Reed Walsh sempre teve tudo. Filho de um dos empresários mais poderosos dos Estados Unidos, Reed vive cercado de luxo, mas também da própria timidez. Incapaz de se aproximar das pessoas, ele se isola, até que seu pai, preocupado com ameaças, toma um...
— Vamos lá — ela diz, amarrando os cabelos com um elástico velho preso no pulso. — Vou te ensinar a dar respostas frias, a ser um tremendo filho da puta. Mas se usar isso comigo, Reed, eu faço você comer a própria língua, entendeu?
Ela se afasta com passos lentos e depois caminha de volta como se fosse outra pessoa. Os olhos mudam, a voz suaviza, e o corpo inteiro assume um ar diferente, mais delicado, quase tímido.
— Oi... então — ela diz, parando à minha frente com um sorrisinho forçado — eu tava te observando ali de longe, e percebi que está sozinho. Posso te fazer companhia?
Fico paralisado por um segundo, mais observando a transformação do que prestando atenção nas palavras. Ela estala os dedos perto do meu rosto com um estalo irritante.
— Oi!? Tô falando com você, idiota
— A-ah, claro...
— Que "claro", Reed?! — ela revira os olhos e solta o ar com desprezo. — Você tem que encarar com frieza, tomar sua bebida, se tiver uma, cruzar as pernas devagar e perguntar por que diabos ela quer sentar ao seu lado. Nada de parecer disponível. De novo.
Ela se vira e repete o mesmo teatrinho. Dessa vez, obedeço. Me recosto no sofá, relaxo o corpo e deixo o olhar morto, vazio, sem simpatia.
— Oi! — ela diz de novo, com a mesma voz meiga — Eu te vi ali no canto... Vi que tava sozinho. Posso sentar com você?
— Se eu estivesse procurando puta, eu ia na esquina. Some daqui, vadia — deixo escorrer o veneno da voz sem sequer mover o rosto.
Ela pisca algumas vezes, como se tivesse levado um tapa psicológico. O silêncio entre nós parece durar séculos. Será que exagerei?
— Não é pra ser assim?
— É pra ser exatamente assim. — ela coça a testa, como quem tenta esconder que gostou. — Gostei dessa sua personalidade. Continua com esse tom. Só faltou o olhar mais gelado. E mais sexy. Consegue?
— Eu... não sei como fazer um olhar sexy — admito.
— Relaxa o rosto. Pensa numa mulher nua na sua frente e faz cara de "sei tudo que ela quer". — ela cruza os braços. — Vai, tenta.
Obedeço. Meio ridículo. Mas tento.
Ela me analisa com cuidado. Franze a testa, depois ergue uma sobrancelha.
— Ficou até bom... Continua treinando. Dá pra ficar mais convincente.
Ela se senta ao meu lado com a naturalidade de quem nunca foi a mesma garota fofa de um segundo atrás.
— Agora vou interpretar uma patricinha insuportável. Daquelas grudentas, possessivas e escandalosas. Que acha que você é propriedade dela. Quero ver como vai reagir. Lembrando: você transa com todas, mas nunca duas vezes com a mesma.
Ela solta os cabelos num movimento meio teatral, ajeita o decote e dá um sorrisinho afetado antes de se jogar na minha frente, segurando meu braço como se fosse uma âncora.
— Reedzinho — ela fala em voz aguda, manhosa — você dorme lá em casa hoje? Comprei uma fantasia que vai fazer você babar...
— Não.
— Ah, por favor... — ela aperta meu braço e passa a mão por cima do meu jeans, sem a menor vergonha — posso te fazer um boquete no caminho...
Aquilo me deixa tenso por um segundo. A mão dela. O tom da voz. Mas seguro seu pulso com firmeza e olho nos olhos dela, deixando todo o gelo que posso escapar pela íris.
— O que você tá fazendo? Já disse não. E se continuar insistindo, faço você engolir a própria língua, sua vadia mal comida.
O estalo que recebo do tapa faz minha cabeça virar pro lado. A dor arde. Volto a olhar pra ela confuso.
— Me chama de vadia mal comida de novo e eu arranco seu pau com um garfo de sobremesa — ela sorri, quase doce — Mas... você foi bem.
Essa garota é completamente instável.
Ela se levanta e volta a se jogar no sofá, indo pro outro lado, assistindo ao filme como se nada tivesse acontecido.
— Continua praticando — ela murmura. — Mas nem tenta usar isso comigo.
Claro. Eu pratico e apanho. Um ciclo lindo.
A verdade é que Kristhen assusta. Dá medo até quando sorri. Às vezes penso que a morte deve ter aprendido a ser discreta só pra fingir ser ela.
***
Levanto no meio da madrugada com a garganta seca como papel velho. A água nesse abrigo subterrâneo tem gosto de ferrugem, mas é o que tem. Ando devagar pelo corredor mal iluminado, quando vejo uma fresta de luz saindo do quarto dela.
A voz da Kristhen vaza pelo vão da porta entreaberta.
— Senhor governador... eu preciso dessas informações. Sei que está com medo, mas se me disser quem fez isso, eu te mantenho seguro.
Meu corpo trava. Governador? O que ela tá fazendo falando com o governador no meio da madrugada?
— Acha que podem ouvir nossa ligação? Então diga onde prefere conversar. Em segurança.
Cada palavra dela me puxa mais fundo numa teia que eu nem sabia que existia. Meu coração começa a bater mais forte. Que merda está acontecendo?
— Tudo bem. Estarei lá após o furacão. Eu prometo... ninguém da sua família vai morrer. Mas eu preciso dessas informações. Isso é valioso demais.
Ela encerra a chamada. O silêncio que segue só aumenta o peso no meu peito. O que ela sabe? Do que ela tá envolvida?
A maçaneta gira. Eu me endireito, quase tropeçando em mim mesmo, andando de um lado pro outro como um idiota que foi pego no flagra.
Ela abre a porta e me encara com aquele olhar frio, firme.
— O que tá fazendo?
— Eu... só fui beber água — sorrio, tentando parecer natural, mas minha voz sai quase tremida.
Ela cruza os braços. Avalia cada centímetro do meu corpo, como se pudesse ver através da minha mentira.
— Tava ouvindo minha conversa?
— C-claro que não...
— Hm. — ela estreita os olhos — Volta pro seu quarto. Agora. Antes que eu decida arrancar sua curiosidade pela raiz.
Eu apenas aceno com a cabeça e me viro, caminhando direto pro quarto como um soldado obediente.
Eu sou curioso.
E essa curiosidade vai me matar se eu não descobrir a verdade.
Continua...
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