Estávamos andando há horas. Peter não quis que parássemos um minuto sequer. Eu não entendia o que ele estava pensando ou porquê estava agindo daquele jeito, mas o clima entre nós seis era de pura tensão e tristeza. Há três horas, Sam reclamou sobre dores nos pés. Uma hora antes, Courtney diminuirá e ficou para trás do grupo. Cuidei para que o túnel não se fechasse ou algo parecido e Courtney fosse machucada.
Peter continuava, ao meu lado. Senti Gê atrás de mim e Esther estava dando apoio ao Sam, sempre de olho em Courtney. Mordi a língua todas as vezes que quis parar e supor a Peter que não aguentaríamos muito tempo daquele jeito, principalmente eu. Eu deveria ter explicado isso antes: nossos dons não viam de graça. Para os manusear, gastávamos energia, como em qualquer outra atividade física.Só que era ai que morava o problema: a cada hora que os usávamos, tínhamos que dormir equivalente a quatro horas. Isso valia para quando ativávamos as marcas em nossos braços. Esse outro dom que estava utilizando gastava menos energia. Porém eu não tinha dormido bem noite passada e minha cabeça doía de tanto me concentrar no destino e na estrutura do túnel.
Como estava com a visão meio turva, decidi apoiar-me na parede a minha esquerda e continuei a caminhar. Depois de quarenta minutos, senti uma franqueza e borrões negros surgiram na minha visão. Dei um passo para trás e senti duas mãos me aparar.
- To, você está bem? - perguntou Gê me segurando.
- Estou legal. - afirmei, sentindo um frio.
- Você está suando. - exclamou ele, colocando a ponta dos dedos na minha testa.
- Que estranho, não é? Estou frio.- confessei, com um sorriso sem graça.
De repente, tudo ficou em câmera lenta. Vi Esther se aproximar e a cara preocupada de Gê. Os borrões aumentaram e rapidamente não vi mais nada. O cansaço havia me feito desmaiar. Acordei minutos depois com alguém molhando meu rosto. Olhei em volta, tentando entender o que aconteceu. Eu estava meio deitada, com a cabeça apoiada no meu amigo. Vi uma garrafa de água na mão de Esther e Gê com a mão molhada. Peter também me olhava preocupado. Sam e Courtney pareciam assustados.
- Tory, consegue me ouvir? - perguntou Esther.
Assenti, piscando algumas vezes. Ela suspirou e se ajoelhou na minha frente.
- O que aconteceu? - perguntei, confusa.
- Você desmaiou. Só não sabemos o porquê. Você se alimentou bem antes de sairmos? - questionou ela de volta.
- Sim. Comi até não aguentar mais. A única coisa que não fiz direito foi ter dormido bem na noite passada, mas isso não é nada. Só estou com dificuldades para continuar o túnel. Fazer isso suga uma quantidade considerável de energia. - confirmei.
- Então, desmaiou praticamente de cansaço? - interrogou, incrédula.
- Não foi nada. Estou melhor e consigo continuar. - falei, tentando levantar.
- De maneira alguma. - disse Esther.
- Esther tem razão. Você não está bem para continuar. Precisa descansar um pouco. Não estamos mais na A-51; não precisa mais fazer aqueles testes de resistência, Tory. Não tem ninguém aqui para avaliar. - exclamou Gê, sério.
Aquilo não deveria ter me afetado tanto, mas afetou. Não estar na A-51 era estar longe do perigo imposto por doutores e seus testes malucos. Ele tinha razão.
- Ninguém para me avaliar? Sempre teve alguém anotando os resultados. Sempre teve mais um teste a se fazer. - sussurrei, sem ter o controle das minhas palavras. O quê estava acontecendo comigo?
Esther pegou no meu braço e disse:
- Desativa um pouco. - e apontou para a marca, que brilhava timidamente.
Respirei fundo e ela escureceu. O ar entrou por meus pulmões e senti um frescor interior, aliviando o calor liberado pelo dom dentro de mim. Esther lançou um olhar acusador para Peter e ele encolheu os ombros. Então, colocou-se de pé e afirmou:
- Vamos fazer uma pausa. Vou arrumar alguns sacos de dormir para ficarmos mais confortáveis e um lanche nos fará muito bem. George, fique de olho na Tory. Peter me ajude a fazer uma fogueira, enquanto Courtney e Sam arrumam a comida.
Todos começaram a fazer o que ela disse.
- Como você está? - perguntou Gê.
- Vou ficar bem. - confirmei, com um bocejo.
- Você come e tira um cochilo. - disse ele.
- Hum. - concordei.
Então, acomodei-me encostando a cabeça em seu ombro e fechei os olhos. Em poucos segundos, cai em um sono profundo. Acordei esparramada em um saco de dormir. Senti meus olhos inchados devido as horas de sono. Tudo parecia passar em câmera lenta. Sentei e olhei em volta, adaptando a minha visão. Percebi que todos me olhavam, preocupados e surpresos. Levantei e fui ao encontro deles. Estavam em um circulo em torno de uma fogueira. Esther jogou um sanduíche para mim e o peguei no ar.
- Tirou um bom cochilo? - perguntou ela.
- O suficiente para renovar as energias. - respondi, sentando ao lado de Gê.
- Isso é bom. - exclamou ela.
- Dormi muito? - perguntei ao meu amigo.
- É difícil julgar aqui em baixo, já que não vemos o sol. Porém calculo que tenha dormido pelo menos três horas. - falou ele.
Espantei-me. Havia dormido bastante e enquanto isso eles ficarão ali me esperando. Esther avaliou-me por um segundo, como se lesse meus pensamentos.
-Não se preocupe. Aproveitamos esse tempo para descansarmos também. As crianças estavam cansadas e eu precisava parar um pouco também. - comentou ela.
- Então, podemos continuar. - retruquei.
- Assim que apagarmos a fogueira e jogarmos a mochila nas costas. - respondeu ela.
Assenti. Foi então que percebi o quanto Peter estava afastado e mal falou desde os minutos que estava acordada. Não demoramos a voltar a andar. Continuamos na mesma formação. Passei a mão na parede e vi sua textura argilosa. Sorri e limpei os dedos no jeans.
- Está tudo bem?- perguntei ao Peter.
- Claro. Por que não estaria? -interrogou ele de volta.
- Acho que está doente.
- E por que acha isso?
- Porque não reclamou de nada até agora. Isso é um recorde!
Escutei sua risada e o clima pareceu se aliviar, mudando a atmosfera a nosso volta.
- Eu sinto muito pelo o que aconteceu. - comentou ele, voltando a ficar sério.
- Sem problemas. Não é a primeira vez que acontece. - falei.
- Percebemos pelo comentário do George. Mesmo assim, sinto-me responsável por todos e não percebi que todos estavam esgotados. Só me preocupei em seguir em frente; em acabar com essa sensação estranha.
- Que sensação?
- De não termos muito tempo para salvar a próxima pessoa. Como se fosse um pedido de socorro.
Aquilo embrulhou meu estômago.
- Estamos perto. Seja quem for, vamos ajudar. Fique tranquilo e são. Acho que temos que fazer o possível para preservar nossas sanidade. - aconselhei.
- Sem dúvidas. - concordou ele.
Não estava sendo fácil para ninguém, mas eu não tinha parado para pensar que as coisas estavam mais pesadas para o lado de Peter. Ele parecia cansado tanto psicologicamente como fisicamente. Quanto mais pessoas se ajuntava a nós, mais ele parecia perdido. Foi então que tomei a consciência que meu pensamento estava errado e Peter não era responsável assim por nós. Não poderíamos jogar a culpar de tudo em cima dele. Eramos um grupo e a partir daquele momento, passaríamos a pensar como um. Fariamos o melhor para todos, dividindo o trabalho. Isso daria um jeito no cargo pesado de Peter.
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Os Doze Dons Do Sol
AdventureDoze crianças nasceram especiais. As crianças zodiacas. Uma para cada signo, planeta e constelação. Duas delas estão sobre a supervisão e cuidados do Governo. A A-51 era seu lar, mais precisamente o Setor H. Após um blecaute em todo prédio, Tory(Tou...
