Reed Walsh sempre teve tudo. Filho de um dos empresários mais poderosos dos Estados Unidos, Reed vive cercado de luxo, mas também da própria timidez. Incapaz de se aproximar das pessoas, ele se isola, até que seu pai, preocupado com ameaças, toma um...
Acho que criei coragem demais ao mandar ela calar a boca. O olhar que Kristhen me lança congela meu sangue. Aquela raiva no rosto dela não é comum, é densa, cortante. E o arrependimento me atinge como uma pancada seca no estômago.
— O quê? — sua voz baixa, carregada de incredulidade.
— Olha só... você tá brigando comigo sem motivo.
— Sem motivo? — ela se aproxima rápido — A minha missão é te proteger, Reed. É óbvio que eu vou ficar puta se você desaparece sem avisar.
— Eu não desapareci! Eu tô aqui, porra! Tô bem!
— E se não estivesse?
— MAS EU ESTOU! — minha voz sai mais alta do que eu queria, o peito já pesando com a respiração acelerada — Por que você tá surtando desse jeito? Foi só porque subi? Sem você? Acha que dependo de você pra respirar agora? Acha mesmo que preciso de uma babá? Você é humana, Kristhen! Igual a mim! Não vai poder me proteger pra sempre, então para com essa merda de achar que sou frágil!
— Mas enquanto eu estiver aqui, você está sob minha proteção! — ela me empurra com força, e eu dou um passo atrás, sentindo o sangue ferver — Eu fui feita pra isso, Reed. Fui criada com esse único propósito: te manter vivo. Dar a minha vida pela sua, se for preciso.
— Eu não quero sua vida no lugar da minha! — minha voz se quebra no limite entre raiva e confusão — Você nem precisava estar aqui! Quando meus pais voltarem, vai embora, volta pra casa, fica com a sua mãe! EU NÃO PRECISO DE VOCÊ!
— EU NÃO VOU EMBORA! — ela grita de volta, os olhos brilhando de raiva e... mágoa? — Prometi pro meu pai. Eu vou até o fim, você querendo ou não!
— PARA DE BRIGAR COMIGO! — esbravejo, sentindo os punhos tremerem de raiva contida — Eu só cometi um erro, e você me ataca como se quisesse me punir. Como se fosse minha maldita mãe.
— Eu tô preocupada! — ela grita, mas sua voz quebra no fim, quase num pedido.
— VOCÊ NÃO TÁ! — fecho as mãos com tanta força que sinto a pele se rasgar — Você acordou mal e tá descontando tudo em mim!
— Eu não tô! Eu juro! Reed, você subiu, colocou sua vida em risco e não me disse nada! Sua mãe deixou uma ordem clara: você deve ficar ileso. Eu tenho que obedecer.
— Vai se foder. — rosno, passando por ela, sem conseguir conter o ódio — Você e essa maldita preocupação podem ir pro inferno!
— Por que você tá tão irritado?! — ela grita atrás de mim — Sou eu quem deveria estar! Eu tô tentando cuidar de você!
Me viro com tanta raiva que meus dentes doem de tanto ranger.
— PORQUE VOCÊ AGE COMO SE FOSSE MINHA MÃE! — explodo, cada sílaba cuspida com desprezo — Olha pra mim! Eu sou da sua idade! Não preciso ser carregado no colo! Aqueles caras... talvez estivessem certos. Talvez eu não devesse confiar em você.
— Só porque eu quero te manter seguro?! — ela dá um passo à frente, os olhos arregalados.
— SEGURO DE QUÊ, KRISTHEN? — invado o espaço dela, sentindo meu coração bater feito uma sirene — Daqueles caras? Dos cinco? Digo... quatro. Porque você matou um. E sabe o que é pior? Eles me ofereceram uma proteção que você não consegue me dar. Você tá me sufocando! Você parece com a minha mãe... e eu odeio isso. Odeio tudo o que ela me fez.
Ela não diz nada.
— Ela sempre me proibiu de tudo. De fazer amigos. De conversar. Dizia que era perigoso. Que eu devia ficar calado. E se eu desobedecesse... eu apanhava. Você tem noção do que isso causa em uma criança? Eu não nasci tímido. Ela me fez assim! Me criou como se o mundo fosse um monstro, como se todo contato fosse uma ameaça! E agora você vem aqui, com esse mesmo controle disfarçado de proteção, dizendo que faz isso por mim? NÃO ME FODE!
Fico sem fôlego. O silêncio entre nós é denso. Um segundo que parece durar uma eternidade.
— Eu não quero te proibir de nada, Reed... — ela engole em seco — Só quero te salvar dessa merda toda.
— Eu não pedi pra ser salvo. — respondo, frio.
Me viro e me afasto, cada passo meu pesando toneladas. Entro no quarto e bato a porta com força, trancando-a
Deito na cama. Minha cabeça está uma bagunça. Essa discussão escancarou um abismo dentro de mim que eu estava fingindo não ver.
Desde ontem, quando a vi dormindo e percebi como pouco sei sobre ela... esse sentimento estranho não me larga. Kristhen é um enigma. Ela diz que está aqui por causa do pai. Que é a missão dela. Mas algo nessa história fede. Ela sabe lutar, sabe matar, sabe mentir. Quem ela realmente é?
E por que, mesmo assim, parte de mim ainda quer confiar?
A verdade é que... eu não posso. Não mais.
Minha mãe me ensinou a ficar sozinho. A viver calado. E talvez, só talvez, ela estivesse certa. Pessoas se aproximam com segundas intenções, com máscaras bem postas e promessas vazias. Fingem cuidar de você até o momento em que deixam você cair.
Enquanto Kristhen não mostrar quem é de verdade, vai continuar do lado de fora da minha porta.
É melhor ser só... do que ser enganado de novo.
Continua...
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