Capítulo 60- Doce e o Perigo

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Kristhen Zillord

Ele termina de pentear meu cabelo com uma lentidão quase cerimonial, como se estivesse finalizando uma pintura. Cada fio é alisado com o cuidado de quem aprendeu a sentir sem pressa. Sua palma repousa contra a minha cabeça, quente, firme. Depois desliza até parar na nuca. Seus olhos encontram os meus com aquele sorriso discreto, mas verdadeiro, o tipo de expressão que ele raramente entrega sem calcular.

— Pronto — murmura.

— Ficou feliz em me dar banho? — provoco, sem tirar os olhos dele enquanto ele caminha até o closet.

— Sim... gostei de fazer isso — responde de costas, e por isso mesmo sua resposta soa mais sincera.

Apoio minhas costas na parede, braços cruzados. Continuo nua. Ele sabe que vai ter que trazer minhas roupas, e honestamente, quero ver o que ele vai me dar.

— Você... quer sair pra comer? — ele se vira com uma blusa nas mãos, hesitando. — Vai ter um clima estranho se você comer conosco hoje na mesa.

Claro. Como se isso fosse mesmo sobre o clima.

— Quero. Aonde vai me levar?

— Em uma lanchonete... um pouco longe, mas é a melhor que eu já comi quando era mais novo.

Mais novo. Curioso você dizer isso, Reed. Você foi sequestrado aos dezesseis. E nunca mais saiu.

— Pode ser — respondo, desconfiada, mas curiosa.

— Beleza — ele sorri, genuinamente animado — Só deixa eu vestir minha roupa que já vou pegar a sua.

Ele se aproxima, beija minha testa rápido demais, e some para o outro quarto. Fico parada, observando o vazio que ele deixou atrás de si. Me pergunto como tudo isso vai terminar. Se essa ilusão vai durar tempo o suficiente pra ele me perdoar. Ou se já perdoou e só não quer admitir.

Passam-se minutos demais. A ponto de parecer que ele tá fabricando a roupa do zero. Quando a porta finalmente se abre, ele entra com algumas peças nas mãos. Caminho até ele e pego as roupas — ou o que ele teve a ousadia de chamar de roupas.

Uma blusa minúscula, uma calcinha simples e um short curto o bastante pra parecer indecente.

— Por que você pegou as menores roupas? — olho nos olhos dele, desafiadora.

Ele desvia o olhar, coça a nuca, culpado até os ossos.

— Só... vi essas.

Claro. E eu sou a porra da fada do dente.

Reviro os olhos, visto a blusa que gruda no meu corpo como se tivesse sido feita pra exibir o que eu não pedi pra mostrar. Meus seios ficam ainda mais marcados, a barriga exposta. Visto a calcinha e então o short, que mal cobre minha bunda. Me viro para ele com um sorriso irônico.

— Feliz em me ver nessa roupa curta?

Ele me olha de cima a baixo e até tenta conter o sorriso, mas por dois segundos, ele escapa — pequeno, torto, e cheio de desejo. Não preciso de resposta.

— Vamos sair pela porta dos fundos — ele diz de repente, segurando meu pulso com firmeza.

Sem aviso, sou puxada para o andar de baixo, em silêncio, como dois adolescentes fugindo. O cuidado com que ele evita fazer barulho só reforça o quão errado isso tudo é e ainda assim, estou indo com ele.

Passamos perto do cômodo onde Elaine fala ao telefone. Ela menciona algo escondido no quarto da antiga casa em reforma. Não escuto tudo. E mesmo se escutasse... minha atenção já está comprometida com a mão de Reed deslizando da minha pele até entrelaçar nossos dedos. Ele não me solta.

KristhenOnde histórias criam vida. Descubra agora