Capítulo 29- Ensina, Kristhen

16.7K 1.5K 357
                                        

Reed Walsh

Em casa, o clima é muito mais calmo do que nas ruas. Lá fora, a cidade parece à beira do colapso. Gritos, buzinas e sirenes se misturam no ar abafado, enquanto carros se empilham nas avenidas como se estivessem tentando fugir do próprio apocalipse. Não julgo — se eu tivesse a chance, talvez fugisse também.

— Senhor, precisamos ir para o abrigo. — um dos seguranças se aproxima.

— Ainda faltam três dias pro furacão passar aqui... — tento argumentar.

— E não queremos arriscar. Sua mãe viu a notícia e quer você no abrigo agora. — ele responde já puxando meu braço.

Nem me dão tempo de respirar, quem dirá de discutir. Tentando manter o equilíbrio, sou praticamente arrastado por corredores até uma porta larga de aço. O som metálico ecoa quando ela se abre. Descemos uma escada imensa, o chão parece úmido, mas o interior do abrigo é seco e limpo.

No fim do corredor, chegamos a um espaço amplo. Minha mãe mandou construir isso anos atrás, como um bunker privado. Parece mais uma casa subterrânea do que um abrigo. É tudo branco, esterilizado, silencioso demais. Meus olhos percorrem a sala de estar impecavelmente decorada

— Kristhen estará aqui logo. Espere aqui, senhor. — diz um dos seguranças antes de fechar a porta e desaparecer.

Caminho devagar até a cozinha. Está abastecida como se esperassem o fim do mundo. Abro a geladeira, analiso os produtos, mas meu estômago está inquieto demais pra querer algo. Ouço o som da porta se abrindo. É ela.

Kristhen entra distraída, o celular já indo para o bolso do casaco.

— Te inscrevi no teatro do colégio. Você começa mês que vem. — ela fala casualmente.

— Teatro...? — franzo a testa.

— Vai te ajudar a deixar de ser um covarde emocional. E então, acha que consegue se vingar até o final do ano?

— Se eu estiver focado... acho que sim. — pego uma latinha de refrigerante e o sirvo pra ela.

Kristhen pega. Pego outro pra mim.

— Ainda acho que deveria desistir. Focar em você. Mas já que vai insistir... — ela vai até uma cadeira e se senta, erguendo uma sobrancelha — ...já decidiu com quem vai perder a virgindade?

O refrigerante quase escapa da minha mão. Engulo em seco.

— Eu... preciso mesmo pensar nisso agora?

— Óbvio. Quer ser um babaca irresistível, não quer? Então precisa saber usar a língua e os quadris. A loira já espalhou que você deve ser péssimo de cama. E que prefere alguém experiente. Quer que ela continue achando isso?

A ansiedade bate seco no meu estômago.

— E o que eu faço...?

— Se vira. — ela dá de ombros, debochada — Foi você que inventou essa vingança, agora aguenta.

— Não pensei que exigiria tanto preparo...

— Então contrata uma garota de programa. Se pagar bem, ela te ensina sem julgar se é virgem ou não. E não vai te traumatizar. Só não vá se apaixonar, hein.

— Talvez seja uma boa ideia... — murmuro, ainda sem acreditar que estou considerando isso.

Ela termina o refrigerante, joga a latinha no lixo com precisão e se levanta.

— Pronto, agora tem o plano e a missão. Vou procurar um quarto pra mim. Boa sorte com seu destino sombrio.

Fico estático, apoiado no balcão da cozinha. Minha cabeça gira. Parte de mim está ansiosa, outra parte... só quer desaparecer.

Mais tarde, fiquei na sala, distraído com um cubo mágico. A cada movimento, minha mente tenta fugir do silêncio sufocante do abrigo. Kristhen provavelmente já dormiu.

Termino o cubo e o deixo sobre a mesa. O tédio é quase tangível. Me levanto, decidido a ir dormir também, mas paro no meio do caminho.

Kristhen sai do corredor com passos lentos, vai até a geladeira. Abre a porta e começa a vasculhar prateleiras.

— Pensei que ia cozinhar alguma coisa. — ela comentou

— Eu? Cozinhar? Não sei nem fritar um ovo. — respondo.

— E como você sobrevive, então?

— Diferente de você, cresci com empregadas.

Ela fecha a porta da geladeira e se vira devagar, me encarando com um olhar entediado. Depois revira os olhos, como se eu tivesse dito a coisa mais estúpida da noite.

— Vem. Vou te ensinar a cozinhar.

Ela começa a tirar ingredientes e colocar no balcão: carne, verduras, ovos, extrato de tomate, temperos... tudo de uma vez.

— Vamos fazer uma refeição completa. Assim aprende logo. Coloca um avental.

— Um avental? Sério?

— Vai ficar pelado então? Veste o avental, Reed.

Obedeço em silêncio, já prevendo que discutir com ela não leva a lugar algum. Ela me entrega duas cenouras e aponta para a pia.

Lavo, seco e começo a cortar como consigo. Kristhen, ao lado, põe água pra ferver e separa o bacon. Quando termino as cenouras, ela já está atrás de mim com outra tarefa.

— Pega uma panela, óleo e joga o bacon dentro. Depois tampa com uma tampa grande. — ela pede, e eu faço — Isso. Agora vai cortando o alho.

— Quanto arroz eu coloco?

— O quanto você acha que vai comer. Não sou vidente. Anda logo, tô morrendo de fome.

Ela me dá ordens como um general impaciente. Fico dividindo minha atenção entre o fogo, os temperos, as panelas, a faca e a voz dela gritando na minha orelha.

— Você podia ajudar! — reclamo.

— Quem precisa aprender aqui é você, riquinho. Vai, mexe esse feijão

— Já pensou em ser professora?

— Já! Ia transformar a vida dos meus alunos num inferno — ela sorri, um sorriso que arrepia — Ia amar.

— Ainda bem que não virou. Sinto pena de quem for se casar com você. E dos seus filhos.

— Cala a boca, Reed!

Continua...

Quem será o futuro marido da Kristhen? Uma pergunta bem difícil em🤔

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Quem será o futuro marido da Kristhen? Uma pergunta bem difícil em🤔

Obrigada por ler! Não se esqueçam de votar, me ajuda muito. Beijo, vejo vocês depois ❤️

KristhenOnde histórias criam vida. Descubra agora