Capítulo 57- Se Eu Pudesse Voltar

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Kristhen Zillord

Encaro as costas dele. O estalo seco de vidro rachando no chão me faz piscar. O copo tinha atingido o ombro dele, o líquido escorria pelo chão junto dos cacos.

— VOCÊ ESTÁ TRANSANDO COM A SEGURANÇA?! — a voz da mãe dele explode, feroz, cortando o ar como um chicote.

— E o que isso tem a ver? — Reed gira, se colocando à minha frente, me escondendo da visão dela — Não posso mais ficar com ninguém?

— Ficar? — Elaine cospe as palavras — Você é homem! Não um moleque! Eu não te criei pra sair pegando qualquer garota que passa. E a Samy? O que você acha que ela vai pensar disso?

— Que se foda a Samy! — ele grita, e seu corpo inteiro vibra com a fúria. — Que se foda o que todo mundo pensa! Eu nem gosto mais daquela ruiva. Ela desejou a minha morte, e sinceramente? Espero que o pior aconteça com ela.

— O-o quê?! — a incredulidade na voz dela é real, arranhada, quase ofegante. — E isso te dá o direito de transar com a segurança?! Foi você, né, Kristhen? Você fez isso com ele! Está transformando meu filho num garoto que trepa com todas! Sua vadia imunda!

— MÃE! — ele ruge — Não a chame assim!

— Eu quero essa garota fora da minha casa! — Elaine avança alguns passos, o rosto em brasa — Ela só traz destruição, confusão e decadência! Eu não vou aceitar uma vadia que entrega a buceta pra todos os homens do bairro. E muito menos vou ver o meu filho se imundando com ela. OLHA PRA VOCÊ! — seus saltos batem no chão com raiva enquanto se afasta — Olha no que você se transformou! Nunca falou assim comigo. Agora tá aí, defendendo alguém que nem conhece direito. Não percebe que ela pode estar só te usando? Pra sexo... ou pra alguma coisa pior?

— Mãe, chega. Eu tô cansado. Cansado dessas regras que só me sufocam, que me impedem de viver.

— Te impede?! — ela se vira com os olhos arregalados — Quando foi que eu te proibi de fazer algo?

— Você acha que eu sempre fui tímido, e ficou com isso cravado na cabeça! Sempre que eu tentava me aproximar de alguém, você dava um jeito de cortar. Não venha dizer que era timidez, porque não era! Você me moldou assim. Me fez crescer com medo de fazer amigos. De falar com alguém. De confiar.

— EU SÓ QUIS TE PROTEGER! — a voz dela falha, como se algo dentro estivesse se quebrando — As pessoas mentem, Reed. Elas usam umas às outras. Eu passei por isso. Me destruíram. Me traíram. Eu nunca desejei isso pra você...

— Eu não sou mais criança. — a voz do Reed está firme — Eu não preciso mais que você me proteja. Eu só quero... viver. E você não pode se intrometer nisso.

— Você está cego... Não vê que essa garota tá te manipulando?

— Deixa a Kristhen em paz! — ele avança um passo, os punhos cerrados. — Você acha que eu não sei que você anda vigiando tudo o que ela faz?

— Vai continuar defendendo ela, né? — Elaine ri, amarga — Gosta dela?

Ele não responde. E isso diz tudo.

— Nem sabe o que sente. — ela solta, gelada — Tudo bem. Só espero que quebre a cara com essa vadia.

— JÁ DISSE PRA NÃO CHAMAR ELA ASSIM!

— Quando cair a ficha... lembra do que eu disse. — ela gira nos calcanhares e caminha até a porta — Você vai se arrepender por não ter me escutado.

A porta bate com tanta força que parece fazer o chão vibrar. Reed suspira, pesado, os ombros desabando. Ele bagunça os próprios cabelos, como se quisesse arrancar a cabeça fora.

— Droga... — sussurra, a respiração trêmula.

Ele abaixa pra pegar os cacos espalhados, mas eu me adianto.

— Eu pego — falo baixo, impedindo o gesto dele — Continua suas tarefas.

Ele me encara por um segundo, mas não discute. Apenas passa por mim em silêncio e volta pra cadeira.

***

Aquela briga... toda aquela raiva, me puxou de volta pro passado. Me lembrou de quem eu fui. Da menina que deixou os outros baterem nela mesmo sabendo lutar. Porque tinha medo de que, se revidasse, alguém se machucasse. Criança estúpida. Inocente.

Eu suportei tudo. Bullying, exclusão, insultos. E por quê? Porque eu achava que meu sofrimento protegia os outros. Que meu silêncio salvava.

Mas ninguém me salvou.

Nasci numa casa de assassinos. Não conheço meus pais de verdade. Fui rejeitada por ser alta demais, magra demais, estranha demais. Nunca tive amigos. Nunca soube o que é ser amada. Nunca soube o que é felicidade.

E agora, com ele me defendendo assim... algo dentro de mim dói.

Pierre. Ele foi um dos únicos momentos bons da minha vida. Poucos, sim. Mas intensos. Me apeguei demais. Me tornei dependente. Destruí os momentos bons com minha insegurança, com minha dor silenciosa.

Eu o feri tentando me curar. Sem saber.

Hoje, aos vinte anos, sei exatamente o que fiz. E mudaria tudo. Cada decisão errada. Cada gesto desesperado. Eu tive uma chance. Tive. Mas deixei ir. E o tempo, esse filho da puta, não permite retrocesso. Só me resta o arrependimento, cravado no peito como uma faca que nunca para de doer.

Se eu tivesse uma segunda chance... Se pudesse ser uma garota normal... talvez agora nada disso estivesse acontecendo. Reed não teria sido sequestrado — Pierre, quero dizer — e talvez... ainda fôssemos amigos.

Mas isso tudo só existe na minha imaginação. Uma vida tranquila. Uma existência comum. Que piada.

Me perco nesses pensamentos até sentir algo se encostar na minha barriga. Olho pra baixo.

A cabeça dele. Reed encosta em mim.

— Tô cansado...

— Cansado? — pergunto, pousando a mão devagar sobre os cabelos pretos dele.

— É... Eu não sei de quê... — ele fala baixo — Minha cabeça... ela tá cheia de cenas que eu nem vivi. E isso tá me matando. Dói. Dói aqui — ele aponta para a lateral da testa — e aqui também — agora o peito.

Merda. Isso é ruim. Muito ruim.

Ele está voltando... as memórias estão começando a emergir mais rápido do que imaginei.

Preciso agir. Antes que seja tarde demais.

Continua...

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