Reed Walsh sempre teve tudo. Filho de um dos empresários mais poderosos dos Estados Unidos, Reed vive cercado de luxo, mas também da própria timidez. Incapaz de se aproximar das pessoas, ele se isola, até que seu pai, preocupado com ameaças, toma um...
A ruiva se levanta com aquele ar de quem sabe exatamente o que está fazendo. Acompanho cada passo com os olhos. Samy para na frente do Jacs, o puxa pela gola da camiseta e sela os lábios dele com um beijo quente, rápido, mas intenso o bastante pra fazer todo mundo gritar. As mãos do Jacs deslizam por suas costas como se já fossem íntimos há anos. A plateia vibra.
Desvio os olhos pro Reed, mas com ele de costas, não consigo ver sua expressão. Ainda assim... eu sei. Sei que ele está mal. Ele ficou paralisado desde o momento em que ela se levantou.
— Reed? — o chamo
Ele se vira, com aqueles olhos que antes tinha felicidade, em completa tristeza. Estão... vermelhos. Molhados.
O garoto está à beira de desabar.
E o pior? Ele tenta esconder. Passa a mão no nariz, desvia o olhar, como se isso fosse apagar o que já ficou óbvio.
– O que foi? – murmura, fingindo normalidade.
– Nada. – minto
Samy retorna para a roda com o batom borrado e o ego inflado. Sorri como se fosse a estrela de um filme pornô ruim. Jacs, por outro lado, olha pra mim com aquela cara nojenta de quem sabe que incomoda. Respondo com o dedo do meio, e o roxo que deixei na testa dele — graças à borracha do meu estojo — ainda tá lá. Uma obra de arte.
Antes que eu possa ver quem foi o próximo sorteado da garrafa, meu celular vibra. Mãe.
– Oi, mãe! – atendo, me afastando da roda.
– Como está a minha filha linda?
– Estou bem... e você?
– Bem também! Está na festa?
– Estou.
– E aí? Conseguiu alguma pista?
– Infelizmente não... O cabelo era uma peruca.
– Sério? Poxa, filha... nenhuma outra pista?
– Os olhos. Eu lembro deles com clareza. Pode ser útil pra identificar.
– Isso é ótimo.
– E aí, tá chato viver sozinha?
– Claro que não! Me divirto... sozinha.
Mentira descarada. Ela sempre odiou solidão.
– Que bom. Enfim, mãe, eu preciso voltar.
– Tudo bem. Te ligo depois. Te amo.
– Também te amo.
Desligo e volto pro caos. A roda ainda gira, e pelo que vejo, o azar caiu de novo no Reed. Mas quem tá com a garrafa agora é o desgraçado do Jacs.
– É verdade que você nunca beijou? – pergunta, alto o bastante pra todo mundo ouvir.
O silêncio pesa.
– Sim. – ele admite, baixo. E ainda assim, suficiente.
A roda explode em gargalhadas. Gritos. Comentários maldosos que doem só de ouvir.
– Já tem dezoito e não sabe beijar? Que coisa mais ridícula! – Jacs solta, debochado.
– Talvez porque ninguém quer ele. – a loira complementa, com um sorriso cretino.
– Ele é bem tapado, ninguém pegaria um esquisito tímido. – completa a amiga dela.
Minha mão fecha em punho. A mandíbula trava.
Reed tá sendo humilhado. E ninguém ali percebe o valor que isso deveria ter. Ser virgem. Nunca ter beijado. Ainda guardar esse tipo de pureza num mundo tão sujo. Eles acham que é fraqueza, mas é coragem.
A garrafa gira de novo. Eu desvio o olhar, porque sinto outro sobre mim. Incômodo.
Procuro ao redor. Stefan.
A cara fechada. A expressão dura. Me olha como se eu tivesse acabado de trair um juramento sagrado. Como se eu devesse alguma coisa pra ele. Mas ele que sumiu, porra. Ele que foi embora e deixou só mágoa.
Stefan desvia o olhar quando alguém o chama.
O que foi aquilo?
***
Reed disse que queria experimentar algo. Insistiu tanto, que deixei. Agora... não sei o que faço.
Deveria impedir o Reed de beber tanto? Talvez. Mas ele está sorrindo. Dançando. Se jogando com os outros adolescentes tão bêbados quanto ele. Talvez isso seja raro demais pra interromper.
Até ele me encarar.
Sorrio de volta, sem vontade, e vejo ele se aproximar com passos vacilantes.
O cheiro de álcool me acerta.
– Por que tá me olhando assim? – pergunta, se inclinando demais.
– Não posso mais? – rebato.
– Depois de amanhã é sábado... tava pensando em sair. – ele ri, sem noção nenhuma.
– Tá.
– Com a Samy.
O nome é uma facada. Não pelo ciúme — mas pelo desgosto. Ele ainda acredita que essa garota vale alguma coisa.
– Ela... me chamou. – diz, o sorriso bobo ganhando espaço.
– Assim, do nada?
– Bem... não. – ele desvia o olhar – Estávamos falando de encontros, e eu disse que nunca fui em um. Aí ela me chamou.
Quê? Isso tá estranho. Ninguém chama uma pessoa assim pra sair, ainda mais que ela ouviu que Reed gosta dela. Essa garota não me desce mesmo.
– Hm... entendi. Que horas?
– Quatro da tarde. Shopping e depois parque aquático.
Ótimo. A receita perfeita pra ele levar um fora público.
Apenas balanço a cabeça, sem comentar. Se quer tanto assim sair com ela, que vá. Às vezes só se aprende apanhando.
– Você é... feia! – ele explode em gargalhada, chamando atenção de todo mundo.
Minha reação é imediata.
— O quê? Por que me insultou do nada?!
— Porque eu quero. — riu
— Então vai se foder!
Empurro ele com força suficiente pra derrubar. Reed cai no chão rindo, como um idiota, sem ligar pra nada.
As pessoas olham, cochicham. Ele só se levanta, cambaleia até a mesa e continua bebendo.
Continua...
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