Capítulo 36- Quando a Luz se Apaga

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Reed Walsh

Apago a luz da cozinha depois de limpar tudo. Ainda há um leve cheiro de sabão no ar, misturado com o de comida morna que já esfriou. O dia foi... divertido. Conversei com ela sobre algumas coisas — conversas leves, talvez até bobas — mas Kristhen não disse nada sobre si. Nenhuma pista, nenhuma história. Ainda assim... foi divertido.

Entro no corredor, tateando as paredes. Está escuro como um abismo, e os olhos demoram a se ajustar. Dou passos lentos, tropeçando quase, até que uma luz escapa pela porta entreaberta do quarto dela.

Kristhen deve estar dormindo. Talvez ela esqueceu a luz acesa. Não vai se importar se eu apagar.

Empurro a porta com cuidado, mas me deparo com algo completamente diferente do que imaginei. Ela não está deitada, está sentada, concentrada, como uma estátua viva. Limpa meticulosamente uma arma, sob a luz amarelada do abajur. Suas mãos são precisas, firmes, quase coreografadas.

— Pensei que estivesse dormindo.

— Estava tentando. — ela desmonta uma peça da arma e a deposita com cuidado sobre a mesa. — Mas não consegui. Estou limpando tudo. Não posso correr o risco de uma arma travar se eu estiver em um tiroteio.

— Tiroteio? — franzo a testa. — Você acha mesmo que vai ter um?

— Provavelmente. — a tranquilidade com que ela diz isso é tão absurda que me tira o ar por um segundo. — Pode deixar que eu apago a luz depois.

Ela joga o cabelo para trás com um movimento rápido da cabeça, e me olha. Os olhos dela são afiados, atentos a tudo. O quarto, diferente do meu, tem toques de personalidade

Entro mais no quarto, guiado por uma curiosidade infantil.

— O que está fazendo? — ela pergunta sem tirar os olhos do que faz.

— Seu quarto é bem decorado. Bem mais que o meu. — pego o vaso e o examino contra a luz.

— Não é meu. Só vou ficar aqui por alguns dias.

Me viro para encará-la. Ela parece totalmente imersa em sua tarefa. Me aproximo, silenciosamente, até ficar ao lado da mesa. A observo trabalhar. Ela enfia uma haste com um pano pelo cano da arma e a gira com precisão. Depois, solta a peça com um leve estalo e a deixa de lado.

Mas então seus olhos se voltam para mim.

— Não vai pro seu quarto?

— Eu só...

— Veio me dar boa noite? — ela vira o corpo devagar, os olhos ainda mais intensos. — Ou está com medo do escuro?

— O quê? Eu não tenho medo do escuro.

— Então vai pro seu quarto. Tenho mais algumas armas pra terminar.

Olho para a mesa. São muitas. Armas pequenas, grandes, algumas desmontadas até o último parafuso.

— Por que você tem tantas?

— Porque eu gosto. Sempre gostei.

O recado está dado. Melhor deixar ela sozinha antes que resolva testar alguma dessas em mim. Dou um suspiro, me viro e caminho até a porta.

Mas assim que saio, todas as luzes da casa se apagam num estalo seco. Um silêncio denso se instala antes de o som do meu próprio coração preencher meus ouvidos.

— Kristhen?

— Calma, bebezão. — a voz dela surge logo depois, firme e sarcástica. Uma lanterna se acende, iluminando o corredor. Ela surge na porta do quarto com a arma numa mão e a lanterna na outra. — Acho que rolou um apagão. Onde fica o disjuntor?

KristhenOnde histórias criam vida. Descubra agora