Capítulo 76- O Que Restou de Nós

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Kristhen Zillord

— O quê? — recolho meus braços devagar, sentindo que qualquer movimento agora poderia ser um gatilho. Ele está furioso demais. Tocar nele seria como acender um pavio.

— Você consegue, ao menos por um segundo, ter a maldita noção de que toda a sua vida é uma mentira? — ele se aproxima com passos pesados, como se cada um deles esmagasse o chão. — Você mente tanto, que nem consegue mais distinguir o que é real ou não. Acredita nas próprias mentiras. Isso é patético.

A cada palavra, sinto algo dentro de mim quebrar — estalar como vidro sob pressão. A voz dele, o olhar... ele não está apenas bravo. Está despedaçado.

— Eu fui criada assim, você não entende? — minha voz treme, mas a raiva me empurra. — Acha que tive escolha, porra?! Olha pra mim... Olha direito. Não consegue ver o maldito peso que eu carrego?

— Eu vejo. Sempre vi — ele rosna, seus olhos faiscando com mágoa. — Mas você nunca me deixou ajudar. Sempre tão fria, tão fechada, tão... sozinha. E agora quer se fazer de vítima? Me poupe. Você tá longe de ser isso.

Não adianta. Qualquer coisa que eu diga vai piorar. Tudo que resta agora é assistir o fim acontecer.

Pierre não entenderia. Vai achar que quero manipular, que tô tentando fazê-lo sentir pena de mim. Mas não é isso. É só dor.

— Eu... sinto muito — murmuro, baixando a cabeça como se minhas palavras fossem cinzas que caem da minha boca. — Sinto muito por tudo isso. Por mentir. Por esconder. Por viver uma vida inventada. Mas o que eu podia fazer? Eu só queria te proteger...

— Mas você escolheu, Kristhen. — A voz dele racha no ar. — Você teve escolha. E escolheu mentir. Me deixar no escuro. Inventar um mundo onde nada era real.

— Eu nunca tive escolha! — grito, o desespero rompendo minha garganta — Acha que, se eu tivesse, estaria nessa merda toda? — encaro ele — Acha que eu não estaria vivendo uma vida normal, rindo como gente comum? Pierre... eu nunca tive escolha! Ou eu terminava esse trabalho maldito cheio de mentiras e mortes, ou... eu veria a pessoa que eu amo morrer diante dos meus olhos.

Ele fecha os olhos com força. Respira, uma... duas vezes, como se estivesse tentando conter o próprio coração de explodir. Seus dedos deslizam pelos cabelos, bagunçando ainda mais o que o vento já tinha desfeito. Quando me encara de novo, vejo um homem quebrado.

— Eu tô destruído por dentro... — a voz dele falha. — É um sentimento tão miserável, tão nojento... que eu tô desejando morrer. Nunca, nunca senti algo tão pesado no peito. Eu me sinto esmagado por uma pedra, como se ela fosse arremessada, de novo e de novo, bem aqui... — ele toca o peito — E cada vez dói mais. Kristhen... eu não queria que fosse assim. Eu não queria te odiar. Mas não dá. Não dá...

— Eu sinto muito, Pierre... — falo quase sem voz.

E então, me invade um déjà vu tão forte que parece real. Lembro do dia em que ele me beijou pela primeira vez. O toque tenso, os olhos fechados, a entrega. Era outro tempo. Outra versão de nós.

— Eu... preciso de espaço. Preciso ficar longe de você. Me acalmar. Pensar. Respirar. Viver alguma coisa que não seja isso. Acho que qualquer um sentiria o mesmo, depois de descobrir que a pessoa que mais ama mentiu a vida inteira.

— Pra te proteger...

— Não importa! — ele fecha os olhos com força, respira fundo. — Isso não torna mais fácil. Não torna menos doloroso. Eu preciso de espaço.

— Eu prometo que vou ficar longe... — minha voz se quebra.

Ele me olha por um momento, e vejo um brilho cansado nos olhos dele. Um vestígio de tudo que fomos.

— Você não faz ideia do quanto isso vai me ajudar. Colocar meus pensamentos no lugar... entender o que sobrou de mim. — ele respira fundo. — Eu preciso ir. Se voltar pra Paris, tenta... tenta não cruzar meu caminho. A adrenalina ainda tá me consumindo. E, se eu disser mais alguma coisa agora, talvez eu me arrependa.

— Tá... eu entendo.

E então ele se vira. E cada passo que ele dá é uma facada em mim. Se afasta, sem olhar pra trás, e finalmente desaparece da minha vista.

E quando ele some, as lágrimas — aquelas que eu tentei enterrar — despencam. Elas escorrem com gosto de derrota, com gosto de final. Era eu quem deveria estar sentindo isso tudo, mas minha mente parece anestesiada. Nada parece real.

Eu queria que tudo fosse só um pesadelo. Anos... anos vivendo uma mentira. Me afundei tanto que comecei a acreditar nela. E agora... destruí quem me amava de verdade. Quem tentou me salvar.

Sou um monstro. A vilã de uma história mal escrita. Nunca fui heroína de nada. Se eu pudesse apagar tudo, deletar minha mente, nascer de novo... eu aceitaria sem hesitar.

O vento bate no meu rosto e, por um segundo, me faz fechar os olhos. Mas ao abrir, nada mudou. A dor ainda está aqui.

Eu o perdi? Eu... não sei. Só sei que agora dói. Dói tanto que meu corpo não aguenta. Me encolho no chão, abraçando as próprias pernas como se isso pudesse me manter inteira. Me permito chorar não um choro bonito ou silencioso, mas um choro feio, descontrolado, que vem do fundo da alma.

***

Entrego a sacola, sem sequer olhar para Kefhera. Passo por ela sem dizer nada. Não estou em condição nenhuma pra conversa. Estamos longe de casa. Quero andar. Sentir o chão. Me punir, talvez. Andar sozinha.

— Elaine está morta.

Paro. Mas não me viro.

— Quando chegamos à mansão, ela já estava em chamas. Ouvimos gritos lá dentro, mas não durou muito. Talvez amanhã saia nas notícias que foi um acidente... Mas não foi. Foi Nayla. Mãe do Pierre.

Nayla. Aquela vadia... Foi ela quem contou. Foi ela quem destruiu tudo. Eu ia contar... eu juro que ia. As coisas poderiam ter sido diferentes.

— Ela conseguiu se vingar da filha que Elaine matou. — Kefhera solta um suspiro pesado. — Acabou. Entra. Te dou uma carona.

— Não. — minha voz sai seca. — Quero ir a pé.

Continuo andando. Não olho pra trás. Não respondo mais nada. Ela fala, pergunta, tenta entender. Mas não dá. Tudo acabou.

Continua...

O ponto de vista importa, porque se o livro se passasse mais na visão do Pierre, vocês iriam odiar a Kristhen já que ela não demonstra muito os sentimentos na frente das pessoas e apenas frieza

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O ponto de vista importa, porque se o livro se passasse mais na visão do Pierre, vocês iriam odiar a Kristhen já que ela não demonstra muito os sentimentos na frente das pessoas e apenas frieza.

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