Capítulo 67- O Peso de Amar em Silêncio

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Kristhen Zillord

Eu chorei como uma criança.

Sem vergonha, sem filtro, sem força para conter. Quando ouvi a voz dele, quando vi o brilho verdadeiro em seu rosto, os olhos cheios de algo puro... algo que eu jamais recebi de ninguém, o mundo inteiro pareceu desabar.

Mas não foi alegria. Foi dor.

Um aperto cortante atravessou meu peito como uma lâmina sem pressa. Doeu porque era real. Doeu porque eu não merecia. E doeu porque, mesmo querendo, não podia aceitar aquilo.

Eu chorei por culpa. Por remorso. Por estar enganando alguém tão bom. Achei que ouvir a resposta dele faria brotar alguma coisa boa dentro de mim. Achei que talvez um pouco de calor escorresse pelas rachaduras, me lembrando de que ainda havia salvação. Mas o que encontrei foi um poço ainda mais fundo.

Tristeza. Angústia. Um vazio sufocante. E o pior: o choro não aliviou. Só piorou. Porque ele me ama. E um dia vai se lembrar. Vai descobrir a verdade. E me odiar.

Uma parte de mim grita que isso é inevitável. Que é idiota da minha parte até duvidar. É claro que ele vai me odiar. E por algum motivo cruel... isso me machuca tanto.

Eu nunca soube lidar com amor. Nunca recebi, nunca entendi. Só tive o Pierre. E mesmo ele... eu estraguei tudo ao depender demais. Ao deixar que ele preenchesse o buraco que me consome dia após dia.

Eu sou... Uma garota quebrada. Desgraçada, talvez. E me odeio por tudo isso mesmo sabendo que não fui eu quem escolheu nascer nesse inferno.

Queria não ter o conhecido naquele dia. Queria não ter esbarrado nele na calçada. Não ter fugido de casa. Não ter entrado naquela rua, não ter sentado naquela sala de aula, não ter... existido no mesmo espaço que ele.

Cada pequena escolha me trouxe até aqui. Até ele. E agora, mesmo desejando fugir, estou presa demais para voltar.

Talvez eu pudesse jogar tudo pro alto e ficar com ele. Fingir que o mundo lá fora não existe.
Mas não é tão simples. Kefhera me encontraria. Ela viria atrás do Pierre.

E não importa quem estivesse no caminho: ela destruiria qualquer um só para apagar o risco.
Amar é proibido. Ela nos treinou para não sentir. Poder se divertir? Tudo bem. Mas se apaixonar... nunca.

Só que eu falhei. Porque ele importa. Importa demais.

E o pior de tudo é ter que fingir o tempo todo.
Só que não está funcionando mais. Cada dia ao lado dele se torna mais difícil esconder.

Eu... Mataria por esse garoto. Morreria por ele.

Mas não sei se isso é amor. Talvez eu esteja apenas desesperada tentando preencher o maldito vazio dentro de mim. Talvez eu só tenha me agarrado a ele porque não sabia para onde mais correr.

E isso me mata de culpa. Porque o estou usando. E mentindo.

Eu nunca me senti assim com ninguém. Sempre que mentia para ele, uma parte de mim doía. Era como se meu próprio coração estivesse protestando. Como se gritasse: "Você está estragando tudo."

Pierre é um garoto bom. Bom demais. E eu... estou destruindo a vida dele.

Sou uma tremenda babaca.

— Tudo bem? — ele pergunta, tão gentil que parece errado.

Concordo com a cabeça, sem forças pra responder. Meus olhos ainda estão inchados, as bochechas molhadas, os lábios trêmulos.

Eu chorei muito. Chorei como nunca tinha chorado. Pela primeira vez... foi real.

— Pode me dizer o motivo de ter chorado?

Levanto o olhar lentamente. Ele está tão perto. Seus braços ao meu redor. A mão acariciando minha perna, os olhos suaves como algodão, aquele sorriso pequeno que só ele consegue dar. E tudo isso me quebra mais uma vez.

— Ei... Não chora. Está tudo bem... — ele sussurra, mas é mentira.

Não está tudo bem. Nunca esteve.

Sua mão sobe com cuidado, afastando mechas do meu rosto molhado. Os dedos tocam minha pele com uma doçura que me desespera. Ele limpa as lágrimas, e depois, sem aviso, beija minha testa. Com tanto carinho que o meu mundo implode.

Viro o rosto, escondendo meu desespero em seu peito. Me ajeito até poder abraçá-lo, me aninhando em seus braços como se eles fossem a última coisa segura que restou nesse mundo.

O futuro não promete nada. Só dor. Mas talvez eu possa ao menos aproveitar o presente. Ao lado dele. Gravar lembranças boas, mesmo que depois tudo acabe. Mesmo que, no meu fim, o nome dele seja minha última memória.

Respiro fundo, com o rosto ainda escondido, e murmuro ao seu ouvido:

— Obrigada...

— Pelo quê?

— Por ser tão bom comigo...

— Acho que não precisa me agradecer por isso — ele responde, com uma voz que me faz querer chorar mais. — Kristhen... eu não sei o que se passa na sua cabeça, a dor que você tá sentindo, mas... confia em mim. Deixa eu cuidar de você. Não passa por isso sozinha. Eu posso te ajudar.

Ah, Pierre... Você acha que pode. Mas não pode. Nem eu posso.

Me afasto só o suficiente para encará-lo. Nossos olhos se cruzam, e ele está ali. Aberto. Vulnerável. Determinado.

— Eu não sei se você consegue...

— Deixa eu tentar, ok? Eu posso te proteger. Te entregar tudo de bom que tenho. Te fazer a mulher mais feliz do mundo. Só preciso que você permita isso.

Talvez eu devesse negar. Ser sensata. Ir embora. Mas a verdade é que... Eu quero. Só por um tempo.

— Está bem... — sussurro, rendida.

O sorriso dele rasga o rosto, tão grande e tão sincero que chega a doer. É o melhor sorriso que ele já me deu.

— Prometo que vou te proteger. Nada de ruim vai acontecer com você. Nunca.

Quero acreditar. E vou tentar.

Me aproximo, toco seu rosto com os dedos tremendo, e beijo seus lábios com tudo que ainda resta de mim.

Um beijo calmo, morno. Que silencia a tempestade. Nossas testas se tocam quando me afasto.

— Vamos andar um pouco? Esfriar a cabeça? — ele sugere.

— Pode ser. Deixa eu vestir uma calça.

Beijo ele de novo, rápido, e me levanto, me afastando de seus braços com uma última olhada por cima do ombro.

Continua...

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