Capítulo 13- A Súplica Silenciosa

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Kristhen Zillord

A campainha tocou.

Cheguei em casa mais cedo. Mamãe ainda estava no trabalho — ela sempre dizia que os plantões passavam rápido quando se estava ocupada — mas comentou que papai poderia chegar antes.

Desci as escadas com passos tranquilos, puxando a gola da blusa velha que usava. A luz suave da tarde atravessava as frestas da janela, dourando o chão da sala.

Quando abri a porta, vi que um homem alto estava diante de mim. A pele dele parecia papel branco encharcado de água, tão pálida que cada veia se destacava como fios azulados sob a superfície. Os olhos... os olhos estavam vermelhos. Não um vermelho de raiva ou choro. Era a cor do sangue coagulado, como se a pupila tivesse sido mergulhada em dor.

— Pai...? — murmurei.

Não tive tempo para nada. O corpo dele cedeu, caindo contra o meu com todo o peso. Meus braços o envolveram num impulso, quase sem força, e eu cambaleei para trás tentando segurá-lo. Fechei a porta com dificuldade, usando o ombro, e me ajoelhei com ele no chão da sala.

— Pai?! — virei o rosto dele para mim. O frio da sua pele me arrepiou até os ossos. Toquei suas bochechas, os cantos da boca. Estavam gelados como mármore.

Ele começou a cuspir.

O sangue jorrou num jato espesso, escorrendo pelo queixo e manchando minha blusa. A cena me paralisou por um segundo, até que o desespero me arrancou um grito.

— Pai, pelo amor de Deus, o que aconteceu?! — minha voz quebrou no meio da frase

— Faça... isso... — ele sussurrou, com a voz cortada por dor.

Sua mão trêmula ergueu algo entre nós. Uma arma.

— O quê...? Não estou entendendo... Pai, o que você quer?

— Tira... essa... dor de mim, Kristhen... — ele gemeu, colocando o cabo da arma na minha mão com esforço. — Eu... te imploro...

— NÃO! — minha voz saiu rouca e desesperada — Eu não vou te matar! — soltei a arma imediatamente — Vou chamar uma ambulância, vou... eu vou dar um jeito, vou salvar você!

Tentei me levantar, mas ele me segurou pelo pulso com mais força do que imaginei que ainda tivesse.

Seus olhos me encararam. Um olhar vazio, tomado pela escuridão. As lágrimas dele... eram de sangue. Fios vermelhos escorriam de seus olhos como se chorassem agonia líquida.

— Faça isso... querida...

Cada palavra era um lamento, cada sílaba carregava uma súplica silenciosa.

Com as mãos trêmulas, peguei a arma novamente. Ela já estava destravada, mas não consegui sequer mirar. Meu corpo tremia inteiro. Eu me deitei contra ele, chorando sem controle, deixando que minha testa repousasse sobre seu peito.

A respiração dele era fraca.

Então, ele começou a cantar.

Era a música que ele cantava para mim quando eu era criança, quando eu tinha medo de trovões ou pesadelos. Sua voz estava fraca, falhando, e quando não conseguiu mais cantar, continuou apenas com o som da melodia feito com a boca.

Eu segurei o rosto dele, apertando com os dedos trêmulos, tentando implorar para que não fosse.

Mas ele se foi.

KristhenHistórias para pegar e não largar. Descubra agora