. Isso resolverá nossos maiores problemas até encontrarmos todos os outros signos. - e a abracei.
- Foi como disse na primeira vez: estou aqui para ajudar.
- Eu sei. Mais uma vez... - e olhei para o lado. Ela havia sumido como sempre fazia. -...obrigada. Tenho que aprender a dizer minhas frases inteiras antes que ela suma. Sempre fica alguma incompleta.
Voltei minha atenção para saquinho e em seguida para o prédio em que meus amigos descansavam. Eu ia fazer uma surpresa para todos. Levantei do banco e segui em direção ao centro da Itália. Não demorou até achar alguns estabelecimentos que vendiam comidas frescas e com cheiro incrível. Comprei o necessário para nosso café-da-manhã e para fazer alguns lanches para a próxima viagem. Andava e agia da maneira mais adequada possível, e quando arrisquei falar italiano para pedir os pães, vi que saiu fluente, como se eu fosse uma italiana legítima.
Era umas oito da manhã quando retornei ao apartamento. Assim que entrei, fui recepcionada por caras preocupadas.
- Tory, onde esteve? - perguntou Gê, vindo na minha direção.
- Fui comprar nosso café-da-manhã. - anunciei, dando-lhe algumas sacolas.
Caminhei até a mesa e coloquei as sacolas restantes ali. Peter e Esther se aproximaram, avaliando a comida.
- Com que dinheiro comprou tudo isso? - perguntou Esther, surpresa.
- Com isso. - e desamarrei o saquinho da minha cintura. - Ele nos proporcionará todo o dinheiro necessário para comermos sem que roubemos.
- E como o conseguiu? - questionou Peter.
Olhei para o chão. Não podia dizer que a Kayra havia me dado ele. Prometi que não contaria.
- Vocês vão ter que confiar em mim. Não posso dizer ainda quem me deu isso. - exclamei, cabisbaixa.
Houve um silêncio. Por um minuto, nem nossas respirações eram ouvidas. Até que Sam pulou em uma das sacolas e gritou, feliz:
-Meu pai amado! Sempre quis comer esse bolo. Ouvi dizer que é uma maravilha. Como temos tanta comida! Chega de comer apenas resto de pães e frutos velhos. - disse ele, saltitando enquanto encarava o pequeno bolo nas mãos.
Peter negou com a cabeça.
- Essa história ainda não está bem contada, mas sei que fez o que tinha que fazer por ser uma emergência. Fico aliviado por não optarmos para o crime. Sei que não faria nada de errado. Que mal sabe o que é ser uma criminosa, mesmo sendo acusada uma vez disso. Contudo, você terá que explicar melhor isso, Tory. Quando puder, é claro. - comentou ele.
Suspirei e assenti, sentindo-me mais calma. Sentamos na mesa e começamos a comer.
- Acho que meu apartamento nunca ficou tão movimentado como está. - disse Sam.
- É,mas não vamos ficar muito tempo. Temos que continuar procurando os outros. Eles podem estar precisando de ajuda, assim como você estava, Sam. Seria bom se partíssemos ainda hoje. -sugeri, olhando para Peter. Ele tinha a palavra final.
- E vamos para onde? - perguntou ele.
- Um de nós tem que ser o próximo imã. - lembrei-o.
Ele concordou e fechou os olhos, ficando mudo. Troquei olhares com Gê, confirmando se era o que suspeitava. Por fim, Peter abriu os olhos e disse, levantando da mesa:
- Vamos para Rússia. - anunciou.
-É uma grande distância. - exclamou Gê, surpreso.
- Eu sei. - concordou Peter. - Mas é o lugar que está dizendo para irmos.
- Vamos nos preparar, então. Levaremos barracas e lanternas para longas jornadas. Também podemos emergi em países no caminho para comermos e descansarmos. - propus.
- É uma boa ideia. - confirmou Esther.
- Saímos no pôr-do-sol. - falou Peter.
Confirmamos com a cabeça. Ele parecia nervoso. Talvez, ver esses lugares para onde tínhamos que ir não fosse legal e por mais corajoso que ele fosse, isso poderia dar um certo medo. Não demoramos para arrumar a bagunça que fizéssemos. Todos com mochilas nas costas começamos a descer a escada. Assim que estávamos terminando, uma senhora que estava acompanhada por três guardas, apontou para nós e disse:
- Sono! I rivoltosi che hanno parlato, guardia.- "São eles! Os bagunceiros que falei, guarda."
Um dos guardas pegou uma folha e se virou para os outros, alarmados.
- Quei due sembrano con fuggitivi americani. Dobbiamo arrestare e chiamare il governo degli Stati Uniti.- "Aqueles dois parecem com os fugitivos americanos. Devemos prendê-los e ligar para o governo dos Estados Unidos."
- Opa. Galera! Está na hora de correr. - anunciei, recuando alguns passos.
- Uma excelente ideia. - disse Gê, seguindo-me.
- Prendere tutti!- "Pegue todos eles!", gritou o oficial atrás de nós.
-Sam, rápido. Precisamos de algum lugar com terra. - pedi.
- Certo, me siga. - e se colocou a nossa frente, mostrando o caminho.
Havíamos subido três degraus e entrado em outro apartamento vazio. Ajudei Esther e Peter a travar a porta e saímos por uma janela.
- A escada de emergência. - anunciou o menino.
Concordamos e começamos a descer. Assim que colocamos os pés no chão, pegamos mais velocidade, olhei para trás e vi que os guardas ainda nos procuravam dentro do prédio, o que nos deu uma grande vantagem.
- Virem a próxima esquerda. - disse Sam, ofegante.
E foi o que fizemos. Há alguns metros, estava um jardim pequeno, no fim da rua. Por sorte, ninguém nos seguiria até ali. Escutamos gritos dos oficiais e nos apressamos. Na metade do caminho, Sam caiu e parei para ajudá-lo.
- Meu tênis...ele caiu no bueiro. - comentou ele triste, tirando o pé do buraco.
- Precisamos continuar. - afirmei.
- Ok. - e voltou a correr.
Assim que coloquei meus pés na grama falhada, imaginei um novo túnel e como se fosse uma grande boca, a terra nos engoliu.
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Os Doze Dons Do Sol
PrzygodoweDoze crianças nasceram especiais. As crianças zodiacas. Uma para cada signo, planeta e constelação. Duas delas estão sobre a supervisão e cuidados do Governo. A A-51 era seu lar, mais precisamente o Setor H. Após um blecaute em todo prédio, Tory(Tou...
