Reed Walsh
Apago a luz da cozinha depois de limpar tudo. Ainda há um leve cheiro de sabão no ar, misturado com o de comida morna que já esfriou. O dia foi... divertido. Conversei com ela sobre algumas coisas — conversas leves, talvez até bobas — mas Kristhen não disse nada sobre si. Nenhuma pista, nenhuma história. Ainda assim... foi divertido.
Entro no corredor, tateando as paredes. Está escuro como um abismo, e os olhos demoram a se ajustar. Dou passos lentos, tropeçando quase, até que uma luz escapa pela porta entreaberta do quarto dela.
Kristhen deve estar dormindo. Talvez ela esqueceu a luz acesa. Não vai se importar se eu apagar.
Empurro a porta com cuidado, mas me deparo com algo completamente diferente do que imaginei. Ela não está deitada, está sentada, concentrada, como uma estátua viva. Limpa meticulosamente uma arma, sob a luz amarelada do abajur. Suas mãos são precisas, firmes, quase coreografadas.
— Pensei que estivesse dormindo.
— Estava tentando. — ela desmonta uma peça da arma e a deposita com cuidado sobre a mesa. — Mas não consegui. Estou limpando tudo. Não posso correr o risco de uma arma travar se eu estiver em um tiroteio.
— Tiroteio? — franzo a testa. — Você acha mesmo que vai ter um?
— Provavelmente. — a tranquilidade com que ela diz isso é tão absurda que me tira o ar por um segundo. — Pode deixar que eu apago a luz depois.
Ela joga o cabelo para trás com um movimento rápido da cabeça, e me olha. Os olhos dela são afiados, atentos a tudo. O quarto, diferente do meu, tem toques de personalidade
Entro mais no quarto, guiado por uma curiosidade infantil.
— O que está fazendo? — ela pergunta sem tirar os olhos do que faz.
— Seu quarto é bem decorado. Bem mais que o meu. — pego o vaso e o examino contra a luz.
— Não é meu. Só vou ficar aqui por alguns dias.
Me viro para encará-la. Ela parece totalmente imersa em sua tarefa. Me aproximo, silenciosamente, até ficar ao lado da mesa. A observo trabalhar. Ela enfia uma haste com um pano pelo cano da arma e a gira com precisão. Depois, solta a peça com um leve estalo e a deixa de lado.
Mas então seus olhos se voltam para mim.
— Não vai pro seu quarto?
— Eu só...
— Veio me dar boa noite? — ela vira o corpo devagar, os olhos ainda mais intensos. — Ou está com medo do escuro?
— O quê? Eu não tenho medo do escuro.
— Então vai pro seu quarto. Tenho mais algumas armas pra terminar.
Olho para a mesa. São muitas. Armas pequenas, grandes, algumas desmontadas até o último parafuso.
— Por que você tem tantas?
— Porque eu gosto. Sempre gostei.
O recado está dado. Melhor deixar ela sozinha antes que resolva testar alguma dessas em mim. Dou um suspiro, me viro e caminho até a porta.
Mas assim que saio, todas as luzes da casa se apagam num estalo seco. Um silêncio denso se instala antes de o som do meu próprio coração preencher meus ouvidos.
— Kristhen?
— Calma, bebezão. — a voz dela surge logo depois, firme e sarcástica. Uma lanterna se acende, iluminando o corredor. Ela surge na porta do quarto com a arma numa mão e a lanterna na outra. — Acho que rolou um apagão. Onde fica o disjuntor?
VOCÊ ESTÁ LENDO
Kristhen
RomansaReed Walsh sempre teve tudo. Filho de um dos empresários mais poderosos dos Estados Unidos, Reed vive cercado de luxo, mas também da própria timidez. Incapaz de se aproximar das pessoas, ele se isola, até que seu pai, preocupado com ameaças, toma um...
